“Quando a nuvem tem CEP, conta de luz … e dono” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é PhD em Informática por Sorbonne. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “Quando a nuvem tem CEP, conta de luz … e dono”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “É nesse ambiente que ganha forma a proposta Datacenters de IA no Ceará: Estratégia para Negociação, Governança e Desenvolvimento Sustentável, resultado do debate promovido pelo Instituto Iracema Digital”, expõe o articulista

Confira:

Durante anos, a Inteligência Artificial (IA) foi apresentada como um fenômeno quase etéreo: linhas de código, algoritmos abstratos, modelos que “aprendem sozinhos”. Uma espécie de magia matemática flutuando acima da realidade material. Essa narrativa, embora sedutora, já não se sustenta. Ela já não dá mais conta da complexidade do presente. A IA contemporânea não vive no ar. Ela se apoia em concreto, fibra ótica, silício, água e megawatts.

Quando deslocamos o debate da IA do plano estritamente algorítmico para o da infraestrutura que sustenta cálculo, armazenamento e conectividade, a “nuvem” que abriga servidores computacionais revela sua natureza mais concreta: um regime sociotécnico ancorado em hardware, energia e território. Datacenters de grande porte deixam de ser apenas instalações técnicas. São artefatos relevantes de política industrial e, ao mesmo tempo, pontos de fricção socioambiental.

Essas infraestruturas demandam volumes significativos de eletricidade, utilizam água de forma contínua, ocupam territórios por vezes estratégicos e “raspam o fundo do pote” de redes de transmissão já bastante exigidas. Esses aspectos não são marginais. Eles ajudam a definir os contornos materiais e institucionais da expansão da IA. São o coração do problema.

Por isso, a dimensão energética não pode mais ser tratada como externalidade tecnológica. Ela constitui o principal vetor de escalabilidade dos sistemas de IA e, ao mesmo tempo, um dos fatores centrais de sua aceitabilidade social e política. Sob a ótica da economia política da infraestrutura, a nuvem é energeticamente situada, territorialmente negociada e politicamente mediada. Cada megawatt alocado carrega escolhas sobre quem paga, quem ganha e quem decide.

No plano nacional, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) estabelece diretrizes relevantes para pesquisa, inovação, formação e adoção da IA no país. No entanto, o desenvolvimento social, tecnológico e econômico não se esgota na presença física de datacenters em território nacional. Muito menos a soberania nacional. Ter máquinas não equivale a governar seus efeitos. Reter valor, orientar usos e governar impactos exige instrumentos institucionais adequados.

A materialidade do PBIA não se limita aos chips e às instalações físicas. Ela se expressa, sobretudo, nos arranjos normativos, nos regimes de energia e dados, nas ecologias de fornecedores e nas práticas de governança que estruturam a distribuição de valor, a assunção de custos e o exercício do poder regulatório. Soberania, nesse contexto, exige mecanismos institucionais capazes de qualificar contrapartidas, regular o acesso a dados, estabelecer padrões verificáveis de transparência e assegurar condições efetivas de auditoria.

É nesse ponto que entra o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (REDATA). Criado para atrair investimentos via incentivos fiscais, o REDATA reacendeu um debate inevitável: como compatibilizar soberania tecnológica, sustentabilidade ambiental e política fiscal? Em um mundo de hiperescala, datacenters deixaram de ser meros ativos privados. Tornaram-se instrumentos de disputa federativa, geopolítica energética e reorganização territorial.

PBIA e REDATA operam em registros distintos… que deveriam ser complementares. O primeiro orienta capacidades nacionais de pesquisa e inovação; o segundo estrutura estímulos à oferta de infraestrutura. A articulação entre ambos explicita um desafio recorrente: alinhar desenvolvimento tecnológico, sustentabilidade e retenção de valor de forma equilibrada e transparente.

É nesse ambiente que ganha forma a proposta Datacenters de IA no Ceará: Estratégia para Negociação, Governança e Desenvolvimento Sustentável, resultado do debate promovido pelo Instituto Iracema Digital. O documento organiza, em dez diretrizes objetivas, um conjunto de orientações para apoiar o Governo do Ceará em diálogo com a academia, entidades representativas e comunidades envolvidas na condução de uma negociação Estado–Mercado mais equitativa, isto é, mais justa diante das assimetrias estruturais que caracterizam a relação entre territórios subnacionais e investidores globais de hiperescala (https://maurooliveira.blog/0-datacenters/).

Articulada por Acrísio Sena, conhecido como o “Deputado da Inovação”, a proposta foi entregue ao Governo do Ceará em 13 de janeiro de 2026, em uma ação coletiva que reuniu universidades (UECE, IFCE), institutos tecnológicos (CENTEC, Bojogá), entidades empresariais (ASSESPRO/SEITAC, CSTIC) e organizações da sociedade civil (AJE, Pirambu Innovation, Movimento EMAUS).

Recebido com entusiasmo pelo chefe da Casa Civil, Chagas Vieira, o documento Datacenters de IA no Ceará foi compreendido não apenas como uma pauta setorial, mas como resposta estratégica a uma externalidade global associada à Inteligência Artificial. Ao reconhecer a janela circunstancial em que o Ceará se encontra, marcada por disponibilidade energética “clean” e outros apetrechos digitais (posição geopolítica favorável, baixa latência com os cabos 16 submarinos, densidade institucional em ciência, tecnologia e inovação) o governo determinou a criação de um Grupo de Trabalho sobre IA (GT-IA) e, posteriormente, aprovou integralmente a proposta.

Mais do que um plano, o documento sinaliza uma inflexão: a transição de uma lógica predominantemente passiva de atração de investimentos para uma estratégia mais ativa de governança da infraestrutura digital, na qual o território deixa de ser apenas suporte físico e passa a atuar como sujeito político na economia da IA.

A aposta é clara: um estado subnacional pode transformar um desafio global, a expansão acelerada da hiperescala, em oportunidade de liderança, desde que estabeleça regras claras, contrapartidas verificáveis e mecanismos de governança exigíveis.

Longe de ser contra a instalação de datacenters, o “caroço da macaúba” é decidir em que termos eles se inserem no território: energia com lastro renovável comprovado, controle do uso de sistemas de contingência com base fóssil, governança de dados sensíveis, contrapartida nos compromissos com formação local, uso racional da água e instrumentos jurídicos que garantam auditagem, previsibilidade e responsabilidade.

Sob a lente da economia política da infraestrutura, isso significa capturar valor territorial em um setor marcado por dependências globais. Sob a ótica dos estudos sociotécnicos, significa inscrever a chegada da IA em regimes locais de energia, água e inovação, reconfigurando, de forma construtiva, a relação entre território, soberania digital e política industrial.

Nesse espírito propositivo, o documento Datacenters de IA no Ceará se ancora em um princípio simples, estruturante e poderoso … um mantra, na verdade:

datacenters representam uma oportunidade relevante de desenvolvimento econômico para o país, desde que acompanhados de contrapartidas sociais efetivas, investimentos locais em ciência, tecnologia e inovação, e respeito rigoroso aos acordos ambientais e territoriais.

A nuvem, afinal, não é neutra. Tem CEP. Tem conta de luz… e exige governança.

*Mauro Oliveira

Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

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