Com o título “Quando a defesa das eleições entra na disputa geopolítica”, eis artigo de Cleyton Monte, professor e cientista político. “As eleições deixaram de ser apenas um evento doméstico. Tornaram-se alvo de disputas narrativas, campanhas de desinformação e estratégias de influência que atravessam fronteiras. A interferência em processos eleitorais, direta ou indireta, converteu-se em instrumento de projeção de poder, capaz de produzir instabilidade política sem a necessidade de qualquer confronto militar”, expõe o articulista.
Confira:
A decisão do governo brasileiro de restringir a concessão de vistos a enviados ligados ao governo Donald Trump, diante da suspeita de possíveis ações voltadas a influenciar o processo eleitoral de 2026, revela uma mudança profunda na dinâmica das democracias contemporâneas. A questão ultrapassa o campo diplomático. O que está em disputa é a própria capacidade de um país proteger a integridade de seu processo eleitoral e exercer plenamente sua soberania.
Durante décadas, a defesa da soberania esteve associada à proteção do território, das fronteiras e dos interesses econômicos nacionais. Hoje, essa concepção tornou-se insuficiente. Em um ambiente global marcado pela circulação instantânea de informações, atuação de plataformas digitais e crescente influência de atores internacionais, preservar a autonomia das instituições democráticas passou a ser um dos principais desafios dos Estados.
As eleições deixaram de ser apenas um evento doméstico. Tornaram-se alvo de disputas narrativas, campanhas de desinformação e estratégias de influência que atravessam fronteiras. A interferência em processos eleitorais, direta ou indireta, converteu-se em instrumento de projeção de poder, capaz de produzir instabilidade política sem a necessidade de qualquer confronto militar.
É nesse contexto que deve ser compreendida a reação brasileira. Não se trata de uma disputa entre governos, tampouco de uma divergência ideológica entre Brasília e Washington. O ponto central é a defesa de um princípio elementar das democracias: cabe exclusivamente aos cidadãos brasileiros decidir, pelo voto, quem governará o país. Qualquer tentativa de influenciar esse processo a partir de interesses externos representa uma tensão com o princípio da autodeterminação dos povos.
Isso não significa transformar o sistema eleitoral em uma instituição imune a críticas. Democracias sólidas se aperfeiçoam por meio do debate público, da transparência e do controle institucional. Mas esse debate deve ocorrer no âmbito da Constituição, das leis e das instituições brasileiras, jamais como resultado de pressões ou estratégias concebidas por governos estrangeiros.
O episódio evidencia uma característica marcante da política internacional contemporânea. A competição entre Estados já não se limita a disputas comerciais, militares ou tecnológicas. Cada vez mais, ela alcança a esfera da informação, da confiança pública e da legitimidade das instituições democráticas. A influência sobre a percepção dos eleitores tornou-se um ativo estratégico da geopolítica.
Por isso, defender a lisura das eleições não significa proteger um governo, um partido ou uma candidatura. Significa preservar um patrimônio coletivo da República: o direito de a sociedade brasileira definir, de forma livre e soberana, os rumos do país. Em um cenário internacional cada vez mais polarizado, defender as instituições democráticas é, acima de tudo, fortalecer a própria soberania nacional.
*Cleyton Monte
Professor e cientista político.