O caso do Banco Master já não é apenas um episódio de supervisão financeira. Tornou-se um sintoma de algo mais profundo: a dificuldade do Estado brasileiro em arbitrar conflitos institucionais sem corroer suas próprias bases de autoridade.
O que está em jogo não é apenas a solvência de um banco ou a conduta de um empresário, mas a capacidade do país de preservar a coerência entre técnica, poder e responsabilidade pública.
O que emerge é um quadro inquietante: qualquer que seja o desfecho, ele aponta para uma perda — de confiança, de autonomia institucional ou de previsibilidade regulatória.
Um sistema em tensão permanente
A liquidação do Banco Master foi apresentada pelo Banco Central como um ato inevitável diante de uma crise prolongada de liquidez, práticas incompatíveis com a regulação prudencial e indícios de operações simuladas. Em termos técnicos, o argumento é consistente: ativos sem lastro, engenharia financeira opaca e incapacidade de honrar compromissos.
O problema começa quando esse diagnóstico passa a ser questionado não por novos fatos técnicos, mas por pressões institucionais cruzadas — envolvendo o Judiciário, o Tribunal de Contas da União e forças políticas difusas. A partir daí, o debate deixa de ser sobre solvência e passa a ser sobre poder.
Nesse ponto, o país entra em território instável.
Cenário 1 — O Banco Central acertou, mas a política tenta compensar o dano
Neste cenário, o mais provável tecnicamente, o Banco Central cumpriu sua função: identificou risco sistêmico e atuou antes que o problema se tornasse irreversível. A liquidação teria sido dura, porém necessária.
O problema surge depois.
Pressões políticas passam a buscar algum tipo de compensação indireta — seja por meio do TCU, seja via decisões judiciais que relativizam a gravidade do caso ou questionam o rito da intervenção. Não se trata de restaurar o banco, mas de “corrigir excessos”, preservar reputações ou evitar efeitos colaterais políticos.
Esse movimento é corrosivo porque cria uma nova lógica: erros privados passam a ser amortecidos por soluções públicas informais.
O sinal ao mercado é devastador. Não importa a qualidade da supervisão: decisões técnicas passam a ser negociáveis quando interesses relevantes estão em jogo. O custo disso não aparece imediatamente, mas se manifesta em prêmios de risco mais altos, retração de crédito e desconfiança estrutural.
Cenário 2 — O Banco Central errou, e o erro foi mais profundo do que se admite
Há um cenário ainda mais inquietante: o de que o Banco Central tenha falhado gravemente — não apenas por precipitação, mas por deficiência estrutural de supervisão.
Nesse caso, o problema não é a liquidação em si, mas o fato de que irregularidades dessa magnitude tenham se acumulado por tanto tempo sem reação eficaz. Isso levanta uma pergunta incômoda: trata-se de incapacidade técnica ou de tolerância deliberada?
Se houve complacência, o erro não é pontual; é sistêmico. Revela um regulador que reage tarde, sob pressão, e cuja ação extrema tenta compensar anos de omissão.
O impacto disso é profundo: fragiliza a credibilidade do Banco Central; expõe falhas de governança interna e lança dúvidas sobre a eficácia de todo o aparato de supervisão financeira.
Nesse cenário, o problema não é apenas um banco mal gerido — é um regulador que perdeu o controle do próprio sistema que deveria vigiar.
Cenário 3 — A desorganização institucional como novo normal
O cenário mais preocupante, porém, é aquele em que nenhuma dessas versões se impõe com clareza. Em vez disso, instala-se uma sobreposição caótica de competências, onde cada instituição atua segundo sua própria lógica, sem coordenação nem hierarquia funcional.
O Judiciário revisa decisões técnicas. Órgãos de controle reinterpretam atos regulatórios. O Executivo observa, hesitante. E o mercado tenta adivinhar qual regra ainda vale.
Nesse ambiente, a pergunta deixa de ser “quem está certo” e passa a ser “quem perde autonomia”.
E todos perdem. O Banco Central perde autoridade técnica. O Judiciário assume riscos para os quais não foi desenhado. O TCU politiza sua função de controle. O sistema financeiro perde previsibilidade.
O resultado é uma erosão silenciosa da governança econômica — não por ruptura, mas por desgaste contínuo.
Um país que normaliza o excepcional
O aspecto mais preocupante do caso não é a crise em si, mas a sua naturalização. O Brasil parece cada vez mais confortável em operar sob exceções: decisões provisórias, arranjos improvisados, interpretações flexíveis da norma.
O problema é que sistemas financeiros não sobrevivem à ambiguidade prolongada. Eles dependem de confiança técnica, previsibilidade jurídica e clareza institucional — três ativos que não se recompõem rapidamente uma vez corroídos.
O caso Banco Master não é um acidente isolado. É um teste de maturidade institucional.
Se o país não for capaz de separar técnica de política, supervisão de conveniência e responsabilidade de influência, o custo será difuso, cumulativo e duradouro.
Não haverá um colapso visível — apenas um enfraquecimento progressivo da capacidade de governar o risco. E, quando isso acontece, o sistema não quebra de uma vez. Ele apenas deixa de funcionar quando mais se precisa dele.
Alex Araújo é economista