“Para onde nos leva a fragilização das instituições” – Por Luiz Henrique Campos

Com o título “Para onde nos leva a fragilização das instituições”, eis a coluna “Fora da 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Sem essas instituições, o que resta não é um vazio neutro, mas terreno fértil para a imposição da vontade dos mais fortes. E a história, mais uma vez, é clara ao mostrar onde esse caminho costuma terminar. O desafio, portanto, não é blindar instituições contra críticas, mas defendê-las contra sua deslegitimação completa — pois é justamente nelas que reside a possibilidade de convivência civilizada em meio às diferenças”, expõe o colunista.

Confira:

A história não costuma ser generosa com sociedades que escolhem desacreditar suas próprias instituições. Política e Judiciário, pilares fundamentais de qualquer democracia, não surgiram por acaso. São instrumentos construídos ao longo de séculos para mediar conflitos, organizar interesses e evitar que a força bruta substitua o diálogo. Ainda assim, vivemos um tempo em que esses mesmos pilares são sistematicamente atacados e, em muitos casos, criminalizados por parcelas significativas da sociedade.

Esse fenômeno não é novo. Basta lembrar o que ocorreu em períodos como a ascensão do Nazismo ou do Fascismo italiano, quando o descrédito nas instituições democráticas abriu espaço para regimes autoritários. Em contextos distintos, mas com raízes semelhantes, a erosão da confiança institucional sempre precedeu rupturas profundas, muitas vezes irreversíveis.

No entanto, o que antes se construía de forma gradual, hoje ganha velocidade com o impulso das redes sociais. Nesse ambiente, onde tudo parece permitido, a liberdade de expressão frequentemente se confunde com a liberdade de agressão. O debate público perde densidade, substituído por acusações generalizadas, simplificações perigosas e uma lógica de destruição do outro. A célebre ideia de que a Estátua da Liberdade deveria ser também a “Estátua da Responsabilidade” nunca fez tanto sentido.

Importa ressaltar que esse movimento tem caráter global. Democracias consolidadas enfrentam desafios semelhantes, com a disseminação de desinformação e o enfraquecimento da confiança pública. No Brasil, contudo, os efeitos recentes são particularmente visíveis. A criminalização indiscriminada da política contribuiu para a formação de um dos parlamentos mais frágeis em termos de qualidade de representação, composto, em parte, por aqueles que ascenderam justamente sob o discurso de negação da própria política.

No campo do Judiciário, a incoerência também salta aos olhos. Muitos dos que hoje denunciam abusos foram, não muito tempo atrás, entusiastas de práticas questionáveis associadas à Operação Lava Jato. Esse episódio, complexo e multifacetado, tornou-se um exemplo emblemático de como o uso do sistema de justiça pode, quando distorcido, ultrapassar limites institucionais e alimentar agendas que pouco têm a ver com o interesse público.

Nada disso significa que política e Judiciário estejam acima de críticas. Ao contrário. São estruturas humanas, imperfeitas por natureza, e que devem ser constantemente fiscalizadas e aprimoradas. O problema reside na crítica que não busca corrigir, mas destruir; que não distingue falhas pontuais de invalidação total; que transforma exceções em regra.

Sem essas instituições, o que resta não é um vazio neutro, mas terreno fértil para a imposição da vontade dos mais fortes. E a história, mais uma vez, é clara ao mostrar onde esse caminho costuma terminar. O desafio, portanto, não é blindar instituições contra críticas, mas defendê-las contra sua deslegitimação completa — pois é justamente nelas que reside a possibilidade de convivência civilizada em meio às diferenças.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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