“Nenhuma celebração da literatura cearense estaria completa sem exaltar um dos movimentos mais singulares e criativos de nossa história cultural: a Padaria Espiritual”, aponta o médico e deputado estadual Heitor Férrer. Confira:
Há dezoito anos, tenho a alegria e a responsabilidade de ser o parlamentar que, ano após ano, abre as portas da Assembleia Legislativa do Ceará para a justa homenagem aos nossos prosadores, poetas, artistas, literatos e intelectuais.
Fazer isso não é apenas cumprir um gesto protocolar. É reafirmar o compromisso desta Assembleia com a cultura cearense, com aqueles que, pela palavra, pela sensibilidade e pela criação artística, ajudam a construir a identidade do nosso povo. Cada sessão solene dedicada às nossas letras é um tributo ao talento, ao esforço e à perseverança de homens e mulheres que fazem da arte um serviço ao Ceará e ao Brasil.
Sinto-me honrado por ter sido o instrumento dessa tradição ao longo de quase duas décadas. E renovamos hoje, juntos, o compromisso de seguir valorizando aqueles que iluminam nossa cultura e elevam nossa gente.
Diferentes pensadores compreenderam a literatura, cada qual oferecendo uma chave de leitura que enriquece nossa relação com a arte da palavra.
Comecemos pelos críticos de formação sociológica. Sílvio Romero via a literatura como um espelho da sociedade, um documento vivo das forças históricas e culturais de um povo. Tobias Barreto, embora também atento ao contexto social, acrescentava uma perspectiva filosófica, entendendo a literatura como resultado das correntes intelectuais de cada época. Já Wilson Martins, respeitável crítico literário que viveu no século passado e início deste, ampliou esse olhar ao considerar a literatura parte essencial do processo histórico da inteligência brasileira, isto é, expressão da maturidade cultural de uma nação, sem jamais abandonar o critério artístico que dá à obra seu valor estético.
Em contraste com essas abordagens mais históricas, encontramos críticos que veem a literatura antes de tudo como experiência humana profunda. José Castello nos lembra que a literatura é um mergulho sensível na existência, um espaço onde o mistério e o indizível têm lugar. Tristão de Athayde, por sua vez, compreendia a literatura como expressão da pessoa humana em sua dimensão ética e espiritual, capaz de formar consciências e de elevar a vida cultural.
Seguindo outra direção, alguns autores destacam a autonomia estética da literatura. Harold Bloom, um dos mais importantes intelectuais do século XX, considera que o valor literário nasce da força da imaginação individual e da originalidade que cada escritor conquista na difícil luta com seus predecessores. Para ele, a literatura não é instrumento social: é criação singular, voltada à expansão da interioridade humana.
No extremo oposto desse pensamento, Jean-Paul Sartre afirma que literatura é engajamento. Escrever, para ele, é agir: é assumir responsabilidade diante do tempo histórico e despertar no leitor a consciência de sua liberdade. A palavra literária, assim, torna-se instrumento de transformação.
Para Umberto Eco, a literatura é uma “obra aberta”: um texto que não oferece um sentido único, mas que permite múltiplas interpretações. Ela funciona como um sistema de signos em constante movimento, que o leitor ajuda a completar. Assim, a literatura cria mundos possíveis, expande a imaginação, convida ao jogo interpretativo e oferece uma forma especial de conhecimento, baseada no diálogo entre autor, texto e leitor.
Vale lembrar também a visão ampla e cosmopolita de Otto Maria Carpeaux, que conciliava história, estética e filosofia. Para ele, a literatura participa de uma grande tradição cultural que atravessa épocas e nações, sendo ao mesmo tempo memória, criação e diálogo permanente entre obras e ideias.
Assim, ao juntarmos essas perspectivas — a sociológica, a existencial, a estética, a histórica, a espiritual e a engajada — percebemos que a literatura não se deixa reduzir a um único conceito. Ela é, ao mesmo tempo, testemunho, criação, mistério, intervenção e beleza. E é justamente dessa pluralidade que nasce sua força e sua permanência.
