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“Pensamos como Colonizados ou como Protagonistas?” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é professor do IFCE. Foto: Reprodução

Com o título “Pensamos como Colonizados ou como Protagonistas?”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “É imperativo que essas nações assumam o protagonismo na governança global, definindo princípios éticos e normas para que a inteligência artificial seja um vetor de soberania, inclusão e desenvolvimento humano, e não de dependência”, expõe o articulista.

Confira:

A recente Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, na Índia, evidenciou como a expansão acelerada das plataformas digitais e da IA está reconfigurando as relações globais de conhecimento, poder e autonomia. À luz dos debates em Nova Déli, este ensaio discute a distinção entre sociedades que tratam a tecnologia como infraestrutura estratégica e aquelas que a incorporam predominantemente como objeto de consumo, argumentando que tal diferenciação se manifesta em níveis cognitivos, institucionais e políticos. Defende-se que o letramento digital deve ser compreendido como condição estruturante de cidadania e soberania no século XXI, ultrapassando a dimensão instrumental e incorporando capacidades de interpretação crítica, compreensão sociotécnica e participação na governança digital. O trabalho apresenta implicações para políticas públicas, educação e estratégias nacionais de inteligência artificial, sugerindo que o Brasil possui condições para se reposicionar como protagonista desde que implemente programas massivos de formação e desenvolva uma agenda integrada de infraestrutura, dados e capacitação.
*Palavras-chave:* letramento digital; soberania tecnológica; políticas públicas; inteligência artificial; cidadania digital.

1. Uma questão que atravessa épocas

Há questões que atravessam diferentes períodos históricos sob novas formas conceituais. Entre elas destaca-se a relação entre conhecimento, poder e autonomia social, agora reconfigurada no contexto da expansão acelerada da Inteligência Artificial (IA) Generativa e das associadas plataformas digitais.

Nesse cenário, não são apenas as fronteiras geográficas que separam. O mundo passa a se dividir, sobretudo, por atitudes cognitivas, por culturas institucionais e pela forma como cada sociedade compreende, ou não, o papel estratégico da tecnologia em seu futuro.

Há sociedades que pensam como quem constrói futuros.

Enxergam a tecnologia como infraestrutura crítica, como um porto por onde circulam fluxos de riqueza, influência e soberania. Para elas, o letramento digital não é uma habilidade complementar; é política de Estado, é estratégia de longo prazo, é soberania traduzida em arquitetura sociotécnica.

Há sociedades que agem como quem aguarda instruções.

Não por fatalidade histórica, mas por trajetórias culturais e institucionais que naturalizam a dependência. São ambientes que recebem cada nova tecnologia com o “entusiasmo do colonizado”, confundindo acesso com autonomia e consumo com desenvolvimento. Aceita-se a “nuvem” sem questionar sua materialidade, sua governança, suas implicações ambientais nem geopolíticas … ou pra que “lado ela chove”.

Nesse movimento, dados são entregues como matéria-prima bruta, e a utilização de ferramentas externas é interpretada como sinal de modernização.

Enquanto alguns projetam sistemas, outros apenas fazem download.

Contudo, e aqui reside o “ponto de inflexão”, essa condição não deve ser entendida como destino inevitável. Trata-se, antes, de uma escolha institucional, educativa e cultural. Politica, por assim dizer!

A distinção entre dependência e protagonismo não está escrita na geografia nem na história: ela emerge da capacidade coletiva de compreender o tempo em que se vive e de estruturar políticas que transformem conhecimento em autonomia.

2. Entre dependência e protagonismo: o espaço da escolha

Vivemos um momento em que países podem redefinir seu lugar no cenário global.

O Brasil reúne condições singulares (diversidade cultural, inteligência coletiva, criatividade e capacidade histórica de adaptação) que lhe permitem surpreender quando reconhece a dimensão dos desafios.

