É possível gostar de literatura e não gostar de política? Para a cientista política Carla Michele Quaresma, a resposta passa por uma constatação simples: talvez não seja possível separar as duas coisas.
É justamente sobre essa relação — muitas vezes ignorada — que conversamos no novo episódio do Cafezim com Literatura, que já está no Youtube.
Política começa muito antes das urnas
Carla Michele Quaresma recupera a origem do conceito de política na Grécia Antiga, a partir do surgimento das polis, as cidades-estados, e lembra que a vida em comunidade pressupõe regras de convivência.
É nesse ponto que ética e política se encontram.
A política, portanto, não deveria ser compreendida apenas como disputa eleitoral, partidos ou mandatos. Ela está relacionada à maneira como organizamos a vida coletiva e às decisões que interferem diretamente no cotidiano da população e isso inclui a cultura.
O Estado moderno, como explica a cientista política, tem entre suas atribuições articular a vida em sociedade e promover condições para o bem-estar social, o que também passa pelo desenvolvimento humano, artístico e cultural.
É aí que o livro entra nessa conversa.

Quem diz “eu gosto de literatura, mas não gosto de política” talvez não esteja percebendo quantas decisões políticas existem por trás de um livro.
Da publicação independente à distribuição, da formação de leitores à existência de bibliotecas, do acesso à escola às políticas públicas para o setor, do preço dos insumos ao valor que chega às mãos do leitor.
A cadeia do livro está atravessada por escolhas políticas.
Durante a entrevista, Carla Michele também aborda a resistência que muitas pessoas desenvolveram em relação à palavra “política”, frequentemente associada a escândalos e corrupção, mas basta olhar para o cotidiano para perceber que as decisões políticas estão presentes em áreas como educação, saúde, transporte, iluminação pública e até nas relações de consumo.
A literatura não está fora desse sistema.
Quanto custa ler no Brasil?
Outro ponto importante da conversa é o mercado editorial e as barreiras econômicas que dificultam o acesso ao livro.
Escritores independentes e grandes editoras são afetados pela carga tributária incidente sobre insumos e vendas, o que repercute no preço final da obra e, consequentemente, no acesso do público.
A formação de leitores também exige políticas públicas contínuas. Na entrevista, a discussão passa pela necessidade de criar condições para que crianças e jovens tenham contato com os livros e desenvolvam o hábito da leitura desde cedo.
Formar leitores não é apenas colocar um livro diante de alguém, mas criar condições para que esse encontro aconteça.
Ler para conquistar autonomia
Em um país marcado por desigualdades sociais, ainda é comum que o investimento em livros seja questionado diante de outras necessidades consideradas mais urgentes, mas a literatura também responde a necessidades humanas fundamentais, ela amplia repertórios, estimula a reflexão e contribui para a autonomia intelectual. Ler pode ser uma forma de compreender o mundo — e, principalmente, de compreender que ele pode ser transformado.
A conversa também recupera Aristóteles e sua Ética a Nicômaco para falar sobre o papel do hábito na formação da excelência moral e intelectual.
Nesse sentido, a leitura precisa fazer parte da rotina e a família tem um papel importante nesse processo.
Quando a escola apresenta o mundo dos livros
Para muitos escritores cearenses, a escola foi o lugar onde a literatura apareceu pela primeira vez de maneira decisiva, nem sempre havia livros em casa. Muitas vezes, foi na biblioteca escolar que um futuro escritor encontrou uma obra capaz de despertar uma paixão que o acompanharia pela vida inteira.
Por isso, o papel do professor e da escola vai muito além da transmissão de conteúdos.
Em tempos de inteligência artificial, essa missão ganha ainda mais relevância. Se máquinas podem realizar tarefas repetitivas, cresce a importância de competências humanas como pensamento crítico, ética, criatividade e capacidade de interpretação.
O professor precisa ser também um mediador capaz de encantar o estudante e transformá-lo em interlocutor da obra.
