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Proposta de redação do Enem decepcionou

 

No final da década de 90, começaram a surgir as primeiras pesquisas quantitativas sobre as universidades públicas no Brasil após o regime militar. O que existia antes era o trabalho abnegado de pesquisadores e pesquisadoras, mas nada com política pública. Ali, as universidades se viram como frequentadas por estudantes brancos, homens, de classe média-alta. Me recordo do impacto. Eu era professor de pré-vestibular e várias universidades fizeram um pacto pela “modernização forçada” dos parâmetros do ensino. Sabedores que o neoliberalismo vinha descascando a educação brasileira e trocando conteúdo por “eficiência”, muitas universidades passaram a usar os vestibulares com o ativo propósito de incitar discussões e forçar as escolas, públicas e privadas, a atualizarem seus currículos.

O resultado eram provas atualizadas em conteúdo e distanciadas das realidades cognitivas dos alunos. Perdi as contas de quantas vezes nos impactamos pela atualidade e correção de uma questão de História e, ao mesmo tempo, percebíamos que ou o conteúdo, ou a abordagem estava muito distante do que era a capacidade média dos alunos. Isso se dava por uma desconexão entre quem fazia a prova e quem estava dando aula.

Voltando para a questão do Enem 2023, precisamos dizer que o Enem não é o farol que guia o pensamento social brasileiro no século XXI. Também não é do Enem a função de determinar o nível requerido de conteúdos aprendidos para a sociedade brasileira. O Enem é uma avaliação e, como tal, precisa ligar de forma sistêmica e coerente três variáveis: o conhecimento médio dos alunos (públicos e privados), os objetivos da linha de avaliação de conteúdos expostos em lei, e a necessidade de segmentação daqueles alunos e alunas que fazem a prova. Em suma, separar o joio do trigo.

Quase quatro milhões de pessoas estavam inscritas para fazer a prova do Enem, que teve 28% de abstenção. Assim, você tem 3 milhões de pessoas que estão concorrendo a cerca de 50 mil vagas (SISU 2023/2). A prova tem 180 questões que valem, ao total, 1000 pontos, sendo que o valor de cada questão varia com a chamada TRI (teoria da resposta do item) que é para lá de questionável. A redação, portanto, tem peso de metade da prova. Não é pouca coisa, não.

O tema de 2023 foi “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado das mulheres no Brasil”. É praxe, no Enem, pedir reflexões para problemas sociais como o papel do “trabalho na dignidade humana” (2010), “publicidade infantil no Brasil” (2014) ou “caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil” (2016). O centro de articulação desses temas são conceitos com um nível de produção científica alta sobre eles. “Trabalho”, “publicidade infantil” e “intolerância religiosa”, fazem parte da vida cognitiva dos alunos. Abaixo deixo uma tabela com todos os temas desde 2010 para que o leitor possa efetivamente perceber que na imensa maioria dos temas, o centro referencial e informacional era algo próximo do cotidiano dos alunos.

2022 – Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil

2021 – Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil

2020 – O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira;

2019 – Democratização do acesso ao cinema no Brasil;

2018 – Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet;

2017 – Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil;

2016 – Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil;

2015 – A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira;

2014 – Publicidade infantil em questão no Brasil;

2013 – Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil;

2012 – Movimento imigratório para o Brasil no século XXI;

2011 – Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado;

2010 – O trabalho na construção da dignidade humana;

Excetuando-se os anos de 2013 e 2017, em que os temas eram um pouco distantes das vivências dos alunos no Brasil, todos os outros anos o Enem resgatava o conhecimento do aluno como ponto de partida para analisar uma questão atinente ao coletivo. A partir daí ele ABRIA o sentido da discussão.

Vejamos, por exemplo, o tema de 2022: “Desafios para valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil”. O tema foi abrindo. Se o Enem tivesse falado em “povos originários” e a questão se restringiria. Ao falar em “povos tradicionais” permitiu que tanto quem discursasse sobre povos indígenas (usando o termo descuidado mesmo) ou quilombolas, quanto quem falasse nos pescadores, catingueiros e extrativistas. Veja que o caminho da prova foi valorizar o conhecimento original do aluno e propor uma reflexão ampla sobre questões importantes. E os “textos de suporte” apresentados na prova deixavam isso bem claro!!

O que aconteceu em 2023 foi, infelizmente, o contrário. Primeiro que o tema do Enem não foi a precarização do trabalho, ou a questão de gênero, mas a ideia da invisibilização. Vi muita gente comemorando o tema que seria muito bem-vindo não fosse a complexidade da abordagem. Não bastava ao aluno saber o que é “economia do cuidado”, um termo que não é comum no Brasil, tendo sua abordagem crescido muito durante a pandemia. Também não bastava o aluno saber que na atualidade esses trabalhos são realizados por mulheres. Não bastava o aluno reconhecer a precarização ou o efeito da questão de gênero, era necessário que ele refletisse sobre as causas da “invisibilidade” disso.

Daí que tocar em “invisibilidade” é falar de uma família de fenômenos sociológicos de naturalização que envolvem falar sobre, invisibilização, sacralização, criminalização e tutoria. Formas que, ao longo da história foram utilizados para literalmente esconder fenômenos sociais ou grupos sociais inteiros. Mas, ao aluno de 16 e 17 anos não bastava saber disso. Era preciso dar uma relação de causa e consequência. E é aí que, penso, o Enem perdeu a mão. Quanto mais fechado é o tema menor é sua capacidade de ser compreendido e de se articular algo. Diferentemente dos outros anos em que o tema central foi sendo ampliado para aceitar saberes dos alunos como pontos de partida, no tema de 2023 ele fez o caminho contrário. Era preciso saber sobre invisibilização, sobre economia do cuidado, sobre questões de gênero e ainda oferecer soluções sobre isso para o contexto brasileiro. São quatro ou cinco camadas de complexidade e de especialização para se falar sobre o tema. O que, me parece, vai deixar uma enorme parcela dos candidatos fora da condição de responder a questão.

Não adianta um tema ser bom, ser importante ou estar alinhado com uma necessidade social reconhecida. A forma da abordagem e da exigência deste tema faz toda a diferença. Encadear 3 ou 4 círculos de especificidades não aumenta as chances dos alunos, atrapalha.

Uma redação é sempre uma “dança” entre quem escreve e quem lê, que no caso dá a nota. É possível que o nível de correção seja mais “frouxa” e se aceite redações que falam sobre “feminismo”, por exemplo? É, mas isso é errado. O tema é a invisibilização de um tipo específico de trabalho (ou trabalhos). Quem é militante, tem formação na área ou tem a “pauta de costumes” como centro do seu pensar se sairá bem. A imensa massa de estudantes que não estão nestes espaços terá enorme dificuldade, a começar por entender o termo “trabalho de cuidado” que nem mesmo na academia já existe consenso sobre. Temo que o processo de correção seja muito díspar a partir das realidades dos territórios brasileiros. E isso já mostra por que razão o Enem não deve cumprir a meta de avaliar alunos e alunas com esse tema, este ano.

No fim, me parece, voltamos ao romantismo do final dos anos 90, em que, por conta dos movimentos de deterioração da educação provocados conscientemente pelo MEC neoliberal da época, universidades decidiram agir. Seria a complexidade desta proposta de redação um aviso contra os “itinerários formativos” doidivanos do Novo Ensino Médio? Não sei. Só sei que sem excelentes profissionais da área de sociologia, tempo de aula e maturidade cognitiva, neste ano, o aluno e a aluna terão dificuldades com a redação. Isso se o objetivo era AVALIAR, claro.

Fernando Horta é historiador

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