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“O Riso e a Mofa na Praça do Ferreira” – Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Paulo Elpídio de Menezes Neto é cientista político, professor e escritor, além de ex-reitor da UFC.

Com o título “O Riso e a Mofa na Praça do Ferreira” – [Nos 300 anos da fundação de Fortaleza], eis artigo de Paulo Elpidio de Menezes Neto, cientista político e ex-reitor da Universidade Federal do Ceará. “Alguns historiadores aprofundaram as suas pesquisas para chegarem a um impasse aparentemente insuperável : quem seria, afinal, o fundador de Fortaleza? Matias Beck ou Martim Soares Moreno?”, expõe o articulista.

Confira:

Não resisti a uma primeira leitura deste relato de Ângela Barros Leal sobre “As esculturas e a língua do povo”. Em
um segundo repasse, que do texto não pude largar, ocorreram-me lembranças de situações semelhantes ou assemelhadas das quais tive notícias trazidas pela memória familiar.

Sem bater à porta de Ângela e sem a autorização devida, entrei de folgado e pus-me a recordar velhos episódios, quase esquecidos.

As mudanças e novidades, que chegavam às nossas cidades, pelo tempo em que fui jovem na praia de Iracema, causavam um certo deslumbramento a que respondiam a arrelia do povo e a molecagem crítica mal comportada do “Zépovim”, tratamento reservado aos desocupados que acorriam à praça do Ferreira, nos tempos distantes do Boticário que lhe deu nome, prestígio e destaque.

O Abrigo Central, antes de ser ocupado pelos transeuntes da praça, pelas rodas de desocupados e pelos intelectuais, foi objeto de árdua recriminação pública e dos gracejos que a todos divertiam e faziam rir. A forma incomum do casario das redondezas, em concreto, e as suas modernidades, a substituirem velhas fachadas e platibandas, nunca seduziram os frequentadores do lugar.

Não que os fortalezenses chorassem a demolição da velha Intendência para dar lugar ao Abrigo e às suas garapeiras, lojinhas de miudezas e até um quiosque de jornais. Era a novidade abusiva, “pós-moderna”, que os incomodava.

Aos poucos, entretanto, a enorme cobertura foi sendo incorporada aos hábitos dos frequentadores dos arredores. Era a imagem renovada, asséptica, dos velhos cafés da praça do Ferreira. O Café do Comércio, o Café Java, o Café Emygdio, o Café Elegante e o Café Riche foram, com alguns outros, os precursores das rodas de conversa e da corrente de boatos e aleivosias que ali nasciam e ganhavam foros de verdade… Feira Nova e Largo das Trincheiras, foram as suas primeiras designações. Por esse tempo não despertáramos ainda para o novo, para a modernidade que se insinuava entre as pessoas viajadas e dos raros viajantes de passagem.

As escadas rolantes do Romcy Magazine, tempos depois, atraiam multidões, muitos dos frequentadores e curiosos não se atreviam a subir por aqueles degraus, com aquele trambolho a subir e a descer continuamente. Houve quem quisesse pular da escada em movimento.

Algumas famílias subiam ao edifício Diogo para ter uma “vista” da cidade. Foi durante algum tempo o único “arranha -céu” de Fortaleza, em competição com o Excelsior…

A construção dos esgotos, considerada a obra do século do Ceará, motivou e inspirou o artista plástico Sérvulo Esmeraldo para a construção de uma escultura alusiva ao cometimento. Lá está a obra do artista, de enorme proporções, marco artístico de grande projeção artistica. Mas não escaparia ao riso maldoso e à zombaria do “zépovim”, aqueles críticos impertinentes que riem, dão vaias no sol e gritam diante das novidades que não compreendem…

A Cátedral, o Edifício São Luiz e o Porto do Mucuripe, em lenta construção durante décadas, foram consideradas pelo “zépovim” obras inacabadas de vários e inoperantes governos, da igreja e dos ricaços da terra.

Passados mais de duzentos anos da fundação de Fortaleza, o governo do Estado, a prefeitura e a imprensa que não era ainda “mídia”, resolveram comemorar uma data redonda pelos ano 60, com reforma da praça do Ferreira, e outras justas celebrações.

Alguns historiadores aprofundaram as suas pesquisas para chegarem a um impasse aparentemente insuperável : quem seria, afinal, o fundador de Fortaleza? Matias Beck ou Martim Soares Moreno ?

Para Raimundo Girão, Matias Beck. Para Ismael Pordeus, Martim Soares Moreno. Longa e arrastada discussão tomou conta das rodas intelectuais. Formaram-se partidos diatribes abertas, imprecações, acusações mútuas, amizades antigas desfeitas, um clima de guerra baixou sobre a cidade e a intelligentsia cearense.

Martins Filho , reitor da UFC, atribuiu ao pintor Floriano Teixeira, em missão de pacificador de acirradas paixões, o encargo de pintar o retrato de Matias Beck e de Soares Moreno, sem foto ou gravura que lembrasse o semblante heróico dos ilustres personagens. Alguns meses depois, em nome da conciliação dos cearenses, os dois retratos a óleo foram entronizado na reitoria da UFC.

Nas águas de uma anunciada reconciliação intelectual dos cearenses, Lustosa da Costa propôs, em sua coluna do UNITÁRIO, que o riacho PAJEÚ servisse de fronteira entre Fortaleza Ocidental e Fortaleza Oriental e que a cada uma delas fosse dado o nome do fundador preferido…

Saímos ganhando: em vez de termos um, temos dois fundadores da nossa “loira desposada de sol”…

*Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político e ex-reitor da Universidade Federal do Ceará.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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