Com o título “O papagaio e o picadeiro”, eis artigo de Gera Teixeira, jornalista e empresário. “Nem todo eleitor de Lula é de esquerda. Nem todo eleitor de Flávio é de direita. Muitos carregam menos uma convicção que uma aversão. Apertam os números pensando no nome que desejam apagar”, expõe o articulista.
Confira:
Certa vez, disse que Walt Disney talvez tivesse capturado uma parte incômoda do brasileiro. Nos anos 1940, enquanto a guerra devastava o mundo, os Estados Unidos cultivavam laços com a América Latina. A política da boa vizinhança passava pelas telas.
Carmen Miranda encantava os americanos com sua baiana e seus frutos sobre a cabeça. Em 1942, apareceu Zé Carioca: conversa fácil, simpatia, esperteza. Um papagaio capaz de atravessar dificuldades sem perder a pose. O desenho envelheceu menos que nossas esperanças.
Lembrei dele depois das eleições de ontem.
Flávio Bolsonaro ficou à frente de Lula. Os dois seguem para o segundo turno. Mas os números não dizem tudo sobre quem entrou na cabine. Há votos que parecem escolher um presidente e, na verdade, procuram impedir o outro.
Nem todo eleitor de Lula é de esquerda. Nem todo eleitor de Flávio é de direita. Muitos carregam menos uma convicção que uma aversão. Apertam os números pensando no nome que desejam apagar.
O adversário acaba escolhendo nosso candidato.
De um lado, Lula e o desgaste de uma trajetória atravessada pelo Mensalão, pelo Petrolão e pela Lava Jato. Foi condenado nas instâncias inferiores, preso e teve as condenações anuladas pelo Supremo por detalhe do juízo. A decisão pode até ter seu fundamento jurídico, a revelia da moral e da ética; a confiança pública não se recompõe por despacho.
Do outro, Flávio, herdeiro do nome e do capital político do pai. O sobrenome mobiliza antes que o projeto seja examinado. Entre a memória de um governo e a promessa de outro, o país parece condenado a discutir famílias enquanto adia suas necessidades.
E nós, brasileiros, encontramos um jeito de relativizar tudo. Exigimos provas contra os nossos e aceitamos suspeitas contra os outros. A corrupção muda de gravidade conforme a cor da bandeira que a encobre.
A Justiça, que deveria oferecer a medida, se tornou objeto de desconfiança. Há horas em que olho para Brasília e vejo uma corte cercada de cerimônia, distante de quem sustenta suas paredes. Os poderes cobram respeito; eu continuo esperando reciprocidade.
E as Forças Armadas? A solenidade das fardas não responde às perguntas de um país cansado.
O circo permanece armado. No picadeiro dos três “podreres”, cada artista anuncia que salvará a plateia do colega. A plateia paga, discute e volta na sessão seguinte.
Zé Carioca talvez sorrisse. Eu já não consigo.
Porque a esperteza que nos ajuda a sobreviver também pode nos ensinar a aceitar o inaceitável.
*Gera Teixeira
Jornalista e empresário.