“É tão cafona resistir, sofrer. A tecnologia está aí e temos que enfrentar mais essa batalha para a colocar a nosso favor”, aponta a jornalista e publicitária Tuty Osório
Confira:
Dizia a minha avó Henriqueta, mãe do meu pai, uma frasista e tanto- só queria ser a metade daquilo que os outros pensam que são. Dizia, também: atrás de mim virá, quem de mim bom fará. Parte dos ditos eram de própria autoria. Parte eram ditados antigos que tinham atravessado décadas. Às vezes séculos. Continuam até hoje. Minha mãe, nora amada como filha, aos 86 trata de os preservar na nossa memória, repetindo-os nas ocasiões adequadas. Não são poucas. As peripécias do trabalho têm levado a um tratado de recursos a essas sábias palavras das ancestrais que nos abençoam. São a salvação da saúde mental, em tempos de Inteligência Artificial valendo muito mais do que gente.
Sem querer me queixar, já me queixando, ando triste com a dificuldade em me situar na louca ciranda dos aplicativos, das ferramentas digitais, do gerenciamento de recursos que nos fazem ganhar um tempo que nem sei se é tempo, de fato. É tão cafona resistir, sofrer. A tecnologia está aí e temos que enfrentar mais essa batalha para a colocar a nosso favor. Esforço não tem faltado. É de família. A minha mãe, a de 86, usa o aplicativo do Banco, do carro e outros mais. Esses tiramos de letra. Há outros que são mais vilões. Continuo na sina de os conquistar como aliados, determinada a conseguir. O meu cérebro, se o perdesse em seu estado cada vez mais ativo, esse, sim, me faria muita falta. A vivência, o conhecimento, a memória sem medida das minhas sagas boas e ruins.
Fiz e faço muitas coisas interessantes, eu penso. Penso mesmo, sem me encostar jamais. Cá entre nós, até que gosto dessa parada de eletrônicos, programas de computador, programações mirabolantes, tipo videokê. Gosto das que auxiliam, são parceiras e transportam para o passado em asas de Netflix, Prime, e por aí vai. Pode ser para o futuro do passado. Pode ser o filme do biso que virou estrelinha, para os sobrinhos netos conhecerem o brilho incomparável dos seus olhos azuis. Quando foi filmado nem sabia que estava em direção a anos pra frente, não foi por isso que virou eterno, já era o destino dele ser do tipo para sempre. Não adianta. Sou da turma da Adélia Prado. A minha vontade de alegria vai até o meu mil avô.
Adélia escreveu isso no seu livro primeiro. Bagagem. É isso amizades. Bagagem tem quem sabe. Quem gosta de saber.
Tuty Osório
Jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em 2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho); todos em ebook, disponíveis, em breve, na PLATAFORMA FORA DE SÉRIE PERCURSOS CULTURAIS.
Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais.