“Comunicar a partir da consciência negra é adotar uma postura ética que acolhe as diferenças, constrói pontes e transforma o diálogo em ferramenta de reparação histórica”, aponta o psicólogo Antonio Souza
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Em um país moldado pela diversidade, comunicar é mais do que falar: é reconhecer o outro como portador de história, dignidade e existência. No Brasil, essa reflexão ganha profundidade ao entendermos que a identidade nacional só se tornou possível graças à presença e à contribuição da população negra. A cultura afro-brasileira não é apenas um capítulo da nossa história — é raiz, tronco e fruto de grande parte do que chamamos de brasilidade. Música, religiosidade, estética, linguagem e modos de convivência são marcados por heranças que resistiram ao apagamento e continuam a inspirar formas mais humanas de relação.
Sob a perspectiva da Psicologia Humanista e da Psicologia Positiva, sabemos que vínculos saudáveis florescem quando há escuta, respeito e validação. No campo da comunicação intercultural, esse entendimento revela algo essencial: reconhecer a trajetória do outro é abrir espaço para relações mais verdadeiras e menos violentas. Comunicar a partir da consciência negra é adotar uma postura ética que acolhe as diferenças, constrói pontes e transforma o diálogo em ferramenta de reparação histórica. É admitir que a presença negra no Brasil ultrapassa o aspecto demográfico — ela é intelectual, emocional, espiritual, econômica e cultural, estruturando tudo o que construímos enquanto sociedade.
A comunicação que honra a ancestralidade é um ato político e humano. Ao afirmar “eu vejo você”, reconhecemos legados, dores, resistências e conquistas que moldaram o país. Fazer isso não é concessão: é responsabilidade. Em um contexto onde vozes negras foram silenciadas por séculos, comunicar com consciência significa devolver lugar, memória e protagonismo. A cultura negra nos ensina que comunicar é existir com verdade, amar com profundidade e resistir com coragem. Que possamos, como sociedade, praticar uma comunicação que liberte, una e fortaleça identidades — construindo, enfim, o Brasil justo, plural e digno que merecemos viver.
Antonio Souza é psicólogo, mentor e palestrante