“Falar de saúde mental no Brasil é falar de desigualdade”, aponta a psicóloga e sexóloga Zenilce Bruno
Confira:
Durante muito tempo, a Psicologia foi vista como luxo: algo distante, restrito a quem podia pagar para ser ouvido. Enquanto isso, grande parte do povo brasileiro aprendeu a engolir o choro, chamar sofrimento de frescura e seguir a vida adoecendo em silêncio.
A dor, no entanto, não escolhe CEP.
Ela está na mãe que não dorme porque não sabe como vai alimentar os filhos, no jovem da periferia que não vê perspectivas, na trabalhadora doméstica que enfrenta humilhações diárias, no homem que aprendeu que homem não chora.
O que escolhe CEP é o acesso ao cuidado.
Falar de saúde mental no Brasil é falar de desigualdade. A Organização Mundial da Saúde aponta o Brasil entre os países com altos índices de ansiedade e depressão. E quem mais sofre, muitas vezes, é quem menos consegue acessar serviços de cuidado.
Nas comunidades e nos bairros populares de Fortaleza, o sofrimento psíquico é atravessado pela fome, pela violência, pela falta de moradia digna, pelo desemprego e pela insegurança. Não há como dissociar saúde mental das condições concretas de vida.
Por isso, precisamos tirar a psicologia do pedestal e colocá-la com os pés no chão. Uma psicologia popular, acessível, que vá até onde o povo está. Que esteja nas associações de bairro, nos postos de saúde, nas escolas públicas, nos CRAS e em outros espaços comunitários. Uma escuta que não julgue, que acolha e que reconheça a história, a cultura e singularidade de cada pessoa.
Existir com dignidade é ter o direito de não ser invisível. É ter com quem falar quando a angústia aperta. É encontrar serviços públicos capazes de acolher, acompanhar e cuidar, sem reduzir todo sofrimento à medicalização. É compreender que cuidar da mente não é individualismo: é cuidado coletivo e responsabilidade das políticas públicas.
Como psicóloga, acredito em uma saúde mental que não seja privilégio, mas direito. Um direito que precisa alcançar crianças, adolescentes, adultos e idosos; homens e mulheres; pessoas das periferias e de todas as classes sociais.
Cuidar da saúde mental é ampliar possibilidades de vida, fortalecer vínculos e reconhecer que pessoa merece ser escutada. Talvez seja essa a reflexão que precisamos fazer: que sociedade estamos construindo quando tantas pessoas precisam ser fortes o tempo todo, mas nem sempre encontram espaço para simplesmente dizer que não estão bem?
O país que precisamos construir começa quando reconhecemos que ninguém deveria enfrentar a própria dor sozinho. A saúde mental do povo importa. E cuidar dela é uma forma concreta de defender a vida, a cidadania e a dignidade.
Zenilce Bruno
Psicóloga, pedagoga e sexóloga
zenilcebruno@uol.com.br