Com o título “Se as crianças escolhessem o presidente?!”, eis artigo de Leopoldo Martins, advogado, membro consultivo da Comissão Eleitoral do Conselho Federal da OAB e membro titular da Comissão Eleitoral da OAB do Ceará. “Em 2026, o Brasil não precisa de eleitores que confundam cidadania com fanatismo. Precisa de gente capaz de cobrar sem odiar e discordar sem desumanizar”, expõe o articulista.
Confira:
Imagine o Brasil entregando às crianças a missão de escolher o presidente em 2026. O debate começasse com uma pergunta: “Por que vocês brigam, se a ideia é cuidar do país?” A campanha, parecida com campeonato de torcida, ganharia um recreio e uma aula de civilidade.
No país imaginário, candidatos explicariam propostas sem gritar nem transformar adversários em inimigos. Quem insultasse perderia pontos. Quem prometesse o impossível ouviria: “Vai cumprir mesmo?”
As crianças escolheriam pela sinceridade, sociabilidade, capacidade de dividir brinquedos e disposição de pedir desculpas. A ingenuidade infantil não significa saber tudo sobre economia ou segurança. Mas ensina algo essencial: discordar não exige odiar; perder não autoriza destruir quem venceu; ninguém é melhor só porque veste a camisa de um time.
Nesse pleito, não haveria palanques convertidos em ringues nem famílias divididas por números e cores. Em vez de torcedores defendendo qualquer lance do próprio candidato, cidadãos perguntariam: quem tem propostas consistentes, respeita as regras, reconhece erros e pretende governar para todos?
Criança também faz birra e quer ganhar a qualquer custo. Mas, depois do choro, muitas vezes aceita um abraço e volta a brincar. Na política adulta, há quem transforme a birra em estratégia, a mentira em argumento e a agressividade em identidade.
Não se trata de levar o voto infantil às urnas, mas de levar às urnas algo que a infância ensina.
Democracia não é guerra para eliminar o outro nem torcida organizada para aplaudir o próprio lado. É convivência, responsabilidade, debate e respeito ao resultado legítimo.
Se as crianças escolhessem o presidente, perguntariam menos “de que lado você está?” e mais “o que você fará por todo mundo?”. A pergunta parece simples, quase ingênua. Justamente por isso, deveria constranger os adultos.
Em 2026, o Brasil não precisa de eleitores que confundam cidadania com fanatismo. Precisa de gente capaz de cobrar sem odiar e discordar sem desumanizar. Talvez a maior fantasia seja os adultos reaprenderem, com as crianças, a arte de conviver.
*Leopoldo Martins
Advogado, membro consultivo da Comissão Eleitoral do Conselho Federal da OAB e membro titular da Comissão Eleitoral da OAB do Ceará.