Falemos, por óbvio e necessário, da literatura cearense. Falar da criação literária de cearenses no contexto brasileiro é reconhecer uma das tradições mais vigorosas, inventivas e influentes de todo o país. Desde José de Alencar, nosso grande romancista romântico e verdadeiro fundador do romance brasileiro, o Ceará tem sido berço de vozes que moldaram a imaginação nacional. Alencar não apenas inaugurou as bases do nosso romance histórico, regional e urbano, ele deixou marcas que ainda hoje orientam o modo como pensamos a identidade literária do Brasil.
Após ele, seguiram-se nomes que ampliaram e diversificaram essa presença cearense nas letras. Juvenal Galeno, inaugurando a poesia social do Brasil; Farias Brito, cuja filosofia influenciou gerações; Rodrigues de Carvalho e Adolfo Caminha, pioneiro do naturalismo brasileiro; Domingos Olímpio, com sua força regionalista; e Patativa do Assaré, cuja poesia de raízes populares alcançou respeitabilidade nacional pela profundidade humana e sabedoria universal.
No século XX, o Ceará projetou escritores de enorme relevância. Rachel de Queiroz, primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, abriu caminhos com a força singular de sua narrativa seca, verdadeira e profundamente humana. Moreira Campos, mestre do conto moderno, elevou o gênero a novos patamares de refinamento. Entre centenas de outros nomes que pontificam nas Letras cearenses, e que estão agora aqui neste recinto. E não podemos esquecer os que, no campo da crítica e da reflexão cultural, também projetaram o nome do Ceará: Renato Braga, que foi presidente desta Assembleia Legislativa; F. S. Nascimento, que foi servidor nesta Casa; Sânzio de Azevedo, Juarez Leitão, Airton Monte, Nilto Maciel. Registro com orgulho os meus conterrâneos de Lavras da Mangabeira, Dimas Macedo, Batista de Lima e Linhares Filho, atual Príncipe dos Poetas Cearenses, entre tantos estudiosos e cronistas que continuam alimentando o pensamento literário nacional, muitos dos quais foram homenageados por esta Casa no Dia da Literatura Cearense.
A literatura cearense, assim, não é apenas parte do Brasil: ela é um dos seus pilares. É força criadora que atravessa séculos, que nasce do sertão, do litoral, das grandes cidades e das pequenas vilas; que une o popular e o erudito; que emociona, inquieta e revela o Brasil ao próprio Brasil. Celebrar essa tradição é celebrar também a vitalidade cultural do nosso povo, sua coragem, sua memória e sua imaginação.
Impõe afirmar, no entanto que, nenhuma celebração da literatura cearense estaria completa sem exaltar um dos movimentos mais singulares e criativos de nossa história cultural: a Padaria Espiritual. Fundada em 1892, em Fortaleza, essa confraria artística transformou a cidade em efervescência intelectual. Ali, figuras como Antonio Sales, Rodolfo Teófilo, Lívio Barreto e vários outros então jovens poetas e ficcionistas, a maioria satiristas e dados à polêmica, se reuniam para “amassar ideias”, misturar humor, crítica social, poesia e modernidade. A Padaria Espiritual foi um gesto ousado de renovação; foi um laboratório de imaginação e liberdade artística. Nos seus “padeiros”, encontramos uma vanguarda brasileira antes mesmo do modernismo.
Hoje, ao celebrarmos o Dia da Literatura Cearense, não homenageamos apenas obras ou nomes, mas a força criadora que cada escritor, poeta, pesquisador e artista representa atualmente, guardiões da memória, intérpretes da alma cearense e construtores de pontes entre o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro.
Que a literatura cearense continue iluminando o Brasil.
Heitor Férrer é médico e deputado estadual