“O pessimismo coletivo e as eleições brasileiras” – Por Alex Araújo

Alex Araújo é economista

Com o título “O pessimismo coletivo e as eleições brasileiras”, eis artigo de Alex Araújo, economista. “O Brasil entra em 2026 dentro desse padrão global, mas com agravantes próprios. Mesmo com alguns indicadores razoáveis, a sensação predominante é de estagnação. As pessoas não sentem que estão avançando. Sentem que estão sobrevivendo”, expõe o articulista.

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Durante muito tempo, acreditamos que eleições eram decididas por números. Crescimento do PIB, inflação, emprego. Se os indicadores iam bem, o governo era premiado. Se iam mal, era punido. Essa lógica ainda existe, mas deixou de explicar o essencial do comportamento político contemporâneo.

Uma pesquisa recente analisada pela The Economist aponta algo mais profundo: em quase todas as economias avançadas, o pessimismo sobre o futuro tornou-se mais disseminado e mais persistente do que em qualquer outro momento do pós-guerra. A maioria das pessoas acredita que a próxima geração viverá pior, que o sistema econômico favorece poucos e que as instituições desperdiçam recursos. O ponto central não é apenas econômico. É psicológico e, sobretudo, político.

Hoje, expectativas coletivas influenciam decisões mais do que indicadores objetivos. Mesmo quando a inflação recua, o emprego cresce ou o PIB reage, a confiança social não acompanha. O eleitor moderno vota menos com base em dados e mais com base em narrativas emocionais sobre o futuro. Estamos vivendo uma transição silenciosa da economia dos fatos para a economia dasexpectativas.

A economia sempre reconheceu que decisões não são puramente racionais.Keynes falava em animal spirits para explicar os impulsos psicológicos que movem investidores e consumidores. Décadas depois, Robert Shiller mostrou como narrativas — histórias compartilhadas sobre para onde estamos indo — moldam ciclos econômicos e políticos. O que mudou agora é a escala e a duração desse fenômeno. O pessimismo deixou de ser episódico. Tornou-se estrutural.

Ele não aparece apenas em crises profundas. Persiste mesmo quando os dados melhoram. O resultado é um ambiente em que a confiança não se recupera com políticas convencionais, a percepção de injustiça se cristaliza e a política econômica deixa de ser vista como técnica para ser julgada como moral. Surge, assim, o que podemos chamar de economia emocional: um contexto em que eleições deixam de ser plebiscitos sobre desempenho e passam a ser referendos sobre sentimentos coletivos — medo, insegurança, ressentimento e uma esperança difusa.

O Brasil entra em 2026 dentro desse padrão global, mas com agravantes próprios. Mesmo com alguns indicadores razoáveis, a sensação predominante é de estagnação. As pessoas não sentem que estão avançando. Sentem que estão sobrevivendo.

Três fatores tornam esse quadro mais intenso. O primeiro  a memória inflacionária recente. Mesmo quando os preços desaceleram, o trauma da perda de poder de compra continua vivo. O segundo é a baixa mobilidade social percebida. Cresce a sensação de que trabalhar não compensa e de que o sistema beneficia poucos. O terceiro é o esgotamento da promessa institucional. Após décadas de reformas, ajustes e planos, a sociedade demonstra fadiga. A crença de que mudanças estruturais tragam ganhos reais diminuiu.

Nesse ambiente, a política econômica deixa de ser vista como solução e passa a ser percebida como parte do problema. O eleitor já não pergunta apenas “o que o governo entregou?”. Pergunta cada vez mais “como me sinto em relação ao amanhã?”. Quando o futuro é visto como ameaça, dados positivos perdem força. A experiência emocional se torna o critério decisivo.

Isso não é irracionalidade. É uma outra racionalidade — defensiva. Em ambientes de incerteza prolongada, proteger-se parece mais lógico do que apostar em trajetórias longas. A política deixa de ser sobre progresso e passa a ser sobre amortecimento.

Esse deslocamento psicológico produz uma reorganização profunda da lógica eleitoral. Em contextos de pessimismo estrutural, ocorre uma inversão silenciosa no comportamento do eleitor. Não se vota mais no projeto que promete maior crescimento. Vota-se no discurso que melhor administra a ansiedade coletiva. Esse é o núcleo da economia emocional aplicada à política.

