“Saudades do sol de Mombaça” – Por Barros Alves

Barros Alves é jornalista e poeta

“Enquanto o vento europeu me castigava o rosto, era o calor da memória que me aquecia”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves

Confira:

Há poucos dias andei batendo pernas por alguns países da Europa, esses lugares onde a história parece caminhar de sobretudo e cachecol. Sofri um frio dos diabos, daqueles que atravessam o casaco, os ossos e, por fim, a alma. E foi justamente aí, entre ruas antigas e céus cinzentos, que me bateu uma saudade danada do sol causticante do meu sertão. Saudade de pisar o solo crestado, de palmilhar as veredas espinhosas da minha Mombaça, essa terra que nasceu  de Maria Pereira e que ontem completou 173 anos de emancipação política.

Enquanto o vento europeu me castigava o rosto, era o calor da memória que me aquecia. Via, como num delírio manso, a paisagem agreste se abrindo diante dos olhos: a terra dura, o verde raro e valente, a poeira que sobe como incenso profano aos céus do sertão. Mombaça não se oferece fácil; ela exige, testa, forja. Talvez por isso seja berço de tantas histórias e de tantos heróis anônimos, homens e mulheres que constroem, dia após dia, uma sociedade de bravos, com muito suor e, às vezes — ainda — com sangue.

A Europa tem sua grandeza, não nego. Monumentos que desafiam os séculos, cidades que parecem ter sido desenhadas por poetas meticulosos. Mas nada disso me consola como o aconchego simples da minha gente. Lá, tudo é pedra e memória; aqui, tudo é vida que insiste. E resiste. O concreto é que eu não troco a aridez dos sertões da Mombaça, que me viu nascer, pelas terras friorentas da velha Europa. Prefiro o sol que castiga e ensina ao frio que paralisa e distancia.

É na simplicidade do meu povo que encontro ânimo e força para combater o bom combate. Um combate que não se trava com armas reluzentes, mas com resistência, dignidade e fé no amanhã. Sigo, assim, na linhagem combativa da intrépida Maria Pereira, certo de que o sertão, com todas as suas durezas, continua sendo o lugar onde meu coração anda descalço. E, ainda assim, em casa.

Barros Alves é jornalista e poeta

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