“O que estava adormecido, o discurso nacionalista, de repente, é despertado por Donald Trump”, aponta o jornalista César Fonseca.
Confira:
A unidade nacional em torno do presidente Lula no Congresso para reagir de forma uníssona contra as medidas protecionistas do presidente Donald Trump cria novo ambiente político que terá repercussões na sucessão presidencial de 2026.
As forças políticas, de esquerda, direita e centro, articulam-se para agir com uma só voz para se protegerem das investidas trumpistas contra a economia nacional, ao atingir as classes produtivas e consequentemente as elites que a representam no parlamento.
As divisões políticas e partidárias, nesse momento, diante do interesse nacional em causa, ameaçado por fatores externos, tendem, momentaneamente, num primeiro momento, a ser superadas pela necessidade maior de cerrar fileiras contra o inimigo externo que ameaça a estabilidade econômica e social.
Nesse sentido, a unidade nacional contra o protecionismo trumpista cria fato político que põe em marcha defesa do interesse comum de todas as classes sociais, ameaçadas de desagregação pela investida externa da nova estratégia nacionalista imperialista americana, com repercussão global.
Explica esse comportamento tendente à unidade a rápida aprovação do projeto de lei nº 2088/2023, no Senado, por 16 votos, na Comissão de Assuntos Econômicos, de caráter terminativo que busca formação de frente de interesses, tanto do capital como do trabalho, na batalha antiprotecionista nacionalista.
O que estava adormecido, o discurso nacionalista, de repente, é despertado por Donald Trump, quando as correntes políticas, que até agora estavam em choque ideológico, deixam de lado suas diferenças para marchar juntas com o presidente Lula visando o interesse nacional.
As contradições político-partidárias caem por terra, circunstancialmente, provisoriamente, diante das novas condições externas que ameaçam tanto a infraestrutura econômica como a superestrutura jurídica, onde o assunto ganha velocidade no Congresso Nacional.
O projeto aprovado por unanimidade, no Senado, sem precisar de ir a plenário, dirige-se, agora, à Câmara, onde, certamente, ganhará celeridade semelhante por parte dos deputados.
Afinal, as classes produtivas, que dão sinal do seu poder dominante, ameaçado pelo trumpismo nacionalista imperialista, sentiram o soar do alarme perigoso para sua sobrevivência.
Da mesma forma, as classes trabalhadoras, representadas por uma esquerda minoritária no parlamento, rendida ao semipresidencialismo pragmático e inconstitucional, que sufoca o presidencialismo constitucional, já estão sendo convocadas, pela nova realidade contingente, a um novo pacto econômico e social, capitaneado pelo presidente Lula.
Vão todos de roldão num mesmo barco confundindo interesses antagônicos em nome do nacionalismo redivivo.
SAI NEOLIBERALISMO, ENTRA NACIONALISMO
Atuar em torno do chefe da nação, nessa hora capital, torna-se imperativo categórico.
Evidencia-se composição política de classes sociais divergentes, politicamente, para garantir, no discurso, a sobrevivência do capitalismo brasileiro, estruturalmente, dependente das exportações de produtos primários e semielaborados, isentas de tributação do ICMS.
A defesa da industrialização, a ser colocada na mesa pelos trabalhadores, ganha a sua hora.
O neonacionalismo imperialista americano, sob Donald Trump, vira ameaça à estrutura produtiva capitalista brasileira, antinacionalista atual, dependente, responsável por conduzir a economia afetada por profunda desigualdade social.
É nessa hora que os trabalhadores veem a chance histórica de cobrar o preço para se juntar não de forma subjugada à burguesia nacional que historicamente a explora, mas por meio de novo pacto político que caberá a Lula conduzir, combinando interesses conflitantes.
Como de vezes anteriores, o motor das mudanças internas, no capitalismo tupiniquim, é dado pelas contradições externas.
Elas atuam negando a estrutura até agora seguida pelo imperialismo americano com sua moeda forte a extrair riqueza das periferias capitalistas por meio de estratégias econômicas neoliberais que aprofundam desigualdades sociais.
