“De Epstein em Fortaleza à resistência política local: como a vulnerabilidade social brasileira abastece o mercado global de abuso”. aponta a jornalista e comunicadora Sara Goes
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O Boeing 727 preto, prefixo N908JE, pousou em Fortaleza no final de 2002 trazendo a bordo não apenas Jeffrey Epstein e seus associados, mas a confirmação de que o Nordeste brasileiro havia sido inserido na rota de consumo da elite financeira global. Enquanto o mundo hoje discute os nomes selados nos tribunais de Nova York, documentos de voo e relatórios de inteligência indicam que a capital cearense serviu como ponto de apoio logístico para uma operação que tratava jovens mulheres como commodities. A presença física da aeronave conhecida como “Lolita Express” no Ceará não foi um acidente de percurso. Foi uma escolha de mercado. Onde a moeda é fraca e o Estado é ausente, o poder de compra do abusador estrangeiro se multiplica. O escândalo Epstein, portanto, não é apenas sobre o que acontecia numa ilha no Caribe, mas sobre como a desigualdade em cidades como Fortaleza cria o ambiente perfeito para que agenciadores internacionais operem com a certeza da impunidade. Enfrentar esse mecanismo exige mais do que polícia. Exige a construção de um muro de proteção social, algo que a gestão de Luizianne Lins buscou erguer ao transformar a política de assistência na cidade, retirando o tema da exploração sexual das páginas policiais para a pauta dos direitos humanos.
A logística do abuso: Jean-Luc Brunel e a Rota do Nordeste
Para compreender como Fortaleza entrou no radar de Epstein, é preciso olhar para a figura de Jean-Luc Brunel, o agenciador de modelos francês que servia como o principal “caçador de talentos” para o financista. Investigações jornalísticas internacionais e documentos anexados ao processo nos Estados Unidos apontam que Brunel utilizava a fachada de agências de modelos para lavar o tráfico de pessoas. O Brasil, com sua mítica internacional da “mulher mestiça” e a realidade de jovens deslumbradas com a possibilidade de escapar da pobreza através da moda, tornou-se um terreno fértil.
O pouso da aeronave de Epstein em Fortaleza e Salvador, registrado em planos de voo recuperados por investigações independentes, coincide com um período em que a capital cearense lutava contra o estigma de paraíso sexual. A presença desses agentes internacionais na cidade operava sob uma lógica extrativista. Eles não buscavam apenas “serviços”, mas matéria-prima para exportação. Relatórios do FBI e depoimentos de vítimas sugerem que o esquema funcionava através da cooptação de meninas em situações de vulnerabilidade econômica, muitas vezes com promessas de carreiras em Nova York ou Paris.
Essa operação só era possível porque existia uma infraestrutura local de silêncio e conivência. Onde faltam oportunidades reais de ascensão social, a promessa de um gringo rico ou de um agente de moda internacional soa como a única saída possível. A vulnerabilidade da periferia de Fortaleza era o ativo mais valioso para a rede de Epstein.
O cenário de terra arrasada: economia política do abuso
Fortaleza é uma cidade atravessada por desigualdades que produzem territórios distintos dentro do mesmo mapa. Enquanto a orla concentra hotéis, flats e restaurantes voltados ao turismo internacional, a periferia carrega índices históricos de pobreza, desemprego e ausência de serviços públicos estruturantes. É nesta fissura urbana que o mercado do sexo encontrou seu nicho de expansão, transformando a capital cearense em um polo atrativo para predadores globais.
O diagnóstico oficial dessa tragédia veio documentado. O Relatório Final da CPI do Turismo Sexual da Câmara Municipal de Fortaleza, concluído em março de 2002, afirma que havia uma estrutura organizada operando na cidade. A investigação foi instaurada após denúncias públicas de que a cidade integrava rotas internacionais de exploração, inclusive com oferta de mulheres por valores que chegavam a US$ 25, conforme reportagens da época.
A comissão parlamentar, relatada pela então vereadora Luizianne Lins, não operou no vazio. Durante o funcionamento da CPI foi disponibilizado um telefone gratuito para denúncias. O resultado foi objetivo. Foram registradas 50 denúncias formais, que resultaram em 18 verificações preliminares, 5 inquéritos policiais e 3 prisões diretamente decorrentes da apuração. A pressão institucional surtiu efeito imediato: no ano de 2001, ocorreram 17 prisões relacionadas à exploração sexual de crianças e adolescentes, sendo que 15 delas aconteceram após a instalação da comissão.
O relatório dissecou a anatomia do crime: o Ceará figurava entre os três estados brasileiros com maior número de denúncias no sistema nacional de combate à exploração sexual, segundo dados da ABRAPIA. A CPI descreveu uma rede integrada envolvendo agenciadores, taxistas, hotéis, bares, boates e barracas de praia na Beira-Mar e Praia de Iracema. Havia, inclusive, uma tabela de preços que revelava a submissão ao capital estrangeiro: adolescentes eram agenciadas por R$ 50 para clientes brasileiros e R$ 100 para estrangeiros. A exploração não era clandestina no sentido clássico. Ela operava à vista, sustentada por omissões institucionais e por uma economia informal integrada à indústria turística.
