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“Santo Antônio: de capitão a tenente-coronel” – Por Barros Alves

Barros Alves é jornalista e poeta

“E os governantes conhecedores da influência da Igreja sobre os seus súditos, quedavam genuflexos aos caprichos de qualquer padreco. Foi, certamente, o que ocorreu com Dom João VI”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves

Confira:

Em 1989, quando cuidei da Assessoria de Comunicação do município de Maracanaú, terra de Santo Antônio do Pitaguary, por instâncias do prefeito Júlio César Costa Lima, colocamos uma grande e bela imagem do santo na reserva dos pitaguary, onde há mais de 100 anos foi erguida uma ermida em homenagem a Santo Antônio. Em 1997, agora cuidando institucionalmente da área cultural, no segundo mandato de Júlio César, fiz publicar um pequeno ensaio histórico e hagiológico subordinado ao título FESTEJOS JOANINOS E OUTRAS FESTAS JUNINAS. No livrinho inserido está um capítulo sobre um dos mais populares santos da quadra junina. Dele recolho o que segue:

No afã de agradar ao santo os devotos protagonizam fatos hilariantes e esdrúxulos, semelhantes ao praticado pelo Príncipe Regente Dom João VI, que por instâncias de alguns frades, concedeu a Santo Antônio a patente de tenente-coronel, quase seiscentos anos depois do falecimento do santo que foi canonizado apenas um ano após a morte, a 30 de maio de 1232. O episódio serve também para mostrar quão oportunistas eram alguns religiosos em tempos passados, os quais aproveitavam-se desavergonhadamente da boa fé e até ingenuidade das pessoas para meter-lhes a mão no bolso. E os governantes conhecedores da influência da Igreja sobre os seus súditos, quedavam genuflexos aos caprichos de qualquer padreco. Foi, certamente, o que ocorreu com Dom João VI. Eis o que relata a história. A biografia do glorioso taumaturgo Santo Antônio de Lisboa, como soldado português é assim traçada:

“Assentou-lhe praça Dom Afonso VI no Regimento de Infantaria de Lagos, com o intuito de animar o povo a combater contra Castela, de cujo domínio se libertara Portugal em 1640. No mesmo dia em que faleceu Dom Afonso VI, 12 de setembro de 1683, o irmão Dom Pedro II, de Portugal, que nesse dia se apossara definitivamente do trono, como o tinha feito da mulher do seu irmão em 2 de abril de 1668, elevou Santo Antônio ao posto de capitão. Em 1814, Dom João VI estando no Brasil, e a instâncias dos frades de Santo Antônio, da Cidade do Rio de Janeiro, que faziam festas pomposíssimas ao seu milagroso patrono, elevou-o a tenente-coronel, por carta-patente de 31 de agosto de 1814, registrada às fls. 46, do livro 6, de cartas-patentes.

“A carta-patente que promoveu o milagroso santo é do seguinte teor: Dom João, por graça de Deus Príncipe Regente de Portugal e dos Algarves de aquém e de além mar em África, Senhor de Guiné da Conquista, da Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia etc. Faço saber aos que esta minha carta-patente virem, que sendo da minha particular devoção o glorioso Santo Antônio, a quem o povo desta corte incessantemente e com a maior fé dedica os seus votos, e tendo os céus abençoado os esforços dos meus exércitos, com a paz que se dignou a conceder à monarquia portuguesa, crendo eu piamente que a eficaz intercessão do mesmo santo tenha concorrido para tão felizes resultados, hei por bem que se eleve ao posto de tenente-coronel de Infantaria e com ele haverá o respectivo soldo (grifo do autor), que lhe será pago na forma de minhas reais ordens, pelo que o Marechal-de-Campo Ricardo Xavier Cabral da Cunha, na qualidade de ajudante-general e encarregado interinamente do comando das armas desta corte e capitania, assim o cumpra; e o soldo referido se assentará nos livros a que pertence, para lhe ser pago nos seus devidos tempos. Em firmeza do que lhe mandei passar carta, por mim assinada e selada com o selo das minhas armas. Dada nesta Cidade do Rio de Janeiro, aos 31 dias do mês de agosto do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1814. O príncipe em guarda -Gaspar José de Matos Ferreira Lucena José Caetano de Lima”.

Como morto não recebe soldo nem correspondência, mesmo que de um príncipe, claro está que quem embolsava a quantia paga ao tenente-coronel Santo Antônio era os frades da sua Ordem. Vê-se que ontem como hoje existem oportunistas do púlpito e do confessionário, que fazem da religião um negócio a lhes render boa pecúnia. E em todos os tempos, por outro lado, governantes há a se curvarem aos cultos que lhes proporcionem mais popularidade. De permeio, a idolatria a Mamom.

