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“Quando a política deixa de ser ideia e vira vingança” – Por Francisco J. Caminha

Francisco J. Caminha foi deputado estadual. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “Quando a política deixa de ser ideia e vira vingança”, eis mais um conto da lavra de Francisco J, Caminha, advogado, escritor e ex-deputado estadual.

Confira:

Minha mãe já me dizia:

– Meu filho, a ignorância nos protege, o problema é que eu já sei demais.

E completava:

– Meu filho, fazer a pergunta é mais importante do que a resposta. Diante dos desafios eu me questiono e não tomo decisões movida por emoções.

Além disso, diante das dificuldades da vida, ela conversava com os próprios pensamentos e interrogava seus sentimentos, sempre a fazer perguntas a si mesma, antes de agir. Ou seja, em muitas situações da nossa vida é melhor não ter conhecimento dos fatos. Eu costumo dizer:

– Quem sabe menos, sofre menos.

Mas o problema é que na vida, principalmente na política chega um momento em que não é mais possível “não saber”. E quando se sabe demais, perde-se o abrigo da inocência.

Vamos trazer essa sabedoria para o campo da nossa política local. Nessa área não me considero leigo, tive a oportunidade de fundar um partido nacional e de exercer quatro mandatos eletivos.

Depois que entendi certas coisas sobre poder, interesse, manipulação, fingimento, ego, medo, amor, ódio e vingança, não gozo mais do benefício da ignorância.

É evidente que no jogo da conquista e da manutenção do poder não tratamos de ideais, mas sim de interesses e são esses que aproximam inimigos afastam os amigos.

Lembro de um amigo, numa reunião política, que resumiu tudo com uma frase simples e brutal:

— Para perder um amigo basta uma coisa: Falar a verdade.

A esposa de um amigo descobriu que ele estava a traindo, e então, o chamou para saber toda verdade, e assim o interpelou:

– Paulo, por favor, fale a verdade, me conte tudo. Quero saber de tudo que aconteceu.

Ele assim respondeu:

– Meu amor, te amo demais, por isso, você não está preparada para ouvir a verdade.

Na política a verdade é ainda mais poderosa e perigosa. Se você fala a verdade perde a eleição e ainda pode perder o bem maior: A confiança. Assim, o jogo da política se organiza através de blefes, dissimulações, traições silenciosas e movimentos calculados.

Há quem diga que palavras não falam, mas movimentos sim. Aprendi com o professor Adelino Maltez da Universidade de Lisboa, que o verdadeiro discurso do político está no intervalo entre as palavras.

Logicamente que na vida os movimentos são em função de dinheiro, poder, sexo, amor, ódio, vingança, influência ou mesmo autorrealização. O poder fascina, corrompe, organiza comportamentos, alimenta o ego e impõe vontades aos liderados.

Dos interesses descritos acima vou destacar um deles, a vingança como motivação para a conquista do poder na disputa nas eleições do Ceará em outubro desse ano.

Vamos começar com uma frase inspiradora atribuída ao escritor francês do século XIX, Alexis de Tocqueville:

​- Em política, a comunhão de ódios é quase sempre a base das amizades.

Para escrever sobre vingança temos que falar de amor e ódio. O amor é seletivo e fica restrito aos íntimos no círculo da família e dos amigos, mas o ódio é expansivo. Ele cria alianças improváveis, transforma adversários em parceiros e constrói pontes onde antes havia muros.

É o velho jargão:

O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Já o ódio impulsionado pelo desejo da vingança extrapola os laços do amor une inimigos por ódio ao inimigo comum.

Agora os novos aliados e os atuais amigos não possuem mais falhas e nem defeitos. E os antigos aliados? Se não as possuem inventa-se da mesma forma que já foi feito com os adversários de outrora.

​No Ceará, o cenário parece desenhado por essa lógica. Não se trata de afinidade, nem de ideologia e nem de respeito.

Trata-se de convergência de ressentimentos. Uma aliança construída menos pelo que se ama e mais pelo que se odeia.

Mas há um detalhe que a história insiste em repetir:

O ódio une rápido e desmancha mais rápido ainda.

Depois da vitória, se vier, começam os conflitos, as disputas internas, a guerra por espaço político. Sabe por quê? Porque os mesmos sentimentos que une para conquistar, não serve aos novos interesses. O ódio e vingança organizam a entrada para a conquistar do poder, mas desorganiza na chegada do poder.

Está evidente que a eleição para governador do estado do Ceará está polarizada assim, o grupo “A” odeia o grupo “B” e vice-versa. E do ódio nasce a vingança.

Como sabemos um significativo grupo político, antes aliado do governo da “esquerda”, rompeu de vez a aliança e foi em busca de união com a “direita”. Essa aliança não está ocorrendo por afinidade, nem amizade, e sim, por comunhão de ódios, como bem pontuou Tocqueville.

​O desgaste natural do poder terá que agora enfrentar uma aliança de ódio fermentada pelo desejo de vingança. Alguém já chegou até dizer:

– Para derrotá-los e pelo projeto eu como até merda e podem mandar meu pote que como prazer.

E é aí que lembro de Alexandre Dumas, em O Conde de Monte Cristo:

— A maior vitória não é punir o inimigo, mas não se tornar igual a ele.

Agora volto à minha mãe. Ela estava certa. A ignorância nos protege, mas não porque nos poupa da verdade, e sim porque nos poupa de nós mesmos.

Quando a gente entende demais o jogo, corre o risco de se tornar parte dele, como justificar o injustificável, odiar com elegância e trair com estratégia.

Talvez o verdadeiro sábio não seja o que sabe tudo, mas o que, mesmo sabendo, escolhe não se contaminar.

E talvez a maior pergunta que minha mãe faria, não seja sobre quem vai vencer a eleição. Mas esta:

– Meu filho, no meio de tudo isso, você ainda sabe quem você é?

*Francisco J. Caminha

Advogado, escritor e ex-deputado estadual.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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