“Fundar uma cidade, no contexto colonial, não significava abrir ruas e erguer igrejas de imediato; significava, antes, cravar um ponto de poder, um núcleo de defesa e de administração, a partir do qual a vida civil poderia irradiar-se. Foi exatamente isso que Pero Coelho fez”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
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Este artigo insiste no fato de que Fortaleza não tem apenas 300 anos. E, por justo e necessário, busca resgatar a figura do nobre açoriano Pero Coelho de Sousa, o fundador da cidade que cresceu às do Pajeú, mas nasceu na foz do Rio Siará.
A história, não raro, é menos um espelho fiel do passado do que um palco onde vencem aqueles que tiveram melhores cronistas, mais duradouras construções ou padrinhos literários mais influentes. Assim se deu com a origem de Fortaleza, que na linha do tempo não tem apenas 300 anos. Entre versões consagradas e repetições acríticas, eclipsou-se a figura de Pero Coelho de Sousa, cuja ação pioneira, em 1603–1604, deve ser reconhecida como o verdadeiro ato fundador da cidade.
É tempo de repor essa verdade histórica, com o amparo das fontes e o vigor da razão.
A narrativa mais antiga e autorizada sobre os primórdios da ocupação do Ceará encontra-se na pena de Frei Vicente do Salvador. Escrevendo em 1627, portanto próximo aos fatos, ele registra com clareza meridiana a saga da expedição do nobre guerreiro açoriano Pero Coelho e a iniciativa primeira: “Chegando à barra do rio Siará, fez ali um forte […] para se sustentar na terra.” E acrescenta, com a sobriedade crítica que lhe é própria: “Pelas muitas necessidades e falta de mantimentos, não pôde conservar-se.”
Ora, o que aqui se descreve não é um simples pouso de ocasião, nem uma aventura episódica. Trata-se de um ato deliberado de fundação: escolha do sítio, edificação de fortificação, tentativa de permanência. E a denominação do local como embrião de uma cidade que chamou de “Nova Lisboa”, sem descuidar das possibilidades de ampliar a colonização que anteviu das terras ao redor, denominando-as de “Nova Lusitânia”.
O fracasso posterior, devido à seca, à fome e à resistência indígena, não anula o caráter inaugural do gesto. Pelo contrário, engrandece-o, pois revela a audácia de quem, antes de todos, ousou fixar-se. Tanto isso é verdade, que após muitas intempéries arrostadas com honra e denodo, numa segunda fase da epopeia, trouxe a família, que com ele protagonizou a primeira grande tragédia da história do Ceará.
Na foz do rio Siará, Pero Coelho ergueu o Forte de São Tiago. Ali não apenas levantou paliçadas, mas lançou a primeira matriz de ocupação do território que, séculos depois, se tornaria Fortaleza.
É preciso compreender o alcance desse ato. Fundar uma cidade, no contexto colonial, não significava abrir ruas e erguer igrejas de imediato; significava, antes, cravar um ponto de poder, um núcleo de defesa e de administração, a partir do qual a vida civil poderia irradiar-se.
Foi exatamente isso que Pero Coelho fez.
Tudo o que veio depois, como tentativas de Martim Soares Moreno, as fortificações holandesas, a consolidação portuguesa, não passou de desdobramento de uma escolha primeira, qual seja aquela na foz do rio Siará, aquele ponto estratégico, aquele chão inaugurado em 1603. Lembre-se por importante como analogia, que o general Pedro de Mendoza construiu um forte, em 1536, em local que denominou “Real de Nuestra Señora Santa Maria del Buen Ayre”. Era o embrião da atual Buenos Aires, capital da Argentina, que mudou várias vezes de localização geográfica sem negar a paternidade da fundação a Mendoza. E há um paralelo entre o feito do “Adelantado” Mendoza e Pero Coelho. Também o militar espanhol construiu uma primeira fundação precária e marcada por cercos indígenas, resultando em uma situação de fome severa entre os colonos. Com Pero Coelho ocorreu muito pior cerca meio século depois, cujos detalhes não cabem neste artigo.
A historiografia consagrou Martim Soares Moreno como figura central da formação cearense. Não se nega sua importância. Mas é impossível ignorar que sua projeção foi amplificada e, em grande medida, romantizada pela pena de José de Alencar.
Em “Iracema”, Soares Moreno surge como herói fundador, símbolo de um encontro idealizado entre europeus e indígenas. A literatura, porém, não é a história. E quando o romance suplanta o documento, corre-se o risco de substituir a verdade pelo mito.
Pero Coelho, ao contrário, não teve romancista que o celebrasse. Faltou-lhe esse padrinho ilustre. E, por isso, foi relegado à sombra; não por menor mérito, mas por menor fortuna literária.
Ainda mais frágil é a tese que atribui a fundação de Fortaleza ao batavo Matias Beck, que em 1649 ergueu o Forte Schoonenborch, onde já existia paliçadas construídas com restos do Forte de São Tiago, inclusive.
Convém recordar que Beck não era fundador de cidades, mas agente de uma empresa comercial, a Companhia das Índias Ocidentais, que àquela altura, já dava sinais de decadência. Sua presença no Ceará foi episódica, subordinada a interesses mercantis e militares alheios à formação orgânica de uma sociedade local. Câmara Cascudo diz sem papas na língua que Matias Beck apenas patinou na praia.
Além disso, no caso de Fortaleza, os holandeses não escolheram um espaço inédito. Retomaram um sítio já conhecido, explorado e previamente ocupado pelos portugueses, desde Pero Coelho. A pedra fundamental, portanto, já estava lançada havia quase meio século.
A confusão historiográfica decorre de um equívoco conceitual: confundir fundação com consolidação.
Pero Coelho funda (1603–1604); inicia, arrisca, estabelece o primeiro núcleo;
Soares Moreno ocupa e reforça;
Matias Beck reconstrói e fortifica;
os portugueses, por fim, consolidam.
Mas sem o primeiro gesto, todos os demais seriam hipóteses. Fundador é aquele que abre o caminho onde nada havia. E esse papel, no Ceará, pertence inquestionavelmente a Pero Coelho de Sousa.
Historiadores como Francisco Adolfo de Varnhagen, Capistrano de Abreu e Barão de Studart reconhecem, em graus diversos, a importância das primeiras investidas de Pero Coelho. A historiografia cearense mais atenta tem, igualmente, resgatado essa primazia.
É preciso, pois, ir além da tradição repetida e restaurar a verdade essencial. Fortaleza não nasceu pronta em 1649; começou a existir em 1603, quando um português, contra todas as adversidades, decidiu permanecer.
Antes das muralhas de pedra, houve a paliçada de madeira; antes da cidade consolidada, houve o núcleo precário; antes da memória oficial, houve o esquecimento.
Na foz do Rio Siará, ao erguer o Forte de São Tiago, Pero Coelho de Sousa lançou não apenas uma fortificação, mas uma ideia de permanência, o embrião de uma cidade. Se a história deve honrar os que primeiro ousaram, então é preciso afirmar, sem hesitação e sem concessões: o verdadeiro fundador de Fortaleza é Pero Coelho de Sousa.
Portanto, comemora-se neste 13 de abril não a fundação de Fortaleza, mas os 300 anos de instalação de uma vila, que ao ser elevada a essa condição por decreto de El-rei de Portugal em 1725 e instalada em 13 de abril do ano seguinte, já existia há mais de 100 anos.
Barros Alves é jornalista e poeta