Essencialmente, o protecionismo trumpista visa não mais a sustentação de moeda forte, como vem ocorrendo desde a segunda guerra mundial, em que Washington sustentou déficits comerciais com seus aliados para garantir-lhes sobrevivência por meio de exportações para a América por meio de moeda desvalorizada.
NOVO JOGO IMPERIALISTA
Essa estratégia sustentada pelo superávit financeiro capaz de bancar déficits comerciais chegou ao fim, com Trump, porque acelerou a desindustrialização americana e produziu dívida pública na casa dos 37 trilhões de dólares, situação não mais suportáveis pela sociedade americana que se empobrece aceleradamente.
Trump quer colocar em prática o oposto: trabalhar com superávit comercial encarecendo os produtos dos concorrentes, para abrir mercado nos seus espaços econômicos.
A estratégia trumpista, portanto, é a de ter moeda desvalorizada para que a indústria americana se torne mais competitiva e busque escapar da derrota comercial relativamente à China.
Os chineses, que não caíram no conto do vigário do neoliberalismo americano, trabalham com moeda desvalorizada pela força da ação conjugada de Estado forte, bancos públicos, intervenção econômica e organização política coordenada pelo Partido Comunista.
Soberania chinesa para o mundo entender a força da China.
O que acontecerá, então, com os países capitalistas aliados dos Estados Unidos que até agora aceitaram o jogo americano, submetendo-se às regras de Washington, às quais os chineses nunca aceitaram?
TRIPÉ ECONÔMICO AMEAÇADO
Terão ou não de resistir ao modelo neoliberal – câmbio flutuante, metas inflacionárias e superávits primários – que não deixa suas economias crescerem sustentavelmente?
Aceitarão continuar esvaziando o poder estatal, como vem acontecendo, no Brasil, desde o golpe neoliberal de 2016, que tirou do poder o nacionalismo econômico, para colocar em seu lugar o neoliberalismo antinacionalista?
Novo horizonte econômico se abre diante do protecionismo imperialista, que ameaça as classes dominantes que estão conformadas com o tripé econômico neoliberal que deixa de ser funcional?
As bancadas do agronegócio, dos produtores de minérios, associados à financeirização econômica especulativa, que vive do rentismo e da exportação de commodities, sentem o perigo das novas circunstâncias que os ameaçam.
A superestrutura do Estado nacional, condicionada a uma institucionalidade burguesa que dá sustentação à infraestrutura econômica capitalista totalmente dependente da demanda externa de produtos primários e semielaborados – alimentos, minérios – no cenário do financismo especulativo, entra em crise.
Balançam incontrolavelmente as placas tectônicas anunciando terremotos.
Tudo que era sólido se desmancha no ar.
O mercado financeiro, que está vivendo de ajustes fiscais impostos ao Estado para extrair poupança forçada do orçamento público primário – programas sociais que representam renda disponível para o consumo –, sente o baque.
Os rentistas veem a terra fugir-lhes dos pés, no cenário trumpista protecionista, oposto ao que lhes garantia a estratégia do governo Biden, de apostar na financeirização de forma absoluta, alavancando guerras, garantidas pelo modelo econômico keynesiano, que entra em crise.
É nesse contexto que o Senado e Câmara, sob pressão dos setores primários exportadores, apressam-se em produzir nova legislação de proteção aos seus interesses econômicos, ancorando no discurso não mais de um estado ultraneoliberal, mas nacionalista.
Diante de Trump, não interessa mais à burguesia tupiniquim a estratégia entreguista, antinacionalista, bolsonarista, temerista, pauloguedesiana, voltado aos interesses rentistas.
Para ela, passa ser funcional proteger e ampliar os gastos sociais primários, voltados ao fortalecimento do mercado interno, promotores da industrialização, que puxam a economia com visão nacionalista.
De repente, a burguesia nacional, sempre entreguista, sente que render-se a Trump não é negócio, porque perderá não, apenas, os anéis, mas, também, os dedos.
César Fonseca é Repórter de política e economia, editor do site Independência Sul-Americana