“Roberto Cláudio aceita, movido pelos maus conselhos do ressentimento, negar sua própria obra, seu esforço e seus reconhecidos méritos”, aponta o publicitário Ricardo Alcântara
Confira:
No momento em que transcorre outra disputadíssima cartada de segundo turno no país, o ex-prefeito Roberto Cláudio deveria estar ocupado em dois desafios: nas ruas, mobilizando lideranças comunitárias pela reeleição de Lula; nos bastidores, tratando de escalar o time de secretários que iriam compartilhar com ele a tarefa de governar o estado do Ceará.
Seria, se o então filiado do PDT tivesse aceitado o acordo razoável que lhe foi oferecido: ele apoiaria a governadora em exercício, Izolda Cela, como candidata a um mandato regiamente único para o governo (2023/26) e, em contrapartida, teria Roberto Cláudio assegurada a candidatura para a quadra que inicia em 2027 e se estenderia, a princípio, pelo menos até 2030.
Com o messianismo de um nazareno, Roberto disse que não tinha “plano B”: era candidatura em 2022 ou nada. E abriu os braços à crucificação que não teve, como se vê agora, nenhum legado consistente. Imolou-se a troco de nada porque não soube aceitar o tempo da política e sem a verificação serena do peso de cada um dos personagens que dividiam com ele o palco e o enredo.
O resto é história: o bom prefeito disputou a eleição à revelia e colheu o fruto amargo de um terceiro lugar na preferência da cidade que governou com notável aplicação para, agora em 2026, naufragar abraçado a Ciro Gomes, como seu vice, na pior das condições: a meia milha da praia de chegada, numa maratona disputada até os últimos dias em condições de vitória.
Sartre havia dito e a pensata aqui se justifica: o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós. A liberdade de escolha é o que nos permite suportar viver conscientes da própria finitude, mas é também uma sentença: escolha feita, destino traçado. Roberto escolheu o seu e pode se alegrar, caso se considere gratificado com o que está colhendo.
Abro uma aba do portal de notícias e já me informo de que agora o ex-vice de Ciro declarou apoio ao candidato Flávio Bolsonaro na disputa presidencial em segundo turno. Nos alegados motivos, diz: “Vamos crer na possibilidade de um grupo de novas pessoas, de novas ideias surgirem, de uma nova coalizão de forças aparecer”. Em poucas palavras, o termo “Nova” aparece três vezes, anote.
Como isso aqui é um espaço de debate político e não um salão de descarregos psicossomáticos, cabe questionar Roberto Cláudio, já a dez dias do final da campanha eleitoral: O que há de realmente “novo” em tudo que o candidato da extrema-direita declarou ou prometeu fazer?
E mais. Considerando a lealdade canina de Flávio ao legado inexistente de seu pai, e tomando, portanto, a experiência administrativa anterior, e bem recente, do seu clã à frente do Brasil, o que se deu ali com força virtuosa suficiente para levar o ex-prefeito de Fortaleza a cobrir seu apoio ao retorno dos Bolsonaros com as tintas quentes de uma “nova” esperança de renovação?
No caso, Roberto Cláudio aceita, movido pelos maus conselhos do ressentimento, negar sua própria obra, seu esforço e seus reconhecidos méritos: foram esses mesmos novos parças de que se cerca – André Fernandes, Capitão Wagner, Mayra Pinheiro e outros – os que foram para a frente do estádio Presidente Vargas, transformado por ele num acampamento hospitalar de urgência, para levantar suspeitas de que ali, sob o biombo de um socorro público durante uma pandemia, havia uma lavanderia de dinheiro público.
Enfim, de “novo” mesmo, nessa triste crônica, não há nada, senão um compêndio, resumido e atualizado, de tudo aquilo que faz o povo brasileiro ter pela classe política um tão desconcertante mau juízo.
Ricardo Alcântara é escritor e publicitário