“O que o Alzheimer não levou” – Por Suzete Nocrato

Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela UFC. Foto: Reprodução

Com o título “O que o Alzheimer não levou”, eis mais um artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. “

Confira:

Uma característica comum na minha família, tanto do lado materno quanto do paterno, é a longevidade. Claro, há uma exceção aqui e outra ali, mas o mais frequente é ver parentes alcançarem os 90, 95 ou até 100 anos. Muitos vivem um século de vida com uma memória invejável, guardando nomes e detalhes de acontecimentos ocorridos décadas atrás.

Talvez por isso eu tenha ficado chocada ao reencontrar um antigo colega de trabalho com Alzheimer, aos 77 anos. Eu sempre o admirei. Ele era daqueles sujeitos que chegavam ocupando o ambiente. Sua gargalhada inconfundível contagiava a redação. Com raciocínio rápido e um vozeirão marcante, envolvia todos à sua volta, sempre com a sugestão de uma boa pauta ou um novo projeto.

No último fim de semana, nos encontramos por acaso e ficamos horas conversando e rindo sobre tudo e sobre nada. Em muitos momentos, parecia que o tempo não havia passado.

Suas lembranças nos transportaram para a redação do jornal nos anos 1980 e 1990, um ambiente povoado por personagens que já partiram, mas que, em suas histórias, reaparecem vivos e presentes. Ele falava como se ainda circulassem pelos corredores e como se aquelas cenas pertencessem não ao passado, mas ao dia de hoje.

Apesar da confusão mental, naquele momento tive a sensação de que nem o Alzheimer consegue levar tudo. Meu colega continua sendo o mesmo homem inteligente e admirável que conheci.

Ao longo da conversa, ele encontrava sempre uma forma de elogiar o filho que nos acompanhava à distância. De tempos em tempos, o rapaz se aproximava discretamente para verificar se estava tudo bem.

Na noite seguinte, voltei ao mesmo local para jantar com alguns amigos. Ao me ver chegar, o filho veio ao meu encontro. Antes mesmo que eu perguntasse pelo pai, foi logo dizendo que ele havia se recolhido mais cedo. Estava cansado.

Em seguida, convidou-me a sentar e aproveitar a noite. Enquanto o rapaz voltava ao trabalho, fiquei pensando no peso que o Alzheimer impõe a toda a família, mas também na oportunidade que oferece de se vivenciar o amor em sua forma mais plena.

*Suzete Nocrato

Jornalista e Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.

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