Santo Antônio, por ser grandemente popular, também opera desses milagres. Como, por exemplo, o dobrar vontades de autoridades aos seus piedosos representantes aqui na Terra.

Mas, saindo dos episódios do folclore, que não que dizer que seja uma inverdade como julga o vulgo; ou que seja apenas conteúdo anedótico, segundo o entendimento de não poucos, o fato é que Santo Antônio é um dos mais poderosos ícones do Catolicismo no mundo latino, sobretudo nos países lusófonos. No Brasil, nem se fala! No Nordeste brasileiro só é suplantado na devoção popular por São Francisco de Assis.

Por pertinente, transcrevo mais os excertos que seguem, que constam no meu livrinho:

O escritor Itamar Espíndola cita em seu livro “Três Santos Populares no Ceará”, um responso muito conhecido no interior cearense, oração que muito enleva o espírito dos devotos:

Padre-Nosso pequenino!
Me guiai no bom caminho,
Santo Antônio é meu padrinho,
Nossa senhora é madrinha.

Sete livros a rezar,
Sete anjos a cantar
Quer de noite, quer de dia,
Enquanto eu não me deitar.

Há o famoso “Rosário de Santo Antônio”, há orações para obter a intercessão do santo, com promessa de pão para os pobres; para achar coisas perdidas etc. Em Portugal canta-se popularmente o hino que transcrevemos a seguir, de autor desconhecido:

Bendito louvado seja
O Menino-Deus nascido
Que nos braços de Antônio
Tem seu trono esclarecido.

Coro

Vós, Antônio, merecestes,
Pela vossa santidade,
Sendo um frade dos menores,
Ser maior na divindade.

E também seja louvado
De Antônio, esplêndida luz,
Com Deus-Menino num braço
E no outro a sua cruz.

Esclarecido é Antônio
Pelo seu merecimento.
Sendo um anjo de pureza,
É do céu um ornamento.

Vós Menino que descestes
Do céu, em braços de Antônio,
Livrai-nos com vossa graça
Da tentação do demônio.

Rogai por nós, vós, Antônio,
Àquela divina Luz,
Que nos livre do inferno
Para sempre. Amém, Jesus!

Homenagem das mais belas prestou a Santo Antônio Dom Marcos Barbosa, poeta, um dos intelectuais mais completos entre os que já tomaram assento na Academia Brasileira de Letras. Ele escreveu “Em Louvor de Santo Antônio”, um poema que os devotos do santo não podem deixar de conhecer e memorizar. Leiamo-lo:

Santo Antônio é São Francisco.
São Francisco mais bumano.
Srm chagas nem crucifixo.

Pois o Deus que traz nos braços
é ainda o Deus-Menino
com seus divinos abraços.

Mas, sendo o Verbo Encarnado,
pode sentá-lo no Livro,
verbo escrito e encadernado.

E era o Evangelho vivo
que pregava horas e horas,
mantendo o povo cativo.

Por isso Boaventura
sua língua encontra intacta
ao abrir-lhe a sepultura.

A chuva lhe obedecia:
jamais vinha dispersar
quem ao ar livre o ouvia.

Mas se alguns se recusavam,
levava-os consigo à praia,
onde os peixes o escutavam.

Ajoelhava-se o jumento
como outrora no presépio,
quando erguia o Sacramento.

Morre o rico. Incontinenti
manda buscar-lhe no cofre
o coração ainda quente.

Acusam seu pai de um crime;
ressuscita Antônio o morto,
que da calúnia o redime.

Santo de tantos achados,
faz achar o verdadeiro
entre os falsos namorados.

Sua voz tal modo ecoa,
que ele é visto ao mesmo tempo
pregando em Pádua e Lisboa.

Vivendo em Pádua, é padeiro;
mas os pães de Santo Antônio
se espalham no mundo inteiro.

Palma de um novo martírio,
de Lisboa traz o lis,
que é outro nome de lírio.

Da mais pacata nação,
Antônio, de guerra antônimo,
é tornado capitão.

No Rio, do seu convento,
abençoando a cidade,
estende a mão a São Bento.

Humanizando o santo, reintegrando-o ao convívio dos homens e das alegrias humanas, o povo, conforme explica o folclorista Jaime Cortesão, faz Santo Antônio perder a compostura no altar, para acenar às moças e ir tocaiá-las nas estradas:

Fui andando num caminho
Santo Antônio me chamou:
Quando um santo chama a gente
Que fará o pecador?

Santo Antônio me acenou
De cima do seu altar:
Olha o maroto do santo
Que também quer namorar.

Assim é o ubícuo Santo Antônio de Lisboa, de Pádua, de Barbalha, de Quixeramobim, do Pitaguary e do mundo inteiro.
Santo Antônio,rogai por nós!!!

Barros alves é jornalista e poeta

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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