“Recado do céu” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovíítera: o contador de hstórias. Foto: Portal IN

Com o título “Recado do céu”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

(A Vovô Miguel)

Confira:

Aqui no Ceará, chuva não é só água caindo do céu – é coisa que bole com o corpo e com o espírito da gente. Quando o tempo fecha e o vento começa a assobiar notícia, tudo se aquieta num respeito antigo, e a própria vida prende o fôlego à espera do que vem. É nesse instante, entre o medo dos trovões e a esperança de um bom inverno, que o coração escuta o recado do céu.

Ao amanhecer, com relâmpagos riscando o céu e os primeiros estrondos, imaginei o horror de bombas caindo lá de cima – Deus nos livre. Um clarão papocou tão forte que me sacudiu inteiro; quase caí da rede, com o coração disparado.

A chuva vinha grossa, feito cachoeira escorrendo. O céu se fechava num breu danado, rasgado, vez por outra, por claridades que abriam a noite dentro do dia. Cada estrondo estremecia na titela da casa e no silêncio do tutano da gente, como se o mundo ali fora estivesse sendo açoitado sem pena.

Quando os clarões começaram a me encandear naquela escuridão molhada, tratei logo de cobrir os espelhos. Coisa do tempo do bumba, dessas que a gente aprende sem saber direito de onde veio a razão – talvez medo, talvez respeito, talvez só um jeito de assuntar com o invisível.

E, no meio daquela mistura de água e luz, veio-me um pensamento: isso é bem São Pedro abrindo as porteiras do céu para anunciar o dia de São José. Sinal de inverno bom, de terra agradecida, de semente com coragem de brotar. Ou, quem sabe, os anjos arrumando os móveis para alguma festa lá em cima.

Fiquei ali, deitado na rede, já sem susto, escutando a chuva bater no telhado como quem reza. No fundo, a gente sabe: quando o céu fala grosso assim, não é só medo que ele traz – é também promessa. Coisa assentada na minha criação, plantada no imaginário do quengo e aguada pela esperança teimosa da alma.

E foi então que senti, bem no miúdo da titela: longe de ser guerra, era só uma mensagem de paz, chegando serena e firme, para molhar o nosso chão mais fundo – aquele da raiz da alma da gente.

Assim, entre o susto e a esperança, entendo que a chuva vem para molhar a terra e para lembrar que a vida se renova no seu tempo, do jeito dela.

O interior, que tantas vezes parece seco por fora, guarda por dentro uma fé enraizada, dessas que não se apagam. E quando o céu resolve falar mais alto, não é castigo: é aviso de que ainda há promessa no horizonte – e de que o inverno, quando chega, começa primeiro dentro da alma da gente.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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