“Pedra do Sol” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovíítera: o contador de hstórias. Foto: Portal IN

Com o título “Pedra do Sol”, eis mais um texto da lavra de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

Confira:

Escrevo agarrado na memória, deixando a experiência me guiar, e a leveza, devagarinho, desnudar o exagero de conceito.

Trafego guiado pela pedra do sol, essa calcita que ensina a ler o céu. Giro o cristal contra a claridade e a luz se espalha, apontando o caminho, como se o próprio dia soprasse a direção certa. Aprendi cedo que, para seguir adiante, basta atenção, silêncio e coragem para confiar no que ainda não se vê, mas se sente com o espírito.

Compreendo e respeito a arquitetura da favela, onde nada é por acaso. Cada parede levantada, cada improviso, atende a uma urgência da vida. Nela existe um saber que pouco se aprende na escola, um capital cultural que passa de mão em mão, de geração em geração.

O tempo não cabe dentro de mim; ele passa pelas beiras, feito destino. Meus mortos estão cada vez mais vivos, mais presentes, mais falantes. Bato na madeira com os nós dos dedos e escuto o som oco do silêncio, como quem reconhece a própria existência.

Aprendi que solidão não é estar só, assim como educação não é submissão. Educação é pensar, partilhar, permanecer, aprender a ser – feliz. Na minha filosofia, atrevo-me a ser cópia de mim mesmo: sem repetir fórmulas, refaço caminhos. Misturo o concreto ao imaginário, porque a argamassa da vida também se faz dessa matéria ambígua, onde a mente nos sustenta.

Às vezes me pego pensando, sem pressa: há quanto tempo bebemos a mesma água? A que correu por outras bocas, outros corpos, outros séculos. Sonho para compreender o mundo. Sonho para aprender a habitá-lo. Porque gente sem sonho é como planta sem raiz: pode até ficar de pé por um tempo, mas não aprende a resistir.

Talvez eu não esteja dizendo coisa com coisa, mas as palavras me vêm à ponta da língua, carregadas da natureza simples e ingênua de amar as pessoas acima de tudo. Procuro imaginar com a pureza – e a sorte – dos iniciantes.

Gosto de ver. A luz dos olhos enfeita a vida. No escuro do universo estrelado, vou pescando a esperança de ouvir a boa-nova de um renascer iluminado – às vezes em forma de um novo desenho, às vezes como uma canção chegando devagarinho.

Não sou eterno. Sou apenas uma vida que se renova a cada instante, que se espalha, mergulha e voa sobre cada superfície. Não consigo remediar todas as dores do mundo, mas desejo que a força do bem universal as devore, consumindo tudo, transformando tudo. Para isso, faço a minha parte: a minha arte.

Quede minha pedra do sol?

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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