Mas a exploração sexual não brota do asfalto; ela é plantada pela miséria. Segundo dados do IBGE citados pela CPI, o Ceará ingressava no ano 2000 como o terceiro estado mais pobre da federação, com quatro milhões de pessoas vivendo na pobreza. No mesmo período, o estado havia renunciado a mais de R$ 1 bilhão em arrecadação de ICMS nos cinco anos anteriores, conforme dados do Tribunal de Contas do Estado. Havia dinheiro para incentivos fiscais, mas faltava para a proteção social. A taxa de desemprego na Região Metropolitana de Fortaleza se mantinha entre 10% e 13% durante uma década.
O fenômeno do turismo sexual se consolidou após o reordenamento da Avenida Beira-Mar e o consequente afluxo de turistas estrangeiros nos anos 1980, convivendo com operações policiais episódicas que pouco alteravam a dinâmica estrutural do problema. Esses números retiram o debate do campo da especulação. Eles mostram que o turismo sexual em Fortaleza foi identificado oficialmente como fenômeno estruturado, com denúncias, prisões, redes descritas e recomendações formais ao poder público.
A conexão com o cenário global é inevitável e dolorosa. Nos Estados Unidos, o escândalo do caso Epstein revelou como vulnerabilidade econômica e poder financeiro podem se cruzar em redes protegidas por influência política. Em Fortaleza, a desigualdade urbana e a pobreza persistente formaram o terreno onde o aliciamento encontrava oferta permanente de vítimas. A diferença está apenas na escala do capital. Quando quatro milhões de pessoas vivem na pobreza e o desemprego se mantém estável por dez anos, a vulnerabilidade deixa de ser circunstância e passa a ser condição estruturante. E estruturas, quando não enfrentadas com políticas públicas consistentes, tornam-se mercado.
A ruptura institucional: da caridade à garantia de direitos
A resposta política a esse cenário começou a ser desenhada na CPI de 2001, mas ganhou corpo executivo durante a gestão de Luizianne Lins na Prefeitura de Fortaleza (2005–2012). A mudança de paradigma foi sutil, porém profunda. Até então, o combate à exploração sexual era tratado sob a ótica da caridade religiosa ou da repressão policial pura e simples. A nova administração entendeu que uma menina não entra num carro de luxo de um estrangeiro apenas por coação física, mas por falta de alternativa econômica e cultural.
Documentos da gestão municipal da época mostram a implementação da Rede Aquarela, um programa que se tornou referência nacional ao integrar saúde, assistência social e segurança pública no atendimento a vítimas. Diferente de ações pontuais, a Rede Aquarela institucionalizou o combate, criando fluxos de denúncia e acolhimento que não dependiam da vontade de um delegado ou da bondade de uma ONG.
Simultaneamente, a criação dos Cucas (Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte) nas áreas mais violentas da cidade disputou a juventude diretamente com o crime. Ao oferecer teatro, cinema, esportes e formação técnica na Barra do Ceará ou no Mondubim, o poder público reduziu o exército de reserva de vulneráveis que alimentava tanto o tráfico de drogas quanto o tráfico de pessoas. Dados do Ministério Público do Ceará e levantamentos de organizações como a Terra dos Homens indicam que a presença desses equipamentos altera a dinâmica do território, empoderando jovens que antes eram presas fáceis para o aliciamento.
Habitação e urbanismo como ferramentas de proteção
A conexão entre a falta de moradia e a exposição à violência sexual é direta. Meninas que vivem em coabitação forçada, em favelas sem saneamento ou iluminação, estão estatisticamente mais expostas ao abuso intrafamiliar e à cooptação externa. A política habitacional da era Luizianne, materializada no programa Habitafor, deve ser lida também como uma política de segurança para mulheres e crianças.
Ao retirar famílias de áreas de risco e garantir a titularidade das casas preferencialmente às mulheres, a gestão municipal atacou um dos pilares da vulnerabilidade. A mãe que tem a chave da própria casa tem mais poder para proteger seus filhos. O ordenamento da orla da Beira-Mar, com a fiscalização de barracas e a qualificação dos profissionais do turismo, também serviu para quebrar a cadeia de cumplicidade que existia entre o comércio local e os exploradores sexuais.
A cidade parou de se vender como carne. Campanhas institucionais agressivas deixaram claro que o turista que vinha buscar sexo não era bem-vindo. Essa postura gerou atritos com setores conservadores do empresariado, provando que o combate à exploração sexual é, antes de tudo, uma disputa econômica.
