Com o título “Pequenos Exercícios de Encantamento”, eis texto de Marta Pinheiro, escritora, poeta, produtora cultural, curadora literária e parecerista em editais de arte e cultura.
Confira:
Dia desses, viajei para Santa Catarina com minha sobrinha.
Há algo nas viagens — esse deslocamento onde o mundo parece menos rígido — que também nos desloca por dentro. Foi nesse entre, nesse intervalo suspenso, que ela, com seus seis anos de lucidez ainda não domesticada, me disse:
“Dinda, tudo você fala ‘que lindo’.”
Fiquei suspensa nessa frase.
Talvez haja, em quem escreve ou em quem sente demais uma inclinação quase inevitável à transfiguração. Como se o olhar recusasse o real em sua aspereza bruta e, num gesto quase inconsciente, o recobrisse de sentido, de beleza, de delicadeza. Não por ingenuidade, mas por necessidade. Como quem borda sobre o vazio para não cair nele.
A psicanálise talvez dissesse: é um modo de suportar o mundo. Uma forma sutil de defesa — não para negar o real, mas para torná-lo habitável. Mas há também outra possibilidade, menos defensiva: talvez eu apenas tenha aprendido a me contentar com o que é mínimo.
Ou melhor — a reconhecer que o mínimo nunca foi pouco.
Uma flor que insiste.
O canto distraído dos pássaros.
O azul — sempre excessivo — do céu.
O rumor contínuo das ondas.
Chamar isso de “lindo” não é exagero. É atenção.
E talvez, no fim, não se trate de tornar o mundo mais bonito do que ele é — mas de não deixar que ele se empobreça dentro de nós.
E me dei conta, então, de que fiz disso um modo de existir.
Como se, a cada pequeno espanto, eu dissesse ao mundo — ainda que em voz baixa: há algo aqui que merece ser visto com cuidado.
Sempre há.
*Marta Pinheiro
Ecritora, poeta, produtora cultural, curadora literária e parecerista em editais de arte e cultura.