Com o título “Política e Ódios”, eis artigo de Francisco J. Caminha, escritor e ex-deputado estadual. “Na prática, a política das alianças raramente nasce de princípios morais e de afinidades ideológicas. Elas surgem por convergência de aversões e de ódios comuns. O cimento que une é o inimigo comum”, expõe o articulista.
“Em política, a aliança quase sempre é uma comunhão de ódios”.
Charles Tocqueville (1805-1859)
Confira:
Se um leigo em política ler a missiva a seguir, não vai concordar comigo, e se eu for discutir com ele, eu perco o debate, porque não tenho como descer ao nível dele. Então, vejamos:
No pragmatismo da política, partidos e grupos não se unem por afinidade moral, coerência ideológica ou amor sincero a um projeto comum. Na prática, a política das alianças raramente nasce de princípios morais e de afinidades ideológicas. Elas surgem por convergência de aversões e de ódios comuns. O cimento que une é o inimigo comum.
O discurso fala em união, diálogo e futuro. A prática fala em cargos, controle e sobrevivência. O que une mesmo é o ódio e o medo de perder espaço e a vontade sincera de ver o outro cair.
No palanque eleitoral, finge-se que existe união pelo bem comum, pela defesa da democracia, pela responsabilidade histórica com o Ceará e mais blá blá blá.. Porém, na alcova escondida das quatros paredes a lógica é a seguinte: “vale tudo, só não vale deixar nosso inimigo comum vencer as eleições”.
Essas alianças de ódio que estamos vendo agora na nossa política Alencarina entre os históricos desafetos, não se sustentam depois de uma suposta vitória, pois estão fundadas no ódio e na sanha por vingança. Caso derrubado o adversário, o vínculo perde a função e as diferenças internas emergem com violência. O que antes era tolerado em nome da causa comum, vai se transformar em disputa aberta por poder, espaço e protagonismo. O ódio que unia passará a ser redistribuído entre recém e frágeis aliados por conveniência e a traição será inevitável.
Vamos explicar para o leigo:
O líder do grupo político A odeia o movimento político do grupo B, mas os dois odeiam conjuntamente e simultaneamente o partido político C, que está exercendo o poder.
Então, o que eles estão articulando é a aliança dos ódios comuns, como bem destaca o verso em destaque no início dessa crônica.
Tocqueville escreveu isso no século XIX, mas sua frase atravessa o tempo com desconfortável atualidade. Ela revela que a política, antes de ser o espaço das ideias elevadas, é o território das paixões humanas mal resolvidas.
Quem entende essa lógica não se ilude com discursos de união eterna. Quem a ignora, acredita que alianças são compromissos morais duradouros. E quem governa sem compreendê-la, cedo ou tarde, descobre que alianças feitas de ódio cobram seu preço, sempre com juros, correção e com uma inevitável dose de traição.
Resumindo, as alianças políticas se formam como sociedades de ocasião: ninguém confia em ninguém, mas todos odeiam a mesma pessoa.
Enquanto o inimigo existe, reina a paz. Derrubado o adversário, começa a verdadeira disputa. O aliado vira ameaça, o parceiro vira estorvo, o companheiro de palanque passa a ser tratado como erro de cálculo. Governa-se sabotando, apoia-se desconfiando, sorri-se com os dentes cerrados.
Como disse uma vez o mestre de Nazaré nos evangelhos sinóticos:
“O que foi dito não é para todos, é para quem está disposto a entender. Quem tiver ouvidos que ouça”
*Francisco Caminha
Escritor e ex-deputado estadual.