“‘Salto alto’ não faz bem” – Por Valdélio Muniz

Valdélio Muniz é jornalista. Foto: Divulgação

“Mesmo que se disponha, porventura, de qualquer pesquisa eleitoral encomendada, se trata de mero recorte momentâneo, conjuntural, ainda distante quase um ano da ida às urnas”, aponta o jornalista Valdélio Muniz

Confira:

Dizem que excessos verbais são próprios do clima político mais acalorado. Porém, estabelecer limites razoáveis em termos de conteúdo há de ser sempre importante, necessário e recomendável, sobretudo quando já se tem algum tempo de estrada pelos caminhos eleitorais e se tem o dever de ter aprendido com eleições passadas que certas afirmações podem soar arrogantes e produzir efeitos contrários ao que se pretende no momento da verbalização.

Autoconfiança, autoestima, autorreconhecimento ou mesmo a convicção de que se fez (ou faz) uma boa gestão (ou que se tem as melhores propostas para apresentar ao eleitor) não justifica qualquer comemoração antecipada de eleição. Mesmo que se disponha, porventura, de qualquer pesquisa eleitoral encomendada, se trata de mero recorte momentâneo, conjuntural, ainda distante quase um ano da ida às urnas. E, se, de fato, os números se mostram favoráveis, tem-se mais um motivo para não necessitar cantar vitória desde já. Melhor deixar para o outro lado qualquer esperneio ou desespero.

Não precisamos ir tão longe para lembrarmos o quanto é arriscado e precipitado tirar conclusões sobre algo que, a rigor, depende, sim, da manifestação do eleitor, verdadeiro e único árbitro desse jogo. Em 2012, ficou para a história a infeliz manifestação (manchetada em jornal) da então prefeita Luizianne Lins, uma de nossas mais respeitáveis políticas, de que elegeria até um poste como seu sucessor. Não foi o que se viu após a abertura das urnas. Portanto, se já é problemático apostar em vitória antes de o eleitor se manifestar efetivamente nas urnas, pior ainda arriscar (tentar prever) qualquer placar (que se acredite vir a alcançar) ou até mesmo que o pleito se decidirá em 1º turno.

Que fique claro: não se trata de duvidar de eventual conquista (ela pode até se confirmar, ou não!), tampouco se trata de torcer contra. A ideia aqui é apenas chamar atenção para a necessidade de não se render a provocações (isso vale para todos os lados) e, principalmente, de jamais parecer que se tem a pretensão de substituir aquele que é soberano na escolha e alvo da disputa dos candidatos. Sim, a humildade é virtude essencial e a sua ausência pode ser até mesmo negativamente decisiva.

Ter convicção nas boas ações (ou propostas) a apresentar ao eleitor deve ser um motivo a mais para dispensar este tipo de excesso verbal. Elas falarão por si. A necessidade de “parecer” costuma, às vezes, ser um grave deslize ou uma tentativa de suprir a lacuna consciente do “ser”, mas, em política, também pode significar tentar tapar o sol com uma peneira, ou seja, apenas se enganar e não atingir o intento. Ou pior ainda: pode até mesmo ofuscar o que fora verdadeiramente realizado.

Enquanto na vida cotidiana há quem diga que o uso excessivo de salto alto pode sobrecarregar coluna, joelho, quadris e pés, alterar o alinhamento corporal e provocar dores e até mesmo lesões, ouso dizer que, na política, o prejuízo pode ser causado pelo uso de salto alto ainda que somente uma vez. Pior ainda se reiterado indevida e desnecessariamente. Quem tiver motivo para desespero que se entregue a ele, mas sabendo que o salto alto é uma faca de dois gumes.

Feliz 2026 a todos(as)!

Valdélio Muniz
Jornalista. Analista Judiciário. Mestre em Direito. Professor de Direito e Processo do Trabalho. Membro do Grupo de Estudos em Direito do Trabalho (Grupe) da UFC

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email
Mais Notícias