“O que está acontecendo com os nem-nem?” – Por Alex Araújo

Alex Araújo é economista, ex-secretário de Desenvolvimento Regional do Estado do Ceará e atual diretor de Negócios da Camed Microcrédito e Serviços. Foto: Arquivo pessoal

Com o título “O que está acontecendo com os ‘nem-nem”?”, eis artigo de Alex Araújo, economista e ex-secretário de Desenvolvimento Local do Ceará. “(…) o futuro econômico do Brasil dependerá da capacidade de converter essa reintegração dos jovens em capital humano, renda e produtividade ao longo das próximas décadas”, expõe o articulista.

Confira:

Durante muitos anos, os jovens “nem-nem” — aqueles que não estudam, não trabalham e não participam de atividades de qualificação profissional — tornaram-se um dos símbolos mais visíveis das dificuldades estruturais do Brasil.

Em um país que envelhece rapidamente e ainda convive com baixa produtividade, a permanência de milhões de jovens afastados tanto da educação quanto do mercado de trabalho representa não apenas um problema social, mas também uma perda significativa de capital humano e potencial de crescimento econômico.

Os dados mais recentes do IBGE, porém, mostram uma mudança relevante. Em 2025, 17,5% dos brasileiros entre 15 e 29 anos encontravam-se nessa condição, ante 22,4% em 2019. A diferença pode parecer modesta à primeira vista, mas corresponde a aproximadamente 2,8 milhões de jovens que deixaram essa situação nos últimos seis anos.

Em termos absolutos, o contingente caiu de cerca de 11 milhões para 8,2 milhões de pessoas. A melhora foi particularmente expressiva entre grupos historicamente mais vulneráveis. Entre jovens pretos e pardos, a proporção recuou de 25,7% para 19,8%. Entre as mulheres, caiu de 28,5% para 22,8%.

As desigualdades permanecem elevadas, mas a redução foi amplamente disseminada. Isso leva à questão central: o que explica essa mudança?

Os números sugerem que esses jovens seguiram três trajetórias principais: ingresso no mercado de trabalho, permanência ou retorno à educação formal e participação em cursos de qualificação profissional.

O mercado de trabalho voltou a absorver jovens

O primeiro fator é econômico. Após a pandemia, o Brasil viveu uma recuperação do emprego mais forte do que muitos analistas previam. A taxa de desemprego caiu de forma consistente e milhões de vagas formais foram criadas.

Setores intensivos em mão de obra jovem — comércio, serviços, logística, turismo, alimentação e plataformas digitais — lideraram esse movimento. Em 2025, 57,4% dos jovens brasileiros estavam ocupados. Destes, 40,8% apenas trabalhavam e 16,6% conciliavam trabalho e estudo.

Essa expansão ajuda a explicar parte significativa da redução dos "nem-nem". Afinal, basta que um jovem consiga uma ocupação para deixar essa condição estatística. Não por acaso, a queda mais intensa ocorreu justamente durante um período de fortalecimento do mercado de trabalho.

A expansão silenciosa da educação profissional

A segunda transformação ocorreu dentro do sistema educacional.

O ensino técnico de nível médio ainda representa uma parcela relativamente pequena das matrículas, mas sua expansão tem sido constante. Em 2019, apenas 7,0% dos estudantes do ensino médio frequentavam cursos técnicos ou normais. Em 2025, esse percentual alcançou 8,8%.

Em termos absolutos, o número de estudantes nessa modalidade cresceu mais de 20% no período. No ensino superior, os cursos tecnológicos também ganharam espaço. Em 2016, representavam 10,5% das matrículas. Em 2025, chegaram a 15,6%.

Trata-se de uma mudança relevante porque esses cursos costumam ter duração menor, maior proximidade com as demandas do mercado e retorno mais rápido para os estudantes. Em uma economia cada vez mais orientada por tecnologia e transformação produtiva, essa modalidade tende a ganhar importância.

Ao mesmo tempo, cerca de 24,8 milhões de brasileiros declararam já ter frequentado algum curso de qualificação profissional, indicando a consolidação de trajetórias intermediárias entre a escola e o emprego.

O papel da permanência escolar

Há ainda um terceiro elemento importante. O programa Pé-de-Meia foi criado para reduzir a evasão escolar entre estudantes de baixa renda por meio de incentivos financeiros vinculados à matrícula, frequência e conclusão do ensino médio.

Do ponto de vista econômico, trata-se de uma transferência condicionada de renda. Na prática, o programa altera os incentivos enfrentados pelas famílias mais vulneráveis, reduzindo a pressão para que o jovem abandone os estudos em busca de renda imediata.

Experiências semelhantes em diversos países costumam produzir resultados consistentes: aumento da frequência escolar, redução da evasão e maior conclusão do ensino médio.

O indicador dos “nem-nem” responde diretamente a esse mecanismo. Um jovem matriculado e frequentando a escola deixa automaticamente de integrar essa estatística, mesmo que ainda não tenha ingressado no mercado de trabalho.

Por isso, embora seja prematuro atribuir ao programa toda a melhora observada, é plausível supor que ele tenha contribuído para acelerar a redução dos “nem-nem” nos anos mais recentes, especialmente entre jovens de baixa renda.

O que explica mais: emprego ou política pública?

A busca por uma explicação única costuma simplificar excessivamente fenômenos complexos.

Os dados sugerem algo mais interessante: emprego, educação e política pública não atuam de forma isolada. Eles se reforçam mutuamente. O mercado de trabalho reduz a exclusão produtiva. A escola reduz a exclusão educacional. A qualificação aproxima as duas esferas.

Quando esses mecanismos avançam simultaneamente, os resultados aparecem nos indicadores. Por isso, a queda dos “nem-nem” parece menos o resultado de uma única política ou de um único ciclo econômico e mais o produto de uma combinação virtuosa entre oportunidades de trabalho, expansão educacional e incentivos à permanência escolar.

A redução de 22,4% para 17,5% na proporção de jovens que não trabalham, não estudam e não se qualificam é uma das notícias sociais mais positivas dos últimos anos. Mas seria um erro concluir que o problema foi resolvido.

Ainda existem 8,2 milhões de jovens nessa condição. Além disso, mulheres, jovens pretos e pardos e pessoas de famílias mais pobres continuam apresentando taxa significativamente superior à média nacional.

Apesar disso, os dados apontam para uma direção relativamente clara. A experiência recente sugere que a redução dos "nem-nem" depende da combinação de três elementos: um mercado de trabalho capaz de gerar oportunidades, um sistema
educacional mais conectado às demandas produtivas e políticas públicas que reduzam o abandono escolar entre os mais vulneráveis.

A queda dos “nem-nem” é mais do que uma melhora estatística. Ela sinaliza que mecanismos normalmente analisados de forma separada — emprego, educação e proteção social — podem produzir resultados muito mais relevantes quando atuam em conjunto.

Isso é particularmente importante para um país que envelhece rapidamente e precisará sustentar seu crescimento com ganhos de produtividade, e não apenas com a expansão da força de trabalho.

Os dados mostram que milhões de jovens voltaram a construir vínculos com a escola, com a qualificação ou com o mercado de trabalho. O desafio agora não é apenas preservar essa trajetória, mas transformá-la em uma mudança estrutural.

Em última instância, o futuro econômico do Brasil dependerá da capacidade de converter essa reintegração dos jovens em capital humano, renda e produtividade ao longo das próximas décadas.

*Alex Araújo 

Economista e ex-secretário do  Desenvolvimento Local.

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