“Quando todos perdem: o caso Banco Master e a falência silenciosa da autoridade institucional” – Por Alex Araújo

Alex Araújo é economista

O caso do Banco Master já não é apenas um episódio de supervisão financeira. Tornou-se um sintoma de algo mais profundo: a dificuldade do Estado brasileiro em arbitrar conflitos institucionais sem corroer suas próprias bases de autoridade.

O que está em jogo não é apenas a solvência de um banco ou a conduta de um empresário, mas a capacidade do país de preservar a coerência entre técnica, poder e responsabilidade pública.

O que emerge é um quadro inquietante: qualquer que seja o desfecho, ele aponta para uma perda — de confiança, de autonomia institucional ou de previsibilidade regulatória.

Um sistema em tensão permanente

A liquidação do Banco Master foi apresentada pelo Banco Central como um ato inevitável diante de uma crise prolongada de liquidez, práticas incompatíveis com a regulação prudencial e indícios de operações simuladas. Em termos técnicos, o argumento é consistente: ativos sem lastro, engenharia financeira opaca e incapacidade de honrar compromissos.

O problema começa quando esse diagnóstico passa a ser questionado não por novos fatos técnicos, mas por pressões institucionais cruzadas — envolvendo o Judiciário, o Tribunal de Contas da União e forças políticas difusas. A partir daí, o debate deixa de ser sobre solvência e passa a ser sobre poder.

Nesse ponto, o país entra em território instável.

Cenário 1 — O Banco Central acertou, mas a política tenta compensar o dano

Neste cenário, o mais provável tecnicamente, o Banco Central cumpriu sua função: identificou risco sistêmico e atuou antes que o problema se tornasse irreversível. A liquidação teria sido dura, porém necessária.

O problema surge depois.

Pressões políticas passam a buscar algum tipo de compensação indireta — seja por meio do TCU, seja via decisões judiciais que relativizam a gravidade do caso ou questionam o rito da intervenção. Não se trata de restaurar o banco, mas de “corrigir excessos”, preservar reputações ou evitar efeitos colaterais políticos.

Esse movimento é corrosivo porque cria uma nova lógica: erros privados passam a ser amortecidos por soluções públicas informais.

O sinal ao mercado é devastador. Não importa a qualidade da supervisão: decisões técnicas passam a ser negociáveis quando interesses relevantes estão em jogo. O custo disso não aparece imediatamente, mas se manifesta em prêmios de risco mais altos, retração de crédito e desconfiança estrutural.

Cenário 2 — O Banco Central errou, e o erro foi mais profundo do que se admite

Há um cenário ainda mais inquietante: o de que o Banco Central tenha falhado gravemente — não apenas por precipitação, mas por deficiência estrutural de supervisão.

Nesse caso, o problema não é a liquidação em si, mas o fato de que irregularidades dessa magnitude tenham se acumulado por tanto tempo sem reação eficaz. Isso levanta uma pergunta incômoda: trata-se de incapacidade técnica ou de tolerância deliberada?

Se houve complacência, o erro não é pontual; é sistêmico. Revela um regulador que reage tarde, sob pressão, e cuja ação extrema tenta compensar anos de omissão.

O impacto disso é profundo: fragiliza a credibilidade do Banco Central; expõe falhas de governança interna e lança dúvidas sobre a eficácia de todo o aparato de supervisão financeira.

Nesse cenário, o problema não é apenas um banco mal gerido — é um regulador que perdeu o controle do próprio sistema que deveria vigiar.

Cenário 3 — A desorganização institucional como novo normal

O cenário mais preocupante, porém, é aquele em que nenhuma dessas versões se impõe com clareza. Em vez disso, instala-se uma sobreposição caótica de competências, onde cada instituição atua segundo sua própria lógica, sem coordenação nem hierarquia funcional.

O Judiciário revisa decisões técnicas. Órgãos de controle reinterpretam atos regulatórios. O Executivo observa, hesitante. E o mercado tenta adivinhar qual regra ainda vale.

Nesse ambiente, a pergunta deixa de ser “quem está certo” e passa a ser “quem perde autonomia”.

E todos perdem. O Banco Central perde autoridade técnica. O Judiciário assume riscos para os quais não foi desenhado. O TCU politiza sua função de controle. O sistema financeiro perde previsibilidade.

O resultado é uma erosão silenciosa da governança econômica — não por ruptura, mas por desgaste contínuo.

Um país que normaliza o excepcional

O aspecto mais preocupante do caso não é a crise em si, mas a sua naturalização. O Brasil parece cada vez mais confortável em operar sob exceções: decisões provisórias, arranjos improvisados, interpretações flexíveis da norma.

O problema é que sistemas financeiros não sobrevivem à ambiguidade prolongada. Eles dependem de confiança técnica, previsibilidade jurídica e clareza institucional — três ativos que não se recompõem rapidamente uma vez corroídos.

O caso Banco Master não é um acidente isolado. É um teste de maturidade institucional.

Se o país não for capaz de separar técnica de política, supervisão de conveniência e responsabilidade de influência, o custo será difuso, cumulativo e duradouro.

Não haverá um colapso visível — apenas um enfraquecimento progressivo da capacidade de governar o risco. E, quando isso acontece, o sistema não quebra de uma vez. Ele apenas deixa de funcionar quando mais se precisa dele.

Alex Araújo é economista

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