“Quem está divulgando a literatura cearense na internet” – Por Mirelle Costa

Iniciativas digitais ajudam a revelar autores e movimentar a cena literária cearense

Durante muito tempo, o leitor que quisesse acompanhar o que estava sendo escrito no Ceará precisava procurar nas bancas de jornais as páginas culturais dos jornais, em suplementos literários ou nas prateleiras discretas das livrarias. Hoje, parte dessa conversa mudou de endereço. Ela acontece nas redes sociais, em portais independentes e em projetos que nasceram da paixão pelos livros — e que, aos poucos, se tornaram pontos de encontro da cena literária.

São espaços criados por leitores, escritores e mediadores culturais que transformaram o desejo de falar sobre literatura em vitrines para autores, livros e eventos. No Ceará, iniciativas como o LiteraturaBR (@literaturabr), o Estante do Alê (@estantedoale) e a Confraria Literati (@confrarialiterati) mostram que, mesmo diante das dificuldades do mercado editorial, a literatura continua encontrando caminhos para circular.

Um portal que nasceu da necessidade de conversar sobre livros

O primeiro passo do escritor e editor Nathan Matos foi simples e decisivo: criar um lugar para falar sobre aquilo que estava lendo. Assim surgiu o LiteraturaBR, inicialmente um blog pessoal onde ele registrava impressões de leitura.

“Como eu não tinha tantas pessoas ao meu redor para conversar sobre literatura, aquele espaço acabou se tornando uma forma de jogar para o mundo o que eu pensava sobre as narrativas que chegavam até mim”, conta.

Blog do Eliomar
Nathan Matos é editor e escritor

O projeto cresceu. O blog passou a receber poemas, contos, entrevistas e resenhas de outros autores, até se transformar em um portal literário. Ao mesmo tempo, Nathan mergulhava na formação em Letras e começava a entender mais profundamente o funcionamento do mercado editorial.

Dessa trajetória surgiram outros desdobramentos importantes para o cenário literário cearense. Primeiro veio a Editora Substânsia, criada com amigos a partir de um projeto quase artesanal de publicação de livros. Depois, a Editora Moinhos. Paralelamente, o LiteraturaBR expandiu sua atuação para o Instagram, que hoje tem mais de onze mil seguidores, para o YouTube e para um podcast dedicado à literatura e ao mercado do livro.

Para Nathan, iniciativas digitais têm desempenhado um papel cada vez mais relevante na divulgação da literatura, especialmente da produção independente.

“A literatura nacional passou a ser mais vista, mas ainda precisamos ampliar o olhar”, observa. Segundo ele, grande parte da produção literária brasileira acontece fora das grandes editoras e precisa desses espaços alternativos para alcançar os leitores.

“É preciso sempre ampliar o olhar e compreender que o mercado brasileiro não é feito apenas por Companhia das Letras, Record, Todavia, Intrínseca, etc. Ler é ampliar o conhecimento, a visão de mundo, é saber que existem Substânsias, Moinhos, Patuás, Mundaréus, entre outras editoras independentes que fomentam muito do que é discutido atualmente. Porque só olhando para o além do conhecido podemos encontrar os novos e as novas escritoras brasileiras. E são os portais de Literatura que ajudam nessa divulgação, são os e as influenciadoras que falam das obras nacionais que saem por independentes. Por isso que deixar de ser editor, pra mim, é quase algo incompreensível. Seja escolhendo os textos que seleciono para o portal LiteraturaBr, seja escolhendo os temas para tratar no podcast, nas redes, seja na escolha dos livros que edito na Moinhos. A literatura precisa estar entre nós e nós atentos à literatura”, desabafa Nathan Mattos.

Quando o leitor vira criador de conteúdo

Se alguns projetos nascem como portais, outros encontram nas redes sociais um território fértil para falar de livros. Foi assim com o jornalista Alexandre de Almeida, criador do perfil Estante do Alê.

O projeto surgiu em 2021, depois que Alexandre encerrou um blog literário anterior. A saudade de compartilhar leituras acabou dando origem ao perfil no Instagram, que hoje soma quatro anos de atividade e tem mais de quatro mil seguidores.

