Com o título “O Vestiário Depois da Vitória”, eis mais um texto de Maurício Filizola, empresário e presidente da CDL Fortaleza. “A grandeza de uma sociedade não se mede apenas pelas vitórias que conquista. Mede-se pelo cuidado que demonstra com aquilo que deixa para os outros”, expõe o articulista.
Confira:
Enquanto o mundo comemorava os gols da Copa do Mundo, uma das cenas mais bonitas aconteceu longe dos gramados. Não foi uma defesa impossível nem um gol nos acréscimos.
Foi um vestiário.
Depois de vencer a Tunísia, a seleção do Japão deixou o estádio. Quando os funcionários entraram para preparar o espaço para o próximo jogo, encontraram tudo em perfeita ordem. Uniformes dobrados, lixo recolhido, materiais organizados e, sobre o quadro, uma mensagem de agradecimento acompanhada de pequenos origamis.
Não havia câmeras. Não havia fotógrafos.
Não havia plateia.
Aquele gesto não buscava reconhecimento.
Era apenas a expressão de uma cultura.
Enquanto observava aquelas imagens, pensei que a verdadeira educação talvez seja exatamente isso: fazer o certo mesmo quando ninguém está olhando.
No Japão, as crianças aprendem desde cedo a limpar as próprias salas de aula, corredores e banheiros. Não como castigo, mas como parte da formação. Elas crescem entendendo que cuidar do espaço coletivo é uma forma de respeitar quem veio antes e quem virá depois.
Fiquei imaginando como seria se esse princípio estivesse mais presente entre nós.
Nas empresas. Nas escolas. Nas repartições públicas. Nas praças. E até dentro de casa.
Quantas vezes deixamos para o próximo a desorganização que nós mesmos criamos?
A vida se parece com um jardim. As flores encantam, mas é o cuidado diário com a terra que garante novas flores na estação seguinte. Com o tempo, aprendi que liderança não começa em um cargo. Começa no exemplo.
Antes de cobrar organização, precisamos praticá-la. Antes de exigir respeito, precisamos demonstrá-lo. Antes de falar sobre cultura, precisamos vivê-la. Muitas organizações investem em tecnologia, planejamento e consultorias, mas ignoram o elemento mais poderoso de todos: o comportamento cotidiano.
Os japoneses chamam de kaizen a busca permanente por melhorar. Não apenas os processos, mas também as pessoas. Melhorar uma tarefa. Melhorar uma conversa. Melhorar um ambiente. Melhorar a si mesmo.
Quando esse compromisso se torna parte da identidade, regras deixam de ser suficientes porque o comportamento passa a nascer da consciência.
A Copa terminará.
Os troféus encontrarão seus donos.
As estatísticas serão esquecidas.
Mas aquele vestiário limpo continuará ensinando uma lição silenciosa.
A grandeza de uma sociedade não se mede apenas pelas vitórias que conquista. Mede-se pelo cuidado que demonstra com aquilo que deixa para os outros.
Porque o legado mais bonito não é o que construímos para sermos lembrados. É aquilo que fazemos para que o próximo encontre um mundo um pouco melhor do que aquele que recebemos.
*Maurício Filizola,
Empresário, presidente da CDL Fortaleza e diretor do Sincofarma-Ceará.