“O TikTok eleitoral” – Por Fabrício Moreira

Fabrício Moreira Costa é advogado e contista

“A verdade é que a política mudou. O eleitor mudou. A comunicação mudou. E seria ingenuidade imaginar que as redes sociais não teriam influência nas eleições”, aponta o advogado Fabrício Moreira

Confira:

A democracia brasileira tem dessas coisas. A cada eleição, aperfeiçoa-se, renova-se e, de vez em quando, nos prega algumas peças que nem o mais experiente observador político seria capaz de imaginar. Afinal, como dizem por aí, a democracia é uma delícia. O problema é que, em certas ocasiões, a sobremesa vem acompanhada de umas surpresas indigestíveis.

Nesta última peleja eleitoral, surgiu, ou ganhou corpo, um fenômeno que merece registro: o bloquinho do TikTok. Em cada estado da federação, candidatos transformaram as redes sociais em palanque, as músicas em discurso, as dancinhas em propostas e os espetáculos em forma de denúncia em verdadeiros comícios virtuais. O resultado apareceu nas urnas, com votações que deixaram muita gente de queixo caído.

Em São Paulo, por exemplo, um vereador chegou à Câmara Federal com cerca de três milhões de votos. Durante sua passagem pelo legislativo municipal, ficou conhecido por hostilizar alunos e professores nas universidades. Quando um repórter, cumprindo o seu ofício, resolveu perguntar quais seriam suas propostas para o mandato de deputado federal, veio o silêncio. Apertado de um lado, espremido do outro, o parlamentar conseguiu apresentar três respostas. O detalhe é que nenhuma delas parecia pertencer ao repertório de um deputado federal. Eram propostas de senador da República. Aparentemente, a dança estava ensaiada, mas o discurso ainda não havia sido decorado.

O Ceará, terra que já mandou para a vida pública homens de pensamento, estadistas e políticos de longa experiência, também viu nascer das urnas alguns representantes dessa nova escola. Agora, o currículo eleitoral parece dispensar a velha caminhada pelos bairros, o debate de ideias e até o conhecimento das atribuições do cargo. Um bom vídeo, uma música chiclete e uma frase de efeito podem valer mais do que anos de experiência política.

No Comitê de Imprensa da Assembleia Legislativa, um desses novos representantes explicou como pretende conduzir o mandato. A receita é simples: pedir tudo ao governador. Se ele negar, o caminho será gritar nas ruas. Ou melhor, esbravejar no TikTok. Eis a nova cartilha parlamentar: primeiro, o pedido; depois, a reclamação; por fim, um vídeo bem editado para mostrar ao eleitor que o deputado está trabalhando.

E assim caminha a nossa democracia, com suas virtudes, seus encantos e essas tragédias cômicas que nos fazem rir para não chorar. Nós, simples mortais, assistimos a tudo com a mesma resignação de quem lava as mãos diante de um problema que parece não ter solução. Só que, diferentemente de Pôncio Pilatos, não podemos simplesmente nos afastar. Afinal, as consequências dessas escolhas também recaem sobre nós.

Enquanto isso, por estas bandas do Icó, Bebel, o homem do TikTok da chamada “calçada federal”, parece não ter se conformado com o resultado das urnas. Tal qual Ciro Gomes, que também questionou o desempenho eleitoral, reclama que a votação não correspondeu ao que esperava. Diz que cumpriu todo o manual de Abreu e Tancredo, mas, na hora da contagem, sua urna resolveu ser econômica: apareceram apenas mil votos.

É possível que o algoritmo tenha prometido mais do que entregou. Ou que a calçada federal, tão movimentada nas redes, não tenha conseguido levar a mesma multidão até a seção eleitoral. Afinal, curtida não é voto, visualização não é sufrágio e aplauso virtual não garante mandato.

A verdade é que a política mudou. O eleitor mudou. A comunicação mudou. E seria ingenuidade imaginar que as redes sociais não teriam influência nas eleições. O problema não está em dançar, fazer vídeos ou conquistar seguidores. Está em confundir popularidade com preparo, barulho com trabalho e espetáculo com compromisso público.

Vou parar por aqui, antes que algum fiscal da alegria democrática me acuse de estar com inveja dos dançarinos ou que este escriba tenha acordado mais doido do que de costume.

Por Fabrício Moreira da Costa
Advogado e contista

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