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“Operários de si mesmo” – Por Lucian Lourenço

Lucian Lourenço é escritor, pesquisador e docente. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “Operários de si mesmo”, eis artigo de Lucian Lourenço, escritor, roteirista, pesquisador, mestre em Psicologia, professor da UNICHRISTUS e servidor público de Fortaleza. Chaplin já havia visto. A diferença é que o operário dele não sabia que estava preso. Nós sabemos. E ficamos”, expõe o articulista.

“O artesão produz sentido. O operário produz peças.”

“A tragédia é quando o artesão esquece que era artesão.”

Richard Sennett

Chaplin já havia visto. Em 1936, numa cena que o cinema não superou em precisão sociológica, o operário é sugado pela engrenagem, não
violentamente, mas mecanicamente, como se a máquina fosse uma continuação natural do corpo. O terror não está no grito. Está na
normalidade com que tudo acontece. O que mudou, em quase noventa anos, é que agora sabemos que estamos na engrenagem. Sabemos e continuamos. Isso é mais grave do que a ignorância. É uma nova espécie de captura, mais sofisticada e mais difícil de nomear porque não tem parede, não tem capataz, não tem sirene de fábrica. Tem, em vez disso, uma tela que brilha, uma notificação que chega, um número que sobe ou desce e que organiza nossos neurotransmissores como fichas numa caça-níquel. A diferença entre o operário de Chaplin e o sujeito de hoje é que Chaplin não sabia que estava preso. Nós sabemos. E ficamos.

O currículo como prova de existência

Existe um ritual acadêmico que ninguém nomeia diretamente porque todos participam dele: a construção do currículo como ontologia. O
sistema Lattes não é apenas um repositório de produções — é uma declaração de ser. Diz: existo porque publiquei. Valho porque fui citado.
Pertenço porque meu h-index cresceu. O pesquisador que aprende isso cedo — e aprende cedo, porque o sistema ensina com eficiência o que recompensa — passa a produzir conhecimento para o currículo, não para a ciência. Publica para pontuar, não para perguntar. Apresenta em congresso para o certificado, não para o debate. A forma corrói o conteúdo. O ritual devora o sentido. O artesão do conhecimento — aquele para quem fazer bem feito é uma finalidade em si, não um meio para outra coisa — torna-se operário de sua própria subjetividade intelectual. Trabalha sobre si mesmo segundoparâmetros que não criou, em direção a fins que não escolheu, usando instrumentos de avaliação que naturalizam uma hierarquia de saberes que nunca examinou.

A engrenagem que seduz

A opressão do século XX era exterior: o patrão, a fábrica, a disciplina imposta por outro. A opressão do século XXI é interior: o sujeito de
desempenho não precisa de capataz porque internalizou a função do capataz. Ele se vigia, se cobra, se castiga pelo rendimento insuficiente com uma eficiência que nenhum sistema externo conseguiria replicar. O que torna isso ainda mais perturbador é o prazer. A engrenagem
contemporânea não é desconfortável o tempo todo — é, na maioria das vezes, agradável. Ela dá dopamina. Dá o like, o compartilhamento, o
comentário, a aprovação. E é exatamente aí que reside sua crueldade: confunde o prazer da aprovação com o prazer do saber. Confunde a
audiência com a ideia. A dopamina do like e a dopamina da descoberta científica ativam circuitos semelhantes. O sistema soube disso antes de nós. E construiu a arquitetura de recompensa de acordo.

O espetáculo que substituiu a experiência

Guy Debord, em 1967, escreveu sobre a sociedade do espetáculo: a vida como representação, a experiência mediada pela imagem até que a
imagem se torne mais real do que o vivido. Ele não tinha como prever as redes sociais, mas descreveu sua lógica com precisão cirúrgica.
O jantar entre amantes que se torna moldura para o Instagram. O show que não se curte — se grava. O pôr do sol que não se contempla — se fotografa para ser postado depois. O acidente na estrada que todos filmam e ninguém socorre. A agressão que todos registram e ninguém interrompe. Não é indiferença. É algo mais complexo: é a naturalização da mediação como forma primária de estar no mundo. O registro tornou-se o ato. A performance tornou-se a presença. E quem não performa — quem vive sem documentar, quem experimenta sem publicar, quem pensa sem postar — existe numa espécie de clandestinidade ontológica, invisível para o sistema que apenas conta o que aparece.

A geração que não pediu para ser cobaia

A geração que cresceu com smartphone na mão, que nunca conheceu um mundo sem algoritmos de recomendação, que teve seus gostos, suas opiniões, seus afetos e seus medos moldados por sistemas de engenharia de atenção projetados em São Francisco para maximizar o tempo de permanência em tela — essa geração é, em sentido literal, cobaia de um laboratório que nunca pediu consentimento. Não há formulário de termo de consentimento livre e esclarecido para a infância algorítmica. E o terror não é que eles não saibam. O terror é que, quando souberem — quando a bolha for perfurada, quando a revelação chegar —, o próprio aparato que usarão para processar essa revelação já foi moldado pelo mesmo sistema que a produziu. Como sair de um labirinto cujos mapas foram desenhados pelo labirinto?

O que ainda pode ser feito

Mas o diagnóstico não é o destino. A pergunta que importa não é apenas “como nos tornamos o que somos?” — e “poderíamos ser de outro modo?”; E a resposta, teimosamente, é sim. Mas exige interlocutores que não apenas saibam o diagnóstico — que o vivam de outro modo suficientemente para que esse outro modo pareça real, possível, habitável.

O professor que recusa a reduzir o aluno ao seu desempenho. O pesquisador que publica lentamente porque precisa ter algo a dizer — e
não apenas algo a depositar no sistema de pontuação. O estudante que faz a pergunta que vai além do currículo. O cidadão que desinstala o aplicativo por uma semana e descobre que o tédio que sente não é ausência de estímulo: é o início de um pensamento que não tinha espaço antes. A geração que cresceu na engrenagem não está condenada. Mas precisará de algo que o algoritmo não sabe oferecer: contradição, dúvida, o tempo lento do pensamento que não sabe aonde vai mas vai. Isso não é papel de salvador. É papel de perturbação. De corpo que habita o real de um modo que a máquina ainda não consegue replicar.

Não exigimos muito dos que virão. Exigimos apenas que respirem.

Mas respirar, hoje, é também um ato de resistência. Porque o sistema prefere que você apenas processe.

*Lucian Lourenço

Escritor, pesquisador e docente. Fortaleza, Ceará.

Este texto integra a série O Mestre que Me Ensinou a Sair dos Lugares Comuns.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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