Com o título “O Sonho dos Vinte Contos”, eis mais uma história da lavra de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Confira:
Sérgio é desses amigos que o tempo só confirma. Gosto antigo, respeito firme. Homem de fé – e não apenas de palavras – leva a vida ancorado em princípios que vêm de casa, de uma família honrada que ele nunca deixou de referenciar.
Formou-se engenheiro mecânico, mas foi nas representações, pelo Norte do país, que construiu sua trajetória. Trabalhou muito, com disciplina e persistência, erguendo um patrimônio que traz, sem alarde, a marca do próprio esforço. De volta, há alguns anos vive em Fortaleza, onde cultiva boas e duradouras amizades.
É bem-casado – e nisso há sempre um certo orgulho sereno – pai de dois filhos que seguem seu caminho na universidade. De trato tranquilo, costuma receber a vida com um sorriso leve e um agradecimento sincero, quase sempre dirigido a Deus e a Nossa Senhora.
Mas há também nele um humor fino, silencioso, mas que chega no ponto certo.
Outro dia, num passeio com a família, ao estacionar o carro, foi abordado por um flanelinha. O sujeito veio ligeiro, conversa pronta, ar de quem já tinha ensaiado o golpe: “Doutor, sonhei essa noite que o senhor ia me dar vinte contos, ó?”
Sérgio olhou com calma, segurou o riso e respondeu, no tom exato: “Rapaz, você não sabe que, quando a gente conta um sonho, ele não acontece?”
Não foram os vinte contos do sonho. Mas o cabra saiu com um troco digno – e, talvez, com uma ideia nova no quengo.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.