“O problema não é o voto, é a gestão” – Por Thiago Matos

Thiago Matos é advogado tributarista

“Não é preciso fraude para deformar uma eleição; basta controle”, aponta o advogado tributarista Thiago Matos

Confira:

Na política brasileira, celebramos a alternância de poder como sinal de saúde democrática e, em alguma medida, é. Mudam-se os grupos, os discursos, o estilo; mas certas práticas atravessam governos com uma constância que já não surpreende, apenas cansa. Daí nasce a desconfiança, essa forma silenciosa de desgaste institucional. Nas conversas mais simples, repete-se a impressão: muda quem governa, mas nem sempre muda como se governa. Pode haver exagero, mas exageros persistentes raramente são gratuitos. Talvez o problema não esteja na eleição, mas no que acontece depois dela.

Enquanto isso, a realidade social e econômica segue outro curso. No Ceará, mais de 40% da população vive com renda inferior a meio salário mínimo por pessoa. Em Fortaleza, bairros separados por poucos quilômetros exibem rendas que quase não se reconhecem. A cidade não se divide por vontade; divide-se por condição. E todas essas partes votam. O voto é igual; o poder, não. A economia se organiza em torno de poucos, a política na soma de muitos e, entre uma e outra, está a gestão pública: menos visível que a campanha, mas incomparavelmente mais decisiva, porque é nela que promessas deixam de ser palavras e passam a produzir consequências.

Em certas áreas da cidade, esse problema assume forma mais nítida. Onde o Estado falha, alguém ocupa e não apenas impõe regras: substitui, na prática, a autoridade. Em territórios sob influência de facções, o poder público deixa de ser referência exclusiva. Surge uma ordem paralela, capaz de moldar comportamentos, impor limites e influenciar escolhas, inclusive políticas. O voto permanece, mas já não é inteiramente livre. Não é preciso fraude para deformar uma eleição; basta controle. Forma-se, assim, um quadro que raramente aparece inteiro nos discursos: concentração econômica, alternância política e espaços em que o poder real não se submete plenamente nem ao Estado, nem ao mercado, nem ao cidadão.

Jonathan Haidt, em A Mente Moralista, observa que sociedades não mudam por argumento, mas por processo. A moral pública amadurece devagar; a gestão, porém, não dispõe desse tempo. O dano não espera a pedagogia social. Talvez por isso a questão central não seja apenas política, mas estratégica: como alinhar os incentivos de quem decide? O homem raramente abandona o erro por iluminação; costuma fazê-lo quando o erro se torna arriscado. Nesse ponto, algumas experiências estrangeiras merecem atenção não por exotismo, mas por pragmatismo. Nos Estados Unidos, o False Claims Act opera sobre uma premissa simples: quem revela fraude contra o Estado pode participar do valor recuperado. Em 2025, esse modelo contribuiu para a recuperação de cerca de 6,8 bilhões de dólares, com mais de 330 milhões distribuídos a denunciantes.

Não se trata de exaltar a virtude; trata-se de alterar o cálculo. De fazer com que o risco deixe de ser remoto e passe a habitar a própria engrenagem administrativa.

No Brasil, ainda preferimos acreditar que boas normas produzirão, por si, bons resultados. É uma esperança respeitável, mas empiricamente frágil. Sistemas estáveis não são os que pressupõem virtude; são os que tornam o desvio caro, visível e inconveniente.

No fim, o problema não está apenas no voto, nem na economia, nem na segurança.

Está na gestão.

Na forma como o poder é exercido depois de conquistado.

Porque, quando a sociedade passa a sentir que tudo muda para que tudo permaneça, o desgaste deixa de ser institucional e passa a ser moral.

E, nesse momento, o voto deixa de ser escolha.

E passa a ser reação.

Thiago Matos é advogado tributarista

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