O principal divisor de águas não será apenas tecnológico, mas educativo e, principalmente, político. Nenhuma nação se torna protagonista simplesmente adquirindo tecnologias; torna-se quando desenvolve capacidade de compreendê-las, adaptá-las e governá-las.

Transformar o letramento digital em política pública estruturante, tão essencial quanto a alfabetização em outros períodos históricos, é condição para ampliar autonomia, fortalecer cidadania e sustentar estratégias nacionais.

Nesse contexto, o letramento digital é entendido não como habilidade periférica, mas como uma sociedade em rede, como um sistema em que fluxos de informação estruturam relações econômicas e políticas. Controlar esses fluxos implica capacidade de influenciar mercados, narrativas e decisões coletivas.

Em última instância, permanece como tarefa fundamental, a sociedade decidir entre reproduzir dependências ou construir protagonismo.

Porque toda geração precisa aprender a ler o seu tempo!

3. O risco da dependência digital e cognitiva

Plataformas digitais concentram poder econômico e informacional ao capturar dados e ao modular comportamentos em larga escala. Essa dinâmica ultrapassa a esfera estritamente econômica, alcançando dimensões culturais e cognitivas ao influenciar percepções, preferências e formas de interação social.

A dependência contemporânea, portanto, não é apenas tecnológica, mas também epistêmica e cognitiva. À medida que sistemas automatizados passam a mediar a experiência cotidiana, desde recomendações de conteúdo até processos administrativos, a capacidade crítica torna-se elemento central para o exercício da cidadania.

Nesse cenário, o século XXI demanda uma alfabetização ampliada, que ultrapasse o uso instrumental das tecnologias e incorpore a compreensão de suas estruturas, dinâmicas e implicações. Letramento digital passa a significar a capacidade de entender como dados, plataformas e modelos algorítmicos moldam decisões, relações sociais e processos econômicos.

Para o Brasil, investir de forma estruturante em letramento digital representa uma oportunidade estratégica. Integrar pensamento computacional à educação básica, articular ciência, ética e inovação nas universidades e reconhecer dados como ativo público são caminhos para fortalecer autonomia social e capacidade de inovação.

Mais do que uma agenda educacional, trata-se de uma escolha “republicana” capaz de redefinir a posição do país no ecossistema tecnológico global, de mero usuário a protagonista. Isso implica construir uma escola que forme para compreender e criar, uma universidade comprometida com inovação responsável e políticas públicas que tratem a infraestrutura digital e os dados como patrimônio estratégico.

Não se trata de utopia, mas de decisão coletiva sobre o futuro que se deseja construir.

4. O mito do “nativo digital” e a necessidade de consciência

A ideia de que gerações conectadas compreendem naturalmente o ambiente digital constitui uma simplificação conceitual arriscada. Familiaridade com interfaces e fluência no uso de aplicações não se traduz, necessariamente, em compreensão das estruturas técnicas, econômicas e políticas que sustentam o ecossistema digital.

O chamado “mito do nativo digital” (às vezes mascara uma geração de “especialistas em nada”), revela-se, assim, uma narrativa confortável que pode encobrir uma lacuna formativa relevante: a confusão entre consumo e entendimento. A capacidade de operar dispositivos ou navegar por plataformas não implica domínio sobre os sistemas que organizam fluxos de informação, dados e poder.

Nesse sentido, a noção de “nuvem” deve ser compreendida não como abstração etérea, mas como infraestrutura material, situada territorialmente, regida por contratos e inserida em dinâmicas geopolíticas. Plataformas digitais não constituem ambientes neutros, mas arquiteturas sociotécnicas orientadas por modelos econômicos específicos e por lógicas de captura de valor.

Reconhecer essa realidade não deve conduzir à rejeição da tecnologia, mas à sua apropriação crítica. O desafio contemporâneo consiste em participar do ambiente digital com autonomia, substituindo o entusiasmo ingênuo pelo engajamento consciente.

