Com o título “O sexo nosso de cada dia”, eis artigo de Zenilce Bruno, psicóloga e sexóloga. “A capacidade de “perder tempo” é condição necessária ao “encontrar o prazer” mais intenso”, expõe a articulista.
Confira:
Há tempo interesso-me pela questão da sexualidade e tenho aprendido muito por esses caminhos trilhados, pelas leituras e trabalhos desenvolvidos. Particularmente aprendo e enriqueço-me com a escuta clínica, razão por que sou especialmente grata aos meus pacientes. Tenho tido o privilégio de ouvi-los em suas dores e alegrias, acertos e desacertos, face aos projetos que têm de serem felizes. Talvez, por essa experiência de ouvi-los, tenha produzido textos com a marca da intimidade. Trato simplesmente a sexualidade como isso que gira em torno de nós, de mais corporal, mais simbólico e transcendente, viajando via sentidos, exigindo satisfação e querendo expressão. Por isso, contextualizo-a em meio à vida dotada de significação. Insisto que não se perca de vista o encantamento, a paixão e o prazer como as mais belas expressões do ser sexual. São formas de comunicação e comunhão, seguidas de mistério, assombro e tranquilidade. Penso como Bachelard, “Mutilamos a realidade do amor quando a separamos de toda a sua irrealidade”.
As indisposições sexuais que se apresentam em muitas pessoas têm algumas de suas raízes no obscurecer das dimensões que são capazes de humanizar e tornar mais plena a experiência. A embriaguez do culto ao desempenho imposto pelo efêmero, pelo veloz da época faz perder de vista a magia que se esconde no pormenor amoroso. Os gestos simples tornam-se imensos porque estão cheios de promessas encantadas. Mas, o amante desatento não pode percebê-los. Talvez, tudo isso pareça pouco afinado com as exigências da rapidez dos dias atuais. Sei, porém, que o gozo e o amor não têm pressa. A capacidade de “perder tempo” é condição necessária ao “encontrar o prazer” mais intenso. Algo de ingênuo perpassa o texto e talvez não pudesse ser diferente, pois penso que o que há de criativo e libertador na sexualidade desfaz-se das tramas da eficiência adulta e passa pela porção criança que subsiste em nós, promovendo êxtases indescritíveis e agonias inconsoláveis. A sexualidade é tudo isso e mais além que isso. Ela se situa no corpo, na experiência comum e no extraordinário, como quem procura um ponto culminante.
O que tento transmitir neste texto já foi dito antes por autores que me antecederam no gosto e no gozo de escrever sobre sexualidade. Rigorosamente nada é novo. No entanto, imagino que esse novo tão desejado acontece dinamicamente, isto é, algo é recriado e desperta no leitor um movimento talvez inesperado, mas numa via de mão dupla: o que foi escrito e a singular decodificação de quem o lê. Nessa interação, é possível a vitória do sentido. É isso que é novo. Aprendi neste tempo que escrevo, que terei de satisfazer-me com a resposta silenciosa do leitor em suas reações pessoais com o texto. Resta o imaginário. A certeza de que uns se beneficiam, outros criticam, encantam-se, afinam-se ou não com as ideias é imaginária. O contato é estabelecido via escrita e o desejo é a comunhão. Neste sentido, usa-se a palavra não só para ser compreendido, mas também para ser amado por esse leitor desconhecido que, talvez, jamais se chegue a conhecer.
*Zenilce Bruno
Psicóloga e sexóloga.
E-mail: zenilcebruno@uol.com.br