“O petróleo não é nosso” – Por Marcos C. Holanda

Marcos Holanda, economista e ex-presidente do BNB. Foto: Sara Maia.

Com o titulo “O petróleo não é nosso”, eis artigo de Marcos C. Holanda, economista e ex-presidente do Banco do Nordeste. “Imagina se o Vini Jr. fosse obrigado a vender seu serviço, que é global, apenas no mercado de futebol local pois ele foi “produzido” no Brasil. Seria justo?”, expõe o articulista.

Confira:

Há uma ideia recorrente no debate público brasileiro de que “o petróleo é nosso”. Assim, deveria ser vendido internamente a preços baixos, determinados pelos custos domésticos de produção. Essa visão é politicamente sedutora, porem economicamente equivocada.

O petróleo não é um bem local. É uma commodity global. Seu preço não é definido em Brasília, ou nas refinarias da Petrobras. É determinado em mercados internacionais, em dólar, refletindo forças globais de oferta e demanda, tensões geopolíticas e expectativas financeiras. O mercado não tem dono, ele é formado por milhares de empresas produtoras e milhões de consumidores. Mesmo no caso do petróleo, onde o número de produtores é menor, existe intensa competição.

Quando se tenta precificar combustíveis com base no custo doméstico e não na paridade internacional penaliza-se as empresas de petróleo e seus acionistas. As empresas vendem abaixo do valor de mercado e absorvem a diferença. Isso reduz lucro, deteriora o caixa e compromete capacidade de investimento futuro. Imagina se o Vini Jr. fosse obrigado a vender seu serviço, que é global, apenas no mercado de futebol local pois ele foi “produzido” no Brasil. Seria justo?

Outro erro comum é tratar a alta do petróleo como inflação. A elevação do preço do petróleo é, antes de tudo, um choque de oferta. Ela altera preços relativos – energia mais cara, transporte mais caro, bens dependentes de logística mais caros. Mas isso só se transforma em inflação persistente se houver acomodação macroeconômica – tipicamente via expansão fiscal ou monetária para sustentar o consumo. Sem isso, o efeito tende a ser pontual: uma mudança de nível de preços, não um processo inflacionário contínuo.

Quando o governo tenta “proteger” consumidores via subsídios, seja reduzindo preços artificialmente, seja compensando aumentos, o problema muda de forma, mas não desaparece. Ele reaparece no fiscal. Ao expandir gastos para conter preços, o governo injeta demanda na economia. A consequência é pressão inflacionária por outro canal – agora mais difusa e persistente. Ou seja: o que não aparece na bomba, aparece no déficit, nos juros e na inflação futura.

No final do dia temos que fazer uma escolha difícil. Ou aceitamos uma mudança, que deve ser temporária, nos preços relativos ou tentamos evita-la com mais inflação que no caso do Brasil possui muito inercia e cobra juros mais altos por mais tempo. O subsidio anunciado ao diesel mostra que a perspectiva é termos mais inflação, mais juros e menos crescimento.

*Marcos C. Holanda

Economista e ex-presidente do Banco do Nordeste.

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