O desafio brasileiro não é escapar do mundo digital. É participar dele com autonomia.
Transformar dados em conhecimento.
Conhecimento em inovação.
Inovação em bem-estar coletivo.

O risco mais significativo não reside na tecnologia em si, mas na possibilidade de dependência cognitiva decorrente da ausência de compreensão crítica sobre os sistemas que mediam a vida social.

5. Implicações para trabalho, educação e políticas públicas

A reorganização produtiva impulsionada pela inteligência artificial tem redefinido as competências necessárias à participação econômica e social. A experiência internacional demonstra que avanços tecnológicos sustentáveis dependem de políticas articuladas envolvendo educação, pesquisa e regulação. Países que lograram posicionamento estratégico investiram simultaneamente em formação de capital humano e infraestrutura tecnológica.

Mais profundamente, o desafio é de natureza cognitiva: evitar a terceirização do pensamento. Quando a capacidade de compreender e questionar sistemas é substituída pela simples dependência de suas respostas, abre-se espaço para formas sutis de perda de autonomia.

Responder a esse cenário exige articulação entre Estado, sistema educacional, setor produtivo e comunidade científica em torno de uma agenda comum de capacitação, inovação e desenvolvimento tecnológico.

Não se trata apenas de preparar trabalhadores para novas ocupações, mas de fomentar novas formas de pensar, baseadas em análise crítica, criatividade, colaboração e responsabilidade social. À medida que o mercado sinaliza essa transição, torna-se evidente que participar plenamente da vida econômica e democrática dependerá da capacidade de compreender os sistemas que estruturam a sociedade digital.

No caso brasileiro, a oportunidade reside na construção de políticas que integrem educação básica, ensino superior, inovação e governança de dados. O letramento digital massivo pode funcionar como mecanismo de inclusão produtiva e fortalecimento da autonomia nacional.

Mais do que capacitação técnica, trata-se de formar cidadãos capazes de compreender o funcionamento das tecnologias que permeiam a vida social e econômica.

Assim, a questão central talvez não seja mais se estamos atrasados, mas se estamos dispostos a aprender coletivamente. Porque soberania não nasce de discursos.

Nasce de uma sociedade que entende que letramento digital é condição de cidadania.

6. Uma oportunidade histórica para o Brasil

Apesar das assimetrias sociais existentes, o Brasil possui ativos relevantes: diversidade cultural, sistema universitário consolidado, ecossistemas de inovação emergentes e uma população jovem inteligente, criativa e conectada (quer ver: é só dar uma chance ao jovem !!!).

Se assumida com visão estratégica e compromisso institucional, essa agenda pode permitir que o Brasil transite de uma posição predominantemente consumidora de tecnologias para um papel ativo na configuração do ecossistema digital global. Não se trata apenas de acompanhar transformações, mas de participar de sua formulação, como criador de soluções, produtor de conhecimento e agente de inovação.

A experiência histórica demonstra que mudanças estruturais ocorrem quando sociedades reconhecem o investimento em conhecimento como estratégia nacional, articulando educação, ciência, infraestrutura e políticas públicas em torno de objetivos de longo prazo.

Pensar como protagonistas significa priorizar a criação de caminhos próprios, estimular a invenção e fortalecer a capacidade de formular soluções alinhadas às necessidades sociais e econômicas nacionais. Trata-se de substituir a lógica da dependência pela lógica da aprendizagem e da construção.

O futuro não está pré-instalado. Ele será continuamente produzido por decisões políticas, investimentos educacionais, avanços científicos e escolhas cotidianas. Ele será escrito em políticas, em salas de aula, em decisões cotidianas.

E a questão que permanece, aberta e provocativa, é simples:
Pensaremos como colonizados… ou como protagonistas em um país que decidiu compreender o seu tempo…
e surpreender?

7. Conclusão — aprender como projeto de país

A questão fundamental já não é se participaremos do mundo digital. Essa presença já está dada.

A questão decisiva, como ficou evidente nos debates desta semana em Nova Déli sobre o impacto global da inteligência artificial, é de que maneira participaremos?

