Com o título “Por mais felicitância, por menos explosões mentais”, eis a crônica de Ana Márcia Diógenes, jornalista e escritora, para este Domingo de Páscoa.
Confira:
Não deixo de me surpreender. Se não me incomodasse, estaria padecendo do mesmo mal que acomete os que passam anestesiados pelo cotidiano. Observo o dia a dia com olhos de quem busca o que é felicitante, mas com a certeza de que emoções negativas também transitam entre nós. Busco trazer nestas crônicas os dois lados de quem somos, e me situo na torcida de que a balança penda para o bem.
Estava em um carro, como passageira, e acabei vivenciando momentos de tensão. O motorista dobrou em uma rua de mão única, mas olhou muito rapidamente. Não percebeu que vinha um carro. O semáforo nos colocou lado a lado. O condutor do outro carro baixou o vidro e disse vários palavrões conosco. Do veículo onde eu estava, saíram pedidos de desculpas, mas estas não arrefeceram a ira.
Duas quadras à frente, o motorista irritado freou bruscamente no meio da rua, forçando que também parássemos. Em seguida, ficou ziguezagueando à nossa frente. Por total impossibilidade de tentarmos a direita ou à esquerda para sairmos daquela situação de tensão, ficamos aguardando. Parecendo aliviado, ele dobrou, fazendo barulho nos pneus. Seguiu o caminho dele e continuamos o nosso.
Além de conversarmos sobre a importância de se evitar o erro cometido pelo carro onde eu era passageira, o que ficou no ar foi como a vida da gente pode mudar em apenas um segundo, dependendo de como está a mente das pessoas envolvidas em um desgaste. E se aquele homem estivesse armado? E se fosse uma motorista e não um homem dirigindo o carro onde eu estava?
Vimos que a questão não é restrita a quem errou inicialmente, até porque houve um pedido de desculpas. O ponto que nos deixou refletindo foi como se encontram estourados os limites mentais dos impulsos de tantas pessoas. É preciso muito equilíbrio de quem percebe essas alterações para que o pior seja evitado.
Os cidadãos explosivos estão por toda parte e cabe a quem valoriza sua vida e a do outro, desarmá-los com paciência, argumento, e o deixar o tempo passar. Eu defendo a felicitância, e você?
Ana Márcia Diógenes
Jornalista e escritora.