Quando cada dia pode valer por um novo ano – Por Luiz Henrique Campos

Chegamos ao final de mais um ano e, quase por reflexo, somos convidados a fazer balanços. Revemos o que deu certo, o que ficou pelo caminho e o que preferimos nem lembrar. Ao mesmo tempo, projetamos o ano que vem como um território de promessas. Novas metas profissionais, mais cuidado com a saúde, dedicação aos afetos, retomada dos estudos, mudanças de hábitos. O calendário vira, e com ele parece surgir a sensação coletiva de que, agora sim, tudo vai acontecer.

Não há nada de errado nesse ritual. O Ano Novo funciona como uma convenção social que nos oferece uma pausa simbólica, uma espécie de respiro psíquico. Ele organiza expectativas, renova esperanças e cria um marco para reorganizar a vida. Nesse sentido, é até saudável. O problema talvez esteja quando essa convenção deixa de ser um estímulo e passa a ser uma desculpa confortável para adiar o que já sabemos que precisa ser feito.

Vale então a pergunta incômoda, sobre o por que esperar o próximo ano, o próximo mês ou a próxima segunda-feira para começar? Quantos projetos ficam suspensos nesse “depois” indefinido? Ao nos apegarmos demais aos marcos do calendário, corremos o risco de criar uma condição permanente de adiamento, como se a vida real estivesse sempre prestes a começar, mas nunca começasse de fato.

Somos, é verdade, profundamente moldados por convenções. Elas organizam o tempo, os ritos e até os sonhos. Mas também podem nos aprisionar. Quando tudo é empurrado para o futuro, o presente se esvazia. A espera constante pelo momento ideal pode se transformar em um hábito silencioso de não agir, alimentando a ilusão de que amanhã, por algum milagre, tudo se resolverá sozinho.

Talvez nossos desejos, instintos e inquietações sejam justamente o contrário disso. Quem sabe um convite insistente para viver o agora? O universo não fala apenas em datas comemorativas; ele se manifesta no cotidiano, nas vontades que surgem sem aviso, nos sonhos que pedem movimento. Se o Ano Novo pode ser um símbolo de recomeço, que ele seja vivido todos os dias, sempre que tivermos coragem de dar o primeiro passo, pois é preciso não esquecer que o universo conspira, quase sempre, a nosso favor.

Luiz Henrique Campos é jornalista

Luiz Henrique Campos: Formado em jornalismo com especialização em Teoria da Comunicação e da Imagem, ambas pela UFC, trabalhei por mais de 25 anos em redação de jornais, tendo passando por O POVO e Diário do Nordeste, nas editorias de Cidade, Cotidiano, Reportagens Especiais, Politica e Opinião.

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