Como economias que consomem tecnologias desenhadas em outros centros de poder, ou como sociedades que ajudam a definir princípios, prioridades e regras para o futuro digital?

A reunião internacional deixou evidente algo que há poucos anos parecia apenas intuição: a inteligência artificial tornou-se tema de governança global, tão estratégico quanto energia, comércio ou segurança.

Assim, a postura do Brasil em Nova Déli evidencia uma mudança estratégica (pelo menos no discurso, enquanto o PBIA não “mostra as caras”): o Sul Global recusa o papel passivo de mero mercado consumidor de tecnologias alheias. É imperativo que essas nações assumam o protagonismo na governança global, definindo princípios éticos e normas para que a inteligência artificial seja um vetor de soberania, inclusão e desenvolvimento humano, e não de dependência (“PBIA na veia”).

Não basta participar das conversas. É preciso participar da construção. É preciso executar políticas públicas (PBIA, novamente).

Assumir protagonismo não significa competir por hegemonia, mas reconhecer que desenvolvimento, autonomia e inclusão dependem da capacidade de compreender e orientar a transformação tecnológica em curso.

O Brasil, em Nova Déli, alertou para os riscos da IA e destacando a necessidade de regulação das big techs e, numa mensagem clara: o desejo de que o futuro da IA não seja decidido apenas por empresas ou por poucos países líderes. Será moldado por coalizões, por agendas nacionais consistentes e pela capacidade de cada sociedade de investir em conhecimento, formação e infraestrutura.

Se este é o caminho, vamos turbinar o PBIA… enquanto é tempo!

Porque o futuro não chega embalado, nem se instala como software atualizado durante a madrugada. Ele se constrói no cotidiano, na escola que desperta curiosidade, no estudante que descobre perguntas novas, no educador que abre caminhos, nas decisões públicas que enxergam além do imediato, nas comunidades que compartilham saberes.

A história mostra que transformações profundas acontecem quando um país decide aprender com intencionalidade.

Nossa trajetória sempre foi feita de reinvenções: Cesar Lattes, Santos Dumont, Marechal Montenegro, Oswaldo Cruz…

E cada reinvenção exige mais do que adaptação técnica: exige lucidez, pede discernimento. Não, por acaso, que a Embraer, a Petrobras, o PIX, Urna Eletrônica etc. são ícones da tecnologia brasileira.

Talvez por isso a reflexão que atravessa gerações ressurja agora ampliada pelo debate global:

Seguiremos apenas acompanhando o “movimento digital” ou assumimos o compromisso de compreender o nosso tempo e participar ativamente daquilo que ainda está por ser escrito?

Seremos apenas receptores de soluções…
ou participantes de uma governança que busca equilíbrio entre inovação, justiça social e soberania?

Essa é, provavelmente, uma das principais lições que emergem do momento atual, e que encontros como o de Nova Déli tornam visível: soberania no século XXI nasce da combinação entre conhecimento, cooperação e visão de longo prazo.

No fim, tudo converge para uma atitude simples e profundamente transformadora: decidir aprender!

Aprender é um ato discreto, mas poderoso.
É iluminar o caminho quando ainda não se vê claramente o horizonte.
É permitir que novas ideias circulem como brisa que renova o ambiente.
É semear possibilidades mesmo quando o terreno parece árido

Aprender é, de fato, uma das formas mais silenciosas de exercer soberania. E um país que aprende, de verdade, não pede licença para existir.

Ele cria, reinventa, surpreende…
como um povo que decidiu compreender o seu tempo
e escrever, com as próprias mãos, a sua história?

P.S. – Este artigo faz referência à Cúpula sobre o Impacto da IA, em Nova Déli. O texto será objeto da Aula Magna de 2026 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) a ser proferida no dia 13/mar/26, a convite do presidente do INPE, Miguel Monteiro.

*Mauro Oliveira

Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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