Desde o início, a proposta era simples: falar de livros que nem sempre estão no centro das discussões literárias. “Meu único critério é: chamou minha atenção?”, resume Alexandre, que transita com naturalidade entre quadrinhos, poesia, horror e outros gêneros.

A experiência em jornalismo e marketing ajudou a transformar o perfil em um projeto consistente e com um designer bem atrativo. Com a expansão dos vídeos curtos nas redes sociais, ele adaptou o formato das recomendações e ampliou o alcance do conteúdo.

O que começou como hobby acabou abrindo novos caminhos. Alexandre participou de bienais do livro, mediou conversas literárias e firmou parcerias com editoras. Mais recentemente, criou a Tênue, uma assessoria que busca aproximar influenciadores literários de editoras, autores e marcas do mercado editorial.

“O Instagram – bem como outras redes – já tem um público focado em livros desde seus primórdios, mas é uma das redes sociais que mais movimenta o mercado editorial brasileiro, junto com o TikTok. Quando os vídeos assumiram, quem estava no YouTube ganhou outros canais e quem não gostava do YouTube ficou por aqui mesmo. Criadores de conteúdo tendem a se adaptar ao que está funcionando”, explica Alexandre, do perfil Estante do Alê.

Blog do Eliomar
Alexandre de Almeida // Arquivo pessoal

Um mapa vivo da literatura cearense

Há também iniciativas que funcionam como verdadeiros mapas da cena literária local. É o caso da Confraria Literati, criada pelo escritor Ricardo Kelmer.

O projeto nasceu em 2022, como continuidade de uma série de esforços do autor para dar visibilidade à produção literária do estado. Antes disso, Kelmer já coordenava o Anoitecer de Autógrafos, encontro mensal que reunia autores no Mercado dos Pinhões.

A Confraria Literati surgiu justamente da percepção de que a cena literária cearense precisava de um espaço capaz de divulgar livros, eventos e profissionais ligados ao universo da escrita. O Instagram se mostrou a ferramenta ideal para isso.

Ali são anunciados lançamentos, cursos, palestras, grupos de leitura e encontros literários. Em pouco tempo, a página passou a reunir uma comunidade ativa de leitores, escritores e agentes culturais e hoje possui mais de três mil seguidores no Instagram.

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Ricardo Kelmer é escritor

Para Kelmer, a produção literária do Ceará é muito mais ampla do que aquilo que costuma aparecer nas vitrines tradicionais. “Há centenas de autores produzindo livros e textos de qualidade. Toda semana surgem novos talentos”, afirma.

Segundo ele, grande parte dessa produção acontece em circuitos independentes — em saraus, coletâneas, eventos culturais e pequenas tiragens de livros. “Sem esses autores, a cena literária seria um deserto”, diz.

Desde outubro de 2025, Ricardo Kelmer tem uma parceria com o restaurante Cantinho do Frango. “É um restaurante que não tem interesse apenas em vender comida e bebida, mas valoriza bastante a cultura local, além de ter destacada atuação em questões sociais e ambientais. O Cantinho é o nosso espaço oficial em Fortaleza para lançamentos de livros, pela estrutura e atendimento ao autor. Evidentemente, cada autor tem suas preferências e sabe quais espaços melhor se encaixam em suas necessidades e na conveniência de seu público. Eu, particularmente, faço questão de lançar lá meus livros. E participo da feira de artesanato que ocorre lá mensalmente, coordenando o estande de literatura cearense”, explica o responsável pela @confrarialiterati, no Instagram.

A literatura continua encontrando caminhos

O que une projetos tão diferentes é o mesmo impulso: manter a literatura em movimento.

Entre resenhas, agendas culturais, recomendações de leitura e encontros entre autores e leitores, esses projetos ajudam a construir algo essencial para qualquer cena literária: uma comunidade que lê, escreve e conversa sobre livros.

E enquanto houver gente disposta a abrir esses espaços — físicos ou digitais — a literatura continuará encontrando maneiras de existir, circular e resistir.

Vamos seguir todos esses perfis no Instagram?

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