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“Quem poderá comprar o futuro?” – Por Machidovel Trigueiro Filho

Machidovel Trigueiro Filho preside a Comissão de Data Centers e Cidades Inteligentes da OAB-CE. Foto: Divulgação,

Com o título “Quem poderá comprar o futuro?”, eis artigo de Machidovel Trigueiro Filho, professor titular de Direito Digital da Faculdade de Direito da UFC, secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia (CE), presidente da Comissão de Data Centers e Cidades Inteligentes da OAB-CE. “A inteligência artificial poderá multiplicar a oferta e, ainda assim, restringir o acesso à prosperidade. O desafio central será ligar produtividade a renda, confiança e participação social”, expõe o articulista.

Confira:

Um grande data center pode executar bilhões de operações sem necessariamente abrir oportunidades para a comunidade ao redor. Dentro do complexo, modelos avançados processam dados, geram códigos e aceleram decisões; fora dele, a vida econômica continua dependente de salário, crédito, educação e serviços públicos. Essa distância entre potência computacional e participação social contém a pergunta decisiva da inteligência artificial: quem terá condições de usufruir a riqueza que as máquinas ajudarão a produzir?

O conflito central da automação não opõe simplesmente seres humanos e tecnologia. Ele surge quando a capacidade de produzir cresce mais depressa do que os mecanismos de acesso ao que foi produzido. Uma economia pode tornar bens e serviços abundantes e, ao mesmo tempo, conservar renda, infraestrutura e oportunidades nas mãos de poucos. Nesse cenário, o problema já não seria apenas superprodução. Seria uma crise de acesso à abundância.

Dois movimentos já apontam nessa direção. O AI Index da Universidade de Stanford registrou que, entre novembro de 2022 e outubro de 2024, o custo de utilizar um sistema com desempenho semelhante ao GPT-3.5 caiu mais de 280 vezes. Ao mesmo tempo, a Agência Internacional de Energia estima que o consumo mundial de eletricidade pelos data centers poderá quase duplicar de 2025 a 2030, aproximando-se de 950 terawatts- hora. A capacidade digital barateia rapidamente; a base física necessária para sustentá-la exige investimentos cada vez maiores.

No mercado de trabalho, o quadro também pede equilíbrio. A Organização Internacional do Trabalho aponta que cerca de 25% do emprego mundial está em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa, mas considera mais provável a transformação das tarefas do que a eliminação integral dos postos. Isso afasta a previsão simplista de desemprego universal. Não afasta o risco de uma travessia desigual, em que determinadas funções percam valor antes que novas competências e fontes de renda estejam disponíveis.

Para uma empresa, substituir atividades por sistemas inteligentes pode ser uma decisão perfeitamente racional. Custos diminuem, prazos encurtam e a produção aumenta. Quando o mesmo movimento se espalha por milhares de empresas, contudo, o salário retirado da folha também pode desaparecer do comércio, da moradia e dos serviços. A máquina substitui uma tarefa, mas não substitui a função econômica da renda. Eficiência empresarial não cria, por si só, demanda social.

Essa questão ultrapassa o contracheque. O trabalho organiza rotinas, produz reconhecimento, cria vínculos e oferece uma forma de participação na vida coletiva. Reduzir jornadas por causa do aumento da produtividade pode ser uma conquista civilizatória. Tornar pessoas economicamente dispensáveis, sem lhes assegurar segurança material e novas formas de pertencimento, é algo muito diferente. A
liberdade de trabalhar menos somente existirá quando não significar o medo de viver com menos.

O argumento otimista merece consideração. Teares, tratores, computadores e caixas eletrônicos eliminaram tarefas, criaram profissões e ampliaram a riqueza. Não existe lei histórica segundo a qual toda automação termine em empobrecimento. A cautela atual decorre de três características combinadas: velocidade de difusão, alcance sobre atividades cognitivas e concentração de dados, chips e capacidade computacional em poucas organizações. O passado oferece referências, mas não fornece uma garantia automática para o futuro.

Há, além disso, um excesso que já deixou o terreno das hipóteses. Textos, imagens, vozes, vídeos e programas podem ser gerados em quantidade quase ilimitada e a custo decrescente. A informação bruta se multiplica, enquanto o tempo humano para examiná-la permanece finito. Produzimos mais mensagens do que conseguimos compreender e mais respostas do que somos capazes de avaliar com boas perguntas.

Nesse ambiente, atenção e confiança adquirem valor econômico. Nenhum servidor acrescenta horas ao dia de uma pessoa. A confiança, por sua vez, depende de procedência, contexto e responsabilidade. A OCDE advertiu que a inteligência artificial generativa reduz custos e barreiras para a criação de falsificações convincentes e redes artificiais de perfis. Quanto mais fácil se torna fabricar uma aparência, mais importante se torna demonstrar sua origem.

A inteligência artificial pode baratear uma resposta e encarecer a tarefa de saber se ela merece crédito. Jornalismo, Justiça, ciência, empresas e governos precisarão investir mais em autenticação, perícia, rastreabilidade e reputação institucional. Uma sociedade cercada de conteúdo não é necessariamente uma sociedade bem informada. Sem mecanismos confiáveis de verificação, o aumento da oferta pode produzir cansaço, suspeita e fragmentação da própria realidade comum.

As previsões mais entusiasmadas tratam essa transformação como o início de uma era posterior à escassez. Em conversa com a editora-chefe do The Economist, Zanny Minton Beddoes, divulgada em julho de 2026, Elon Musk sugeriu que o dinheiro poderia perder relevância até 2036 e descreveu um horizonte de abundância extraordinária. A promessa é fascinante: inteligência acessível, produção ampliada e seres humanos progressivamente libertados da necessidade.

Mas a inteligência artificial não suspende os limites da matéria. Modelos dependem de eletricidade, terrenos, cabos, subestações, chips, sistemas de resfriamento e cadeias industriais complexas. Em muitos projetos, dependem também de água e de equipamentos elétricos cuja fabricação não acompanha a velocidade do software. O serviço parece virtual na interface, mas é territorial em seus custos, impactos e
necessidades.

Por essa razão, reduzir o preço da inteligência computacional não torna gratuitos recursos que a viabilizam. Energia firme, transformadores, semicondutores avançados, conectividade e áreas adequadas continuam sujeitos a disputa, demora de implantação e controle econômico. O futuro pode ser abundante em capacidade de cálculo e restrito em tudo aquilo que permite mantê-la funcionando. A tecnologia amplia a oferta; somente instituições ampliam o acesso.

O dinheiro também dificilmente perderá a importância enquanto moradia, energia, terra, cuidados humanos e serviços essenciais permanecerem disputados. Algum mecanismo continuará definindo prioridades e direitos de uso. Para quem controla modelos, dados e
infraestrutura, a moeda pode parecer menos decisiva. Para quem perdeu o salário, ela pode se tornar ainda mais necessária. Antes de superar o dinheiro, a automação talvez enfraqueça o principal caminho pelo qual ele chega à maioria das pessoas.

Por isso, a propriedade importa tanto quanto a produtividade. Se os meios de automação estiverem excessivamente concentrados, o aumento da riqueza poderá reforçar o poder de poucos sem ampliar, na mesma proporção, a segurança econômica da população. O risco não está em produzir demais, isoladamente, mas em produzir sob uma estrutura que distribui pouco. Uma sociedade tecnicamente  sofisticada ainda pode ser socialmente incapaz de converter eficiência em bem-estar.

Uma crise nascida dessa combinação talvez não se revele em depósitos repletos de mercadorias. Ela poderá aparecer em mercados de trabalho fragilizados, na concentração dos rendimentos, em filas por conexão elétrica, na disputa por infraestrutura e no colapso da confiança pública. Serviços digitais muito baratos poderão conviver com habitação inacessível; sistemas capazes de responder a quase
tudo, com pessoas sem condições materiais de escolher o próprio caminho.

É nesse ponto que 1929 volta a ser relevante. Não como profecia para 2029, quando o crash completará um século, mas como advertência contra a confusão entre expansão produtiva e prosperidade social. A Grande Depressão teve causas múltiplas: especulação alavancada, crédito frágil, desigualdade, colapso bancário, padrão-ouro, contração monetária e graves erros de política econômica. Reduzi-la a fábricas
produzindo demais seria historicamente incorreto.

Ainda assim, o século XX aprendeu que produção em massa precisa encontrar consumidores com renda. Salários, crédito, seguridade social e investimento público ajudaram a completar o circuito econômico. O trabalhador não era apenas um item de custo; sua remuneração sustentava o mercado no qual as empresas vendiam. A lição permanece: aumentar a oferta não resolve a ausência de poder de compra.
John Maynard Keynes percebeu parte do dilema ao escrever, em 1930, “Possibilidades econômicas para nossos netos”. Ele denominou desemprego tecnológico a substituição do trabalho em ritmo superior ao surgimento de novas ocupações e imaginou que, por volta de 2030, jornadas de 15 horas semanais seriam possíveis. Estamos próximos da data sugerida, mas a pergunta decisiva continua aberta: quem se apropriará do tempo liberado pela produtividade e em quais condições poderá vivê-lo?

No Brasil, esse debate alcança o pacto constitucional. A livre iniciativa convive com o valor social do trabalho, e a redução das desigualdades integra os objetivos fundamentais da República. Se a folha salarial perder participação na economia, será preciso repensar o financiamento da proteção social. Se dados produzidos coletivamente contribuírem para sistemas privados altamente lucrativos, será necessário discutir a
parcela de valor que deve retornar à sociedade. Inovação e inclusão não são agendas separadas.

Não existe uma resposta única. As alternativas podem ser organizadas em quatro frentes: repartir parte dos ganhos da automação; ampliar o acesso ao capital e à capacidade computacional; preparar trabalhadores para a transição; e impedir que monopólios capturem os benefícios da redução de custos. Renda básica, jornadas menores, participação acionária, formação permanente, fundos de inovação, tributação e
concorrência são instrumentos possíveis, não soluções mágicas. O desenho deverá combinar eficiência, sustentabilidade fiscal e justiça distributiva.

Para o Ceará, a discussão já possui efeitos concretos. Data centers, cabos de fibra óptica, energia renovável, subestações e grandes áreas industriais podem posicionar o Estado na economia da inteligência. A oportunidade é real, mas a instalação física de empreendimentos não assegura, sozinha, desenvolvimento local. O território oferece energia, conectividade, licenças e estabilidade institucional; precisa também participar das competências, dos negócios e do conhecimento gerados por essa estrutura.

Reciprocidade territorial não significa hostilidade ao investimento. Significa criar mecanismos pelos quais grandes projetos deixem capacidades duradouras: formação profissional, pesquisa aplicada, fornecedores locais, redes compartilhadas, infraestrutura pública de computação, transparência ambiental e apoio a ecossistemas de inovação.

Um empreendimento se integra verdadeiramente ao lugar quando seus efeitos positivos ultrapassam o perímetro da obra.

Isso exige estratégia pública e responsabilidade empresarial. O Ceará não deve limitar sua ambição a fornecer megawatts e áreas industriais. Precisa formar talentos, fortalecer universidades, desenvolver empresas locais e participar dos centros de pesquisa e decisão. Para um jovem de Caucaia, a nova economia só representará progresso se houver caminhos reais para estudar, trabalhar, empreender e inovar dentro dela.

O êxito da inteligência artificial não será medido apenas pela velocidade dos modelos ou pelo tamanho dos data centers. Será medido por nossa capacidade de ligar produtividade a renda, investimento a oportunidade, informação a confiança e infraestrutura a desenvolvimento. Sem essas conexões, o futuro não padecerá de falta de produção, mas de falta de participação. A pergunta, portanto, não é somente o que as máquinas serão capazes de criar. É quantas pessoas terão o direito efetivo de transformar essa criação em prosperidade.

*Machidovel Trigueiro Filho

Professor titular de Direito Digital da Faculdade de Direito da UFC, secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia (CE), presidente da Comissão de Data Centers e Cidades Inteligentes da OAB-CE e autor, entre outros livros, de “Territórios de Inovação: Parques Tecnológicos”.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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