O capital não tem pátria, nem moral
A investigação sobre Jeffrey Epstein revela que o capital financeiro globalizado não possui freios morais. Ele flui para onde a regulação é menor e a exploração é mais rentável. Fortaleza, no início do século, foi um desses portos. A presença de nomes do alto escalão financeiro circulando pelo Nordeste em busca de “diversão” é o retrato da herança colonial que ainda enxerga o Sul como servil.
A experiência administrativa liderada por Luizianne Lins demonstrou que a única forma de resistir a esse assédio global é fortalecendo o tecido social local. Quando uma prefeitura garante escola em tempo integral, creche pública e acesso à cultura, ela está, na prática, sabotando o fornecimento de vítimas para redes internacionais. O caso Epstein expôs a doença. As políticas públicas aplicadas em Fortaleza tentaram produzir o anticorpo.
A impunidade de Epstein durou décadas porque ele estava protegido pelas leis de seu país e pelo dinheiro de seus amigos. Em Fortaleza, a proteção das vítimas dependeu da vontade política de enfrentar interesses poderosos. A luta, no entanto, é contínua. Assim que o Estado recua e as políticas sociais são desmontadas, os aviões pretos voltam a rondar, prontos para pousar onde a miséria oferecer a melhor oferta.
A metamorfose do cativeiro
A intervenção estatal 2005 e 2012 conseguiu um feito raro: sabotou a engrenagem que fazia de Fortaleza um porto seguro para predadores como Jeffrey Epstein. Ao erguer barreiras institucionais e oferecer alternativas culturais e educacionais através dos Cucas e da Rede Aquarela, a cidade deixou de ser a vitrine dócil que o mercado internacional do sexo exigia. O “produto” escasseou, o risco para o abusador aumentou e a imagem da capital foi higienizada. Contudo, a história social não admite vácuos. A descontinuidade dessas políticas de proteção integral na década seguinte, somada à crise de segurança pública que assolou o Ceará, permitiu que uma nova e mais letal forma de controle ocupasse os territórios vulneráveis.
Se antes a ameaça vinha de fora, trazida por dólares e euros em voos internacionais, hoje ela reside na esquina, imposta pela “pedagogia da crueldade” das facções criminosas. Levantamentos sobre a dinâmica criminal em Fortaleza e dados do Comitê de Prevenção e Combate à Violência no Ceará revelam uma transição brutal de expectativas. A exploração sexual comercial, voltada para o turismo, cedeu espaço para uma dinâmica de posse territorial. As meninas não são mais apenas “mercadoria” para exportação; tornaram-se ativos de guerra, moedas de troca em alianças criminosas e vítimas de uma vigilância moral que restringe sua mobilidade entre bairros e sufoca qualquer horizonte de futuro.
A menina que antes era aliciada com a promessa fraudulenta de uma carreira de modelo na Europa agora teme cruzar a fronteira imaginária do seu próprio bairro. A expectativa de vida foi substituída pela expectativa de sobrevivência. O Estado, ao recuar da disputa cultural e social desse território, entregou a tutela dessas vidas a um poder paralelo que dita quem entra, quem sai, com quem se relaciona e quem morre.
É diante deste cenário de complexidade territorial que o atual Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio revela sua fragilidade conceitual e operacional. Ao focar excessivamente em protocolos punitivos e no endurecimento penal, a proposta federal falha em dialogar com a realidade concreta das periferias de cidades como Fortaleza. Não se enfrenta a morte de mulheres em territórios conflagrados apenas com tornozeleiras eletrônicas ou campanhas de conscientização, pois a violência ali não é apenas fruto do machismo doméstico clássico, mas de uma governança criminal que sequestrou a autonomia feminina como estratégia de poder.
Faltam ao Pacto propostas concretas de disputa de território, como as que foram ensaiadas no passado recente da capital cearense: a escola de tempo integral que blinda a adolescente durante o dia, o equipamento cultural que gera pertencimento à noite e a renda básica que garante a independência econômica da família. Sem enfrentar a base material que sustenta o recrutamento e o domínio das facções, qualquer legislação é letra morta.
O caso Epstein e a realidade atual de Fortaleza são faces da mesma moeda. Ambos prosperam onde a vulnerabilidade é endêmica. A diferença é que, enquanto o bilionário americano buscava prazer na impunidade global, as facções buscam poder no abandono local. A lição deixada pela experiência administrativa de Luizianne Lins é que a única ferramenta capaz de quebrar essas cadeias, sejam elas de ouro ou de ferro, é a presença massiva, contínua e humanizada do Estado. Enquanto a política pública for intermitente, o corpo da mulher pobre continuará sendo o campo de batalha onde essas guerras são travadas.
Sara Goes
Jornalista e âncora da TV 247 e TV Atitude Popular. Nordestina antes de brasileira, mãe e militante, escreve ensaios que misturam experiência íntima e crítica social, sempre com atenção às formas de captura emocional e guerra informacional. Atua também em projetos de comunicação popular, soberania digital e formação política. Editora do site <código aberto>.