“Ainda hoje há quem acredite ter recebido uma autoridade sem limites e pense poder usá-la e abusar dela à vontade, mas toda autoridade terá de responder perante Deus pela forma como exerce o poder recebido”.
O alerta é do frei Francesco Patton, nessa Sexta-Feira Santa, no Coliseu com o Papa Leão XIV, que carregou a cruz nas 14 estações, desde quando Pilatos condena Jesus até quando o corpo dEle é colocado no sepulcro.
“O poder de educar para a violência ou para a paz”, “alimentar o desejo de vingança” ou “de reconciliação”, e ainda “o poder de usar a economia para oprimir os povos ou para libertá-los da miséria”, “o poder espezinhar a dignidade humana ou protegê-la”, “o poder de promover e defender a vida ou de rejeitá-la e sufocá-la”, ressaltou padre Patton.
Falta de respeito pela dignidade humana
O abuso de poder é um tema recorrente na Décima Estação: “Jesus é despojado de suas vestes”. Para o franciscano, essa tentativa dos soldados de humilhar e despojar Cristo de sua dignidade humana “se repete continuamente, mesmo em nossos dias”: quando “regimes autoritários” obrigam “prisioneiros a permanecerem seminus”, quando há tortura, ou quando há quem autorize e utilize “formas de perquisição e controle que não respeitam “o ser humano”. É uma ação “praticada pelos estupradores e abusadores, que tratam as vítimas como objetos”, pela “indústria do espetáculo, quando ostenta a nudez para ganhar mais alguns espectadores”, e até mesmo pelo “mundo da informação, quando expõe as pessoas perante a opinião pública”. Mas qualquer um também pode violar a dignidade de uma pessoa quando, com sua “curiosidade”, “não respeita nem a modéstia, nem a intimidade, nem a privacidade”.
As mulheres no caminho da cruz
As mulheres presentes nas horas da Paixão também falam ao homem contemporâneo. Verônica, que “sabe reconhecer” Jesus em sua “beleza desfigurada” (VI Estação), nos exorta a ver Cristo “em cada pessoa condenada pelo preconceito”, “nos pobres privados de sua dignidade”, “nas mulheres vítimas do tráfico humano e da escravidão”, “nas crianças cuja infância foi roubada”. As mulheres de Jerusalém (VIII Estação) recordam todas essas presenças femininas “onde quer que haja sofrimento ou necessidade”: “Nos hospitais e lares de idosos, nas comunidades terapêuticas e acolhedoras, nas casas-família para as crianças frágeis, nos lugares de missão mais remotos abrindo escolas e dispensários, nas zonas de guerra e conflito socorrendo os feridos e consolando os sobreviventes”. Mas neles também podemos identificar aqueles que choram por seus filhos, “levados e presos durante uma manifestação, deportados por políticas desprovidas de compaixão, naufragados em viagens desesperadas de esperança, dizimados em zonas de guerra, aniquilados em campos de extermínio”. As lágrimas deles é preciso ter hoje “para chorar pelos desastres da guerra”, “pelos massacres e genocídios”, “pelo cinismo dos prepotentes”.
Depois, há a mãe, Maria — IV Estação — aquela a quem, aos pés da cruz, Jesus pede “que continue a gerar e a continuar a ser mãe” de todos. O frade menor pede que ela volte seu olhar para “as muitas, muitas mães” que “veem seus filhos presos, torturados, condenados, mortos”, aquelas “acordadas no meio da noite por notícias devastadoras” e aquelas “que velam no hospital por um filho que está morrendo”. Ele implora consolo para “órfãos, especialmente aqueles que ficaram órfãos por causa da guerra”, “migrantes, deslocados internos e refugiados”, aqueles que sofrem tortura e punições injustas, aqueles que “perderam o sentido da vida” e aqueles que morrem sozinhos.
(Blogdoeliomar com Vatican News)