“Pensamos como Colonizadores, como Colonizados… ou muito antes pelo contrário?” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é professor do IFCE. Foto: Reprodução

Com o título “Pensamos como Colonizadores, como Colonizados… ou muito antes pelo contrário?”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “A história nos ensina que o letramento nunca foi apenas um babado da pedagogia, mas uma disputa de poder: quem lia contratos governava, quem não lia obedecia”, expõe o articulista.

Confira:

Há perguntas que atravessam séculos disfarçadas de novidade.
Esta é uma delas!

Diante do abismo tecnológico que define o nosso tempo, profundo, silencioso, cheio de promessas e armadilhas, o mundo não se divide apenas por fronteiras no mapa. Divide-se por
atitudes mentais.

Há sociedades que pensam como quem constrói impérios.
E há sociedades que pensam como quem aguarda instruções.

As primeiras encaram a tecnologia como infraestrutura de domínio:
Escrevem código como quem escreve tratados.
Desenham plataformas como quem desenha rotas marítimas.
Patenteiam ideias como quem demarca territórios.

Para elas, o letramento digital é uma política de Estado, é Geopolítica, é Soberania. Sabem que quem define protocolos controla o jogo. Controla a infraestrutura. Controla o futuro.

Do outro lado, sociedades que se comportam culturalmente como colonizadas, não por destino, mas por hábito histórico, recebem cada nova tecnologia com o deslumbramento do passado. Celebram o espelho e o chocalho digital, confundindo consumo com modernidade.

Aceitam a “nuvem” sem perguntar pra que lado ela “chove”.
Entregam dados como quem entrega minério bruto.
Acreditam que usar a ferramenta do outro é o mesmo que ter poder.

Enquanto o colonizador projeta o futuro, o colonizado apenas faz o download.

Mas o que, afinal, molda esse descompasso, agora reencenado no substrato digital?

Seriam camadas antropológicas profundas, legados de poder e submissão que persistem sob novas interfaces?

Ou heranças culturais mais sutis, contextos que valorizam a invenção e o pensamento crítico frente a ambientes que naturalizam a aceitação passiva?

Talvez pese a dimensão institucional: a presença (ou ausência) de políticas públicas que compreendam que educação não é apenas escolarização, mas formação de autonomia; que letramento digital não é habilidade técnica, mas condição de cidadania.

Independentemente das causas subjacentes, é nesse cenário de assimetria brutal que a urgência do letramento se impõe.

Toda geração precisa aprender a ler o seu tempo.

Se houve uma época em que cidadania significava decifrar letras, hoje significa compreender modelos, plataformas, sistemas.

A história nos ensina que o letramento nunca foi apenas um babado da pedagogia, mas uma disputa de poder: quem lia contratos governava, quem não lia obedecia.

Quem domina os códigos que explicam o mundo consegue interpretá-lo; quem não domina depende da interpretação de outros, e dependência constante é o oposto de cidadania.

O século XXI exige a leitura digital e brevemente a quântica. Nele, a tinta cedeu lugar ao algoritmo e a exclusão mudou de face; se antes era o analfabetismo das palavras, agora é o analfabetismo digital que nos torna vulneráveis.

A pergunta fundamental, contudo, permanece: quem programa o mundo e quem é apenas programado por ele?

Vivemos uma transição silenciosa onde o poder se esconde na elegância do código e na mediação matemática da realidade. Já não conhecemos o mundo por experiência direta, mas por telas, rankings e filtros invisíveis que decidem o que vemos e o que desejamos. Nesse cenário, confundir consumo com compreensão é um erro fatal; saber deslizar o dedo numa tela não é autonomia, é apenas coordenação motora.

O verdadeiro letramento começa quando paramos de tratar a tecnologia como mágica e passamos a fazer as perguntas perigosas sobre quem controla os dados, quem lucra com a nossa atenção e quais interesses moldam a infraestrutura que nos cerca.

O mito do “nativo digital” é uma ilusão confortável que mascara uma geração de “especialistas em nada”, hipnotizados pelo consumo passivo de plataformas que não compreendem. A “nuvem” não flutua; ela é prédio, é território e tem dono e CEP.

As Big Techs não oferecem ferramentas neutras, mas infraestruturas de influência que extraem riqueza e moldam comportamentos. Ignorar isso é sucumbir ao “entusiasmo do colonizado”, celebrando a própria dependência como se fosse progresso, enquanto nossa soberania evapora por cabos de fibra óptica e servidores estrangeiros.

Essa cegueira cobra um preço alto: a invisibilidade econômica e a dependência cognitiva. O mercado de trabalho não perdoa quem não sabe ler o tempo, e a Escola falha em preparar jovens para o mundo agora, transformando-se em um museu de irrelevâncias.

O risco é terceirizarmos o pensamento, abandonando a criatividade e a autonomia intelectual para nos tornarmos meros usuários obedientes, digitalmente abduzidos.

E letramento, no século XXI, é necessariamente digital e epistêmico, não por modismo, mas por sobrevivência.

Soberania se constrói com consciência. Consciência nasce do letramento.

A questão que realmente importa, aquela que atravessa “séculos disfarçadas de novidade”, governos, gerações e projetos de país, já não é “se” somos, mas “o que” decidiremos ser.

Afinal, pensamos como colonizadores, como colonizados…
ou teremos coragem de pensar por conta própria?

*Mauro Oliveira

Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

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