“Os Fãs do Poder e a Inteligência Artificial” – Por Gera Teixeira

Gera Teixeira é empresário e jornalista.

Com o título “Os Fãs do Poder e a Inteligência Artificial”, eis artigo de Gera Teixeira, empresário, engenheiro e jornalista com Marketing pela USP. “Num mundo cheio de fãs do poder, talvez o verdadeiro luxo não seja ser admirado. Talvez seja simplesmente encontrar alguém disposto a ouvir sem calcular o que ganhará com isso”, expõe o articulista.

Confira:

Outro dia ouvi um filósofo famoso criticando a inteligência artificial. Dizia ele que um dos seus defeitos é concordar demais, responder de forma agradável, evitar confrontos e, no fundo, dizer aquilo que as pessoas querem ouvir.

Fiquei pensando.

Talvez a crítica não estivesse errada. Mas talvez estivesse apontada para o lugar errado.

Afinal, se existe algo antigo neste mundo, não é a inteligência artificial. São os fãs do poder.

Esses eu conheço bem.

São aqueles que se aproximam de quem ocupa a cadeira importante. Não importa se é um governante, um empresário, um líder religioso ou um chefe de repartição. Eles chegam sorrindo, concordando, elogiando e confirmando tudo. Nunca apresentam uma alternativa. Nunca fazem uma pergunta difícil. Nunca discordam.

Mas não fazem isso por educação.

Fazem por interesse.

O elogio deles é investimento. A concordância é moeda. A amizade é aluguel.

Vivem à sombra da cadeira e não ao lado da pessoa.

Quando o poder muda de mãos, mudam de lado com a mesma facilidade com que mudam de discurso.

A inteligência artificial, por outro lado, pode até ser excessivamente cordial. Pode até, em alguns momentos, parecer complacente. Mas não está tentando obter favores, contratos, privilégios ou influência. Não participa de negociatas nem frequenta corredores em busca de vantagens.

Seu maior defeito talvez seja o excesso de gentileza.

O defeito dos fãs do poder é a ausência de caráter.

São coisas muito diferentes.

Aliás, quanto mais envelheço, mais percebo que nem sempre quem concorda está nos apoiando, e nem sempre quem discorda está nos atacando.

Há discordâncias que salvam.

Há concordâncias que destroem.

Quantas empresas quebraram cercadas de aplausos? Quantos governantes afundaram ouvindo apenas elogios? Quantas pessoas perderam o rumo porque ninguém teve coragem de lhes dizer a verdade?

O problema nunca foi a concordância.

O problema sempre foi a intenção.

Talvez por isso a boa escuta seja tão rara. Escutar não é concordar. Escutar é estar presente. É permitir que o outro exista sem imediatamente transformá-lo em instrumento dos nossos interesses.

Num mundo cheio de fãs do poder, talvez o verdadeiro luxo não seja ser admirado.

Talvez seja simplesmente encontrar alguém disposto a ouvir sem calcular o que ganhará com isso.

E isso, convenhamos, continua sendo uma das coisas mais humanas que existem.

*Gera Teixeira

Empresário, engenheiro e jornalista com Marketing pela USP e pós-graduação em Neurociência e Psicanálise pela PUC-SP.

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