Tem uma coisa bonita acontecendo com a literatura e ela não cabe mais só na solidão da página.
Os clubes de leitura estão se espalhando pelo Brasil, ganhando força nas redes sociais, nas livrarias e nos encontros improvisados. Não é exatamente um fenômeno novo, mas os números ajudam a entender o momento. Estima-se que cerca de dois milhões de brasileiros participem de alguma experiência de leitura coletiva. Eu faço parte do Mulheres, Livros e Vinhos e já tive a oportunidade de conhecer o Leituras Paralelas, o Clube de Leitura da Sublime (assunto da nossa coluna hoje) e vejo nas redes sociais diversas movimentações, como o clube de leitura do Grupo Cidade de Comunicação, mediado pelo escritor e servidor público Rafael Caneca, os clubes de leitura das repartições públicas; nas livrarias dos shoppings, como a Leitura, e iniciativas menores que começam em pequenos grupos de amigos ou família.
Ou seja: enquanto a leitura solitária parece encolher, segundo as estatísticas, a leitura compartilhada encontra novos caminhos.
Em Fortaleza, isso tem um dado curioso a favor: o estado aparece como um dos poucos do Nordeste onde a maioria da população ainda mantém o hábito de ler, 54% dos cearenses disseram ter lido ao menos um livro recentemente, acima da média nacional.
Talvez isso ajude a explicar por que os clubes florescem por aqui, em cafeterias, shoppings, empresas e até repartições públicas.
Foi isso que encontrei no clube de leitura da Sublime.
O que mais me chamou atenção ali não foi o livro da vez, nem o número de pessoas, nem mesmo a presença da autora convidada. Foi outra coisa, mais simples e talvez mais rara: o “pode chegar”.
Sem formulário. Sem lista de espera. Sem inscrição prévia.
Sem obrigação de já ter lido a obra.
Só pedi licença e fui!
Num tempo em que tudo exige cadastro, confirmação e senha, aquele gesto parecia um ato de rebeldia.
O organizador do clube, Ítalo Lenon, me disse algo que ajuda a entender o porquê. Para ele, o mais importante não é conduzir a leitura como quem dá respostas, mas abrir espaço para que ela aconteça entre as pessoas. “Todo mundo participa, todo mundo contribui. E as pessoas trazem aspectos muito incríveis, às vezes inesperados, da obra escolhida naquela edição do evento. Tem momentos em que a gente se surpreende com as diversas opiniões a respeito da obra ou do rumo da história, mas é justamente isso que torna a experiência mais rica, as divergências”, explica o mediador.

Nem sempre é simples. Em alguns encontros, as discussões esquentam, temas mais sensíveis aparecem, mas, segundo ele, é aí que a mediação revela seu papel: “Já aconteceram debates mais acalorados, sim. E a mediação precisa saber equilibrar, saber conduzir. Mas sempre respeitando todas as falas. O clube precisa ser esse espaço de troca, de harmonia, um lugar onde o leitor se sinta realmente acolhido para dizer o que pensou, o que sentiu”, complementa.
A palavra que ele repete, acolhimento, talvez seja a chave de tudo. “A mediação é isso: acolher bem cada participante (principalmente os que nunca foram a um clube de leitura), localizar o leitor dentro da obra, mas também entender o que ele traz da própria experiência de leitura. Porque é isso que enriquece. Quando a gente vê que cada pessoa se conectou de um jeito, na sua individualidade, aí a leitura deixa de ser só individual e vira algo coletivo, prazeroso pra todo mundo”, complementa Ítalo Lenon.
Naquela tarde de sábado do último dia 18 de abril, a conversa girava em torno de Cor de Defunto, romance de estreia da cearense Cami di Malta. A presença da autora poderia até ter criado uma certa formalidade, mas não.
Talvez porque o ambiente já dissesse, antes de qualquer fala: aqui não tem cerimônia e talvez porque a própria autora tenha desmontado qualquer possibilidade de distância logo de início. Então, quando chegamos lá, quem é do vinho estava com seu vinhozinho, quem é do café estava com seu cafezinho e todo mundo feliz com os amarelinhos na mão para serem autografados pela autora. “Quando a gente joga um livro no mundo, ele não é mais nosso. Cada pessoa lê com uma percepção diferente, enxerga coisas que a gente nem imaginou. E é assim que tem que ser”, explica a autora.
Tudo aconteceu em tempo real.
Leitores comentaram, interpretaram, questionaram e, por vezes, surpreenderam a própria autora. O livro deixou de ser objeto e virou conversa viva (e estamos falando de “Cor de Defunto”, hehehehe).
Para Cami di Malta, há algo nesse tipo de encontro que nenhuma rede social consegue reproduzir. “Eu recebo muito retorno pela internet, pelas redes. Mas esse contato presencial de estar numa roda, olhando no olho, discutindo literatura, não só o meu livro, mas a literatura em si, é algo inigualável. É uma experiência que só um clube de leitura consegue proporcionar”, anima-se Cami di Malta que foi entrevistada no meu podcast Cafezim com Literatura, dividindo a bancada com o escritor Maurício Mendes, autor de “O Homem não foi feito pra ser feliz”.
Talvez seja isso.
Num país em que mais da metade da população ainda não lê regularmente, os clubes surgem como uma espécie de resistência e curiosidade, menos institucional, mais afetiva.
Gente que lê. Gente que escuta. Gente que muda de ideia ou sustenta a sua com mais cuidado.
Os clubes de leitura, especialmente os que nascem assim, sem burocracia, fora dos circuitos mais formais, apontam para uma mudança igualmente silenciosa: a literatura passando a ser prática de convivência.
Um pretexto para estar junto.
Um motivo para escutar.
