Com o título “Redes de Drenagem: um assunto inadiável”, eis artigo de Luciano Arruda, diretor de Parcerias Público-Privadas da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece). “É fundamental compreender que drenagem urbana, abastecimento de água e esgotamento sanitário são dimensões interdependentes do saneamento básico. Sistemas de drenagem deficientes comprometem estações de tratamento, redes de esgoto, estruturas de captação e reservatórios”, expõe o articulista
Confira:
As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção científica distante para se tornarem uma realidade cotidiana. Em diversas regiões do Brasil, e particularmente no Nordeste, observa-se com crescente frequência o aumento da intensidade, da duração e da imprevisibilidade dos temporais. Chuvas concentradas em curtos períodos, volumes recordes e eventos extremos passaram a compor o novo cenário climático urbano.
Nesse contexto, a infraestrutura de drenagem urbana emerge como um dos principais desafios para as cidades brasileiras. Historicamente tratada como tema secundário nas políticas públicas, a drenagem precisa, urgentemente, ser reposicionada como eixo central do planejamento urbano e ambiental.
Os sistemas de drenagem existentes foram, em sua maioria, projetados com base em parâmetros climáticos do passado, quando os eventos extremos eram menos frequentes. Hoje, esses sistemas encontram-se sobrecarregados, incapazes de absorver grandes volumes de água em curto intervalo de tempo. O resultado é conhecido: alagamentos recorrentes, prejuízos materiais, interrupção de serviços essenciais, contaminação de corpos hídricos, disseminação de doenças e, em casos mais graves, perda de vidas humanas.
As mudanças climáticas impõem, portanto, uma revisão profunda dos critérios técnicos utilizados na concepção e operação das redes de drenagem.
É fundamental compreender que drenagem urbana, abastecimento de água e esgotamento sanitário são dimensões interdependentes do saneamento básico. Sistemas de drenagem deficientes comprometem estações de tratamento, redes de esgoto, estruturas de captação e reservatórios.
Além disso, alagamentos favorecem a infiltração indevida nas redes de esgoto, aumentam os custos operacionais e reduzem a eficiência dos sistemas. Assim, investir em drenagem é também proteger os investimentos realizados em água e esgoto.
Trata-se, portanto, de uma agenda integrada, que exige planejamento sistêmico e visão de longo prazo.
Outro aspecto central é a relação entre drenagem e ocupação urbana. O crescimento desordenado das cidades, a impermeabilização excessiva do solo e a ocupação de áreas de várzea e encostas agravam significativamente os efeitos das chuvas intensas.
Sem políticas consistentes de ordenamento territorial, qualquer investimento em infraestrutura tende a ser insuficiente. A drenagem moderna precisa dialogar com:
Planos diretores;
Políticas habitacionais;
Projetos de mobilidade;
Preservação ambiental;
Recuperação de áreas verdes.
Soluções baseadas na natureza, como parques lineares, jardins de chuva, reservatórios de retenção e áreas de infiltração, devem ser incorporadas de forma sistemática às cidades.
Diante da magnitude dos investimentos necessários, torna-se evidente que os recursos públicos, isoladamente, são insuficientes para enfrentar esse desafio. Nesse cenário, as Parcerias Público-Privadas e as concessões surgem como instrumentos estratégicos para viabilizar projetos estruturantes de drenagem.
Esses modelos permitem:
Planejamento de longo prazo;
Compartilhamento de riscos;
Adoção de tecnologias modernas;
Garantia de manutenção permanente;
A experiência acumulada no setor de saneamento demonstra que parcerias bem estruturadas, com contratos equilibrados e regulação eficiente, produzem resultados sustentáveis para a sociedade.
Mais do que uma obra de engenharia, a drenagem deve ser compreendida como política pública de resiliência climática. Cidades resilientes são aquelas capazes de absorver impactos, adaptar-se às mudanças e preservar a qualidade de vida de sua população.
Investir em drenagem significa:
Reduzir vulnerabilidades sociais;
Proteger áreas mais pobres e expostas;
Evitar perdas econômicas;
Garantir continuidade dos serviços públicos;
Promover segurança hídrica e ambiental.
É uma política que combina desenvolvimento, justiça social e sustentabilidade.
O enfrentamento das mudanças climáticas exige decisões corajosas no presente. Adiar investimentos em drenagem é transferir riscos e prejuízos para as próximas gerações.
É indispensável que gestores públicos, empresas, sociedade civil e instituições financeiras compreendam que a infraestrutura urbana precisa ser repensada à luz do novo regime climático. Planejar para o passado já não é uma opção.
A drenagem urbana deve ocupar lugar prioritário nas agendas governamentais, nos planos plurianuais e nas estratégias de desenvolvimento.
Trata-se de uma escolha entre reagir permanentemente às tragédias ou antecipar soluções.
O futuro das nossas cidades depende dessa decisão.
*Luciano Arruda
Advogado e diretor de PPPs da Cagece.