“Muito antes do cristianismo, cobrir-se de cinza já era um gesto universal no Oriente antigo. Representava dor, arrependimento e reconhecimento da dependência diante de Deus”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
Confira:
Todos os anos, após o ruído do Carnaval, a liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana abre um tempo radicalmente diferente em que prevalecem silêncio, interioridade e exame de consciência. A Quarta-feira de Cinzas não é apenas uma data religiosa, mas uma herança cultural que atravessa dois milênios, construída por camadas sucessivas de ensinamento bíblico, disciplina e experiência humana.
Mais do que um gesto simbólico, a guarda desse dia preserva uma memória antiquíssima, qual seja a consciência de que o homem é frágil, mas chamado à conversão.
Muito antes do cristianismo, cobrir-se de cinza já era um gesto universal no Oriente antigo. Representava dor, arrependimento e reconhecimento da dependência diante de Deus.
Na tradição bíblica, essa linguagem aparece repetidamente.
Após a queda do homem, o livro do Gênesis afirma:
“Tu és pó e ao pó voltarás.” (Gn 3,19)
A frase não é apenas um anúncio da morte biológica. É uma definição da condição humana, que é limitada, contingente e incapaz de salvar-se por si mesma.
Os profetas e justos de Israel assumiram esse gesto como oração visível. Jó arrepende-se “no pó e na cinza”; Daniel jejua coberto de cinzas; o rei de Nínive abandona o trono para sentar-se sobre elas.
Séculos depois, o próprio Jesus Cristo menciona esse costume ao falar das cidades impenitentes que deveriam ter feito penitência “em saco e cinza”.
Assim, quando a Igreja impõe cinzas, não cria um símbolo novo, apenas retoma um gesto bíblico da tradição judaica.
Nos primeiros séculos do cristianismo não existia a Quarta-feira de Cinzas como hoje. Existia algo mais severo. Determinados pecados graves, tais como homicídio, apostasia, adultério, colocavam o fiel numa categoria pública de penitentes. Esses cristãos eram apresentados à comunidade, recebiam cinzas sobre a cabeça e permaneciam afastados da Eucaristia durante toda a Quaresma. A reconciliação só acontecia na Quinta-feira Santa. Era a chamada ordem dos penitentes. Depois da paz religiosa concedida pelo imperador Constantino, no século IV, a Igreja percebeu que deveria haver uma mudança de entendimento. Se todos pecam, todos precisam de conversão. A penitência deixou de ser castigo jurídico para tornar-se caminho espiritual universal.
Nascia lentamente o sentido pastoral da Quaresma. Originalmente a Quaresma começava no domingo. Porém havia um problema matemático. A Igreja desejava quarenta dias de jejum, em memória dos quarenta dias de Cristo no deserto. Mas, os domingos não eram dias penitenciais.
Para completar o número simbólico, antecipou-se o início para a quarta-feira anterior.
Entre os séculos VI e X o rito se fixa em Roma, onde há bênção das cinzas, imposição na cabeça e palavras penitenciais. No ano de 1091, o papa Urbano II ordena que toda a Igreja latina observe a prática.
A partir daí a Quarta-feira de Cinzas torna-se universal. A liturgia conserva duas fórmulas possíveis: “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” e “Convertei-vos e crede no Evangelho.” A primeira fala da verdade humana; a segunda fala da possibilidade de mudança. Não há contradição nas duas fórmulas. Reconhecer a própria fragilidade é o primeiro passo para a liberdade interior. A própria cinza possui significado pedagógico, pois é feita tradicionalmente dos ramos abençoados do Domingo de Ramos do ano anterior. O que ontem foi triunfo hoje é pó, lembrando a transitoriedade de toda glória humana.
Durante séculos, a data marcava um rigoroso jejum social: tavernas fechavam cedo, festas cessavam e cidades inteiras mudavam de ritmo. Com as reformas litúrgicas do século XX, a disciplina externa foi suavizada, mas o núcleo permaneceu: jejum, abstinência e caridade.
Num mundo marcado pela exaltação permanente do prazer e da velocidade, o rito mantém surpreendente atualidade. Ele interrompe o calendário civil para introduzir uma pergunta essencial: o que permanece quando o ruído passa? A Quarta-feira de Cinzas atravessou impérios, guerras, reformas e mudanças culturais sem perder o significado fundamental que é o de recordar ao homem sua verdade, para abrir-lhe a esperança. Entre confetes e cinzas, a civilização escolheu preservar ambas as experiências: a festa e a consciência. Talvez por isso o rito continue compreensível mesmo fora do universo religioso, porque ele fala de algo universal.
O homem celebra porque vive. Mas só amadurece quando reconhece que é pó. Mas, apesar disso, chamado à eternidade.
Barros Alves é jornalista e poeta