“No hospital, soube que havia sido atropelado por um motorista alcoolizado, que perdeu o controle do veículo pela alta velocidade”, aponta o jornalista Nicolau Araújo
Confira:
Era noite de sexta-feira, quando um homem caminhava a uma parada de ônibus, para esperar a filha que retornaria da faculdade. Antes de desmaiar, a sua última lembrança foi a de uma forte luz em sua direção.
No hospital, soube que havia sido atropelado por um motorista alcoolizado, que perdeu o controle do veículo pela alta velocidade. Pior que as dores que ainda persistiam, foi a completa ausência da sensibilidade de uma de suas pernas, amputada pelo esmagamento.
De pouco adiantou o cerco familiar, que mais pareceu piedade para o orgulhoso homem. E definhou por meses, até a sua morte.
(…)
Ao abrir os olhos, estava em um lugar onde tudo era radiante. Um jovem lhe desejou paz, com um cativante sorriso.
– Sei o que se passa, não precisa me explicar nada. Tenho uma evolução espiritual e sei que morri, antecipou-se o homem.
– Não te orgulhas disso, não. Esse tempo já passou, retrucou o guia espiritual. Mesmo aqueles que nunca acreditaram em vida após a morte, rapidamente se convencem e chegam ao teu mesmo conhecimento.
– Entendo, só esperava ser recebido por entes. Não por um estranho. Disse o homem.
– Por certo, você não está aqui para receber seus entes que mais tarde chegarão. Além disso, você pode até ter me conhecido, mas não com essa aparência a qual me apresento. Sorriu o guia.
– Sei… mas vamos ao papel que agora me cabe e… Deus! Ainda estou sem a minha perna! Assustou-se o homem, ao tentar se levantar da cama.
O guia apenas o olhou.
– Asas, vou ganhar asas?! Esperançou-se o homem.
– Você ouviu muitas histórias de anjos… Murmurou o guia.
– Então, aqui a gente flutua? Insistiu.
– Mesmo se flutuássemos, você ainda estaria sem a perna. Apontou o guia.
– Você está me dizendo que ficarei sem a perna pela eternidade? Angustiou-se o homem.
– O que você daria para ter a sua perna de volta? Indagou o guia.
– Como assim? Sei que não há matéria aqui, não estou certo? Reportou-se o homem, ainda preso à prática de mercado.
– Sim, não há matéria… Confirmou o guia.
– Eu poderia dar em troca, talvez, o conhecimento que adquiri em vida? Mas eu busquei muito o conhecimento, muitos sacrifícios… Recuou o homem.
O guia se manteve em silêncio.
– Minhas lembranças de amor? Não, não gostaria de esquecer daqueles a quem amei. Inquietou-se o homem.
O guia continuava em silêncio.
O homem então calou-se e fixou o olhar no espaço onde deveria estar a sua perna. Olhou e pensou por um tempo, quando lágrimas passaram a molhar o seu rosto.
– Tenho que dar… tenho que dar o perdão… Tenho que perdoar aquele homem dependente do álcool, que carrega sobre os seus ombros o sofrimento alheio. Por meses, desejei a sua desgraça, a sua dor, a sua condenação. Também tenho que pedir perdão por ter menosprezado toda a atenção, compaixão e amor das pessoas que me cercaram no momento difícil. Só não sabia que a gente ainda podia chorar aqui. Emocionou-se o homem.
– Sim, choramos o tempo todo. E isso nos torna mais fortes. Afirmou o guia.
Ao sentar-se na cama para abraçar o guia, o homem notou suas duas pernas.
– Viu? Apontou o guia. Assim como no plano material, as coisas mais simples aqui são as que mais têm importância. Mas, lá, o perdão, o sorriso, o amor, as lágrimas, muitas vezes são percebidas como fraqueza. Possuem as duas pernas, mas estão sempre na busca de algo que os ampare em suas jornadas.
E o guia se fez conhecido…
Nicolau Araújo
Jornalista pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Marketing Político e com passagens pelo O POVO, DN e O Globo, além de assessorias no Senado, Governo do Estado, Prefeitura de Fortaleza, coordenador na Prefeitura de Maracanaú, coordenador na Câmara Municipal de Fortaleza e consultorias parlamentares. Também acumula títulos no xadrez estudantil, universitário e estadual de Rápido