Não basta mandar ler. É preciso criar o desejo de ler.
Cultura também é uma forma de sobrevivência
A conversa passa ainda pela experiência do isolamento social provocado pela pandemia e pelo papel que a cultura desempenhou para muitas pessoas naquele período.
Livros, música, filmes, arte e outras manifestações culturais ajudaram a atravessar um momento de suspensão da vida cotidiana.
A partir de referências como Nietzsche, em Genealogia da Moral, e do conceito aristotélico de eudaimonia, o episódio questiona uma ideia de felicidade limitada ao consumo e à acumulação material.
Existe outra dimensão da realização humana: aquela relacionada ao conhecimento, à criação, à experiência estética, ao aprendizado e à possibilidade de desenvolver plenamente nossas capacidades.
A literatura participa dessa construção.
E o que o Legislativo tem a ver com isso?
Muito.
A entrevista também explica o funcionamento do Poder Legislativo e chama atenção para uma questão fundamental: quem trabalha com literatura e cultura precisa acompanhar e participar dos espaços onde essas decisões são tomadas.
Câmara dos Deputados, Senado Federal e Assembleias Legislativas têm atribuições relacionadas à elaboração e regulamentação de leis, fiscalização do Executivo e participação na definição das prioridades do orçamento público.
Para o leitor e, especialmente, para quem produz cultura, isso significa que votar não é o ponto final.
É preciso acompanhar os mandatos.
É possível observar posições, propostas, audiências públicas, canais oficiais e debates. E, principalmente, cobrar compromisso com a cultura e com a literatura.
Não existe espaço vazio na política cultural
Talvez uma das reflexões mais importantes da entrevista seja justamente sobre participação.
Quando escritores, leitores, produtores culturais e demais agentes da cadeia do livro deixam de ocupar os espaços de discussão e decisão, esses espaços continuam existindo.
Alguém os ocupará.
A conversa lembra, nesse contexto, as eleições para o Conselho Estadual de Política Cultural do Ceará e reforça a importância da mobilização da categoria.
Não existe vácuo no poder.
Se aqueles que vivem a cultura não participam das decisões sobre ela, outros grupos poderão fazê-lo, inclusive orientados por interesses que não necessariamente correspondem às necessidades de quem produz e consome cultura.
Por isso, ocupar conselhos, fóruns e instâncias participativas também é uma forma de defender a literatura.
Lei Rouanet e o direito de criar
Outro assunto que costuma despertar polêmica aparece na entrevista: a Lei Rouanet e o incentivo privado por meio da renúncia fiscal.
A conversa procura desmistificar preconceitos relacionados ao mecanismo, destacando sua importância para a realização de projetos culturais e sua fiscalização.
Para além da discussão sobre a legislação, existe uma questão maior: como garantir sustentabilidade para quem produz cultura?
O escritor também trabalha.
E o trabalho intelectual demanda tempo, pesquisa, leitura, escrita, revisão e dedicação.
Ao trazer para a conversa o conceito de “ócio criativo”, de Domenico De Masi, o episódio chama atenção justamente para essa dimensão do fazer literário: criar não significa não trabalhar. Ao contrário.
É preciso criar condições para que o trabalho intelectual possa existir.
A literatura cearense continua produzindo
Ao final do episódio, a conversa ganha um tom de celebração.
Depois de falar sobre política, ética, educação, mercado, participação social e políticas culturais, o Cafezim com Literatura volta ao seu ponto de partida: os livros e quem os escreve.
Literatura é pensamento. É formação. É imaginação. É possibilidade de autonomia e também é política.
Porque quando escolhemos o que ler, quando reivindicamos bibliotecas, quando defendemos o acesso ao livro, quando perguntamos quem financia a cultura e quando cobramos dos nossos representantes as políticas públicas para a leitura, estamos participando da construção da sociedade que queremos.
É sobre isso que conversamos nesta semana no Cafezim com Literatura. Para conferir esse papo, acesse o canal no Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=G4cECR-mtKQ