Quando o futuro é percebido como ameaça, três mudanças decisivas aparecem no padrão de voto. A primeira é o descolamento entre desempenho e popularidade. Historicamente, governos eram premiados por crescimento e punidos por recessão. Hoje, esse vínculo enfraqueceu. Mesmo com indicadores aceitáveis, a popularidade não acompanha porque o eleitor não percebe melhora em sua trajetória pessoal, a insegurança em relação ao amanhã neutraliza ganhos presentes e narrativas negativas circulam mais rápido do que dados positivos. A política deixa de ser retrospectiva e passa a ser prospectiva emocional.

A segunda mudança é a ascensão do voto defensivo. Quando as pessoas acreditam que o futuro será pior, sua tolerância a sacrifícios de curto prazo desmorona. No Brasil, isso se traduz em rejeição a reformas impopulares, mesmo quando necessárias, apoio a políticas de alívio imediato, ainda que fiscalmente custosas, e preferência por líderes que prometem proteção, não transformação. É a substituição da política do progresso pela política do amortecimento.

A terceira é a redefinição da clivagem ideológica. Em ambientes de pessimismo, a disputa deixa de ser esquerda versus direita e passa a ser o
proteção versus exposição. Quem se apresenta como escudo contra um mundo percebido como hostil tende a ganhar vantagem.

Nesse novo terreno, três tipos de discurso passam a disputar espaço. O primeiro é o discurso da proteção distributiva. Ele denuncia um sistema visto como injusto, promete redistribuição direta, defende regulação forte e aposta no gasto público como instrumento de justiça social. Politicamente, é altamente eficaz. Economicamente, carrega riscos: enfraquecimento fiscal, retração do investimento e aumento do prêmio de risco do país.

O segundo é o discurso da esperança pragmática. Mais difícil de construir, mas estrategicamente superior no médio prazo. Ele não nega o medo social. Reconhece-o. Mas oferece uma narrativa de reconstrução produtiva, ligando proteção social a crescimento e apresentando reformas como instrumentos de emancipação, não como sacrifício vazio. Não promete paraísos. Promete trajetória. Em tempos de pessimismo estrutural, isso é raro — e justamente por isso poderoso.

O terceiro é o discurso tecnocrático, que tende a fracassar. Comunicações baseadas apenas em gráficos, metas e séries históricas soam, para o eleitor inseguro, como negação de sua experiência. A mensagem implícita é “você está errado em se sentir assim”. Em uma economia emocional, isso não convence. Irrita.

Esse novo padrão de competição política traz riscos estruturais claros para o país. O primeiro é a erosão da disciplina fiscal. Quando o eleitor não acredita que o futuro será melhor, rejeita custos no presente. Políticos passam a ser recompensados por gastar, não por ajustar. Regras fiscais viram obstáculos, não garantias. O resultado é uma consolidação fiscal sempre adiada, juros estruturalmente elevados e menos espaço para investimento público de qualidade.

O segundo risco é a consolidação de uma economia defensiva. O pessimismo alimenta uma lógica de fortaleza: protecionismo disfarçado, hostilidade à inovação, medo da automação e da inteligência artificial, resistência à abertura econômica. No curto prazo, isso gera sensação de proteção. No longo prazo, reduz produtividade e crescimento potencial.

O terceiro — talvez o mais grave — é a normalização do populismo institucional. Forma-se um ciclo perigoso: pessimismo gera demanda por
proteção; líderes oferecem gasto e confronto; instituições se enfraquecem; o crescimento cai; o pessimismo se aprofunda. O risco já não é apenas repetir esse ciclo. É aceitá-lo como normal. Tudo indica que as eleições brasileiras não serão decididas por plataformas
técnicas, mas por arquiteturas emocionais de sentido. O eleitor não perguntará Restrito apenas “quem tem o melhor plano?”. Perguntará sobretudo “quem me dá menos medo do futuro?”.

Nesse ambiente, a disputa real acontece entre três narrativas. A da proteção, que vê o Estado como escudo. A da reconstrução, que vê o Estado como alavanca. E a da gestão, que vê o Estado como administrador. A primeira tende a ser emocionalmente mais potente. A última, a mais fraca. 

O maior risco, porém, não é apenas econômico. É psicológico-institucional. Quando sociedades perdem a crença em um futuro melhor, as regras do jogo democrático mudam. Reformas perdem apelo. Emoção substitui cálculo. Gasto substitui estratégia.

Se a economia é cada vez mais emocional, então a eleição será, antes de tudo, uma disputa sobre quem controla a narrativa do amanhã. E essa, mais do que qualquer indicador, será a variável decisiva de 2026.

*Alex Araújo

Econmista e ex-secretário de Desenvolvimento Local do Ceará.

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