“Hoje vivemos em cidades partidas por territórios invisíveis. Em Fortaleza, por exemplo, muitos meninos do Barroso não podem frequentar o Cuca do Jangurussu. Não porque não queiram, mas porque essas fronteiras impostas pela violência e pelo abandono do Estado”, aponta a advogada Toinha Rocha
Confira:
O debate sobre segurança pública no Ceará continua preso a uma lógica velha, cara e ineficaz: a de que mais polícia, mais viaturas e mais presídios vão, por si só, resolver o problema da violência. Não vão. Nunca resolveram.
É claro que o Estado precisa ter sistema penitenciário. Isso é óbvio. Prisão é instrumento da lei. Mas quando a política pública se resume a correr atrás do prejuízo, a construir unidades prisionais e a blindar carros, o que temos não é segurança: é a administração do fracasso.
O Ceará prende cada vez mais e, mesmo assim, a violência só cresce. Isso deveria ser suficiente para nos fazer pensar.
O chamado “modelo Moroni” já foi duramente criticado no passado. Hoje, vemos governos repetindo a mesma receita: respostas rápidas, midiáticas e superficiais para uma população cansada da incompetência na segurança pública. O resultado é o de sempre: muito gasto, pouco efeito e nenhuma mudança estrutural.
Enquanto isso, os hospitais seguem sucateados, as filas são intermináveis, falta transparência, e chegamos ao ponto constrangedor de ver câmaras municipais e assembleias legislativas Brasil afora com parlamentares usando tornozeleira eletrônica. A crise não é só de segurança. É moral, institucional e política.
Como diz Emicida: “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes.”
E é preciso dizer de forma simples: não se previne violência com carro blindado. Previne-se ocupando a cabeça da juventude, garantindo horizonte, pertencimento, dignidade e oportunidade. Enquanto o Estado insiste em enxergar apenas números e estatísticas, segue ignorando pessoas, histórias e futuros possíveis.
Por isso, a discussão precisa mudar de lugar. Precisamos investir — investir muito — em espaços que não sejam apenas salas de aula, mas lugares de convivência, empatia, resgate da autoestima, esporte, cultura e arte. Isso não é romantismo. Isso é política pública séria.
Hoje vivemos em cidades partidas por territórios invisíveis. Em Fortaleza, por exemplo, muitos meninos do Barroso não podem frequentar o Cuca do Jangurussu. Não porque não queiram, mas porque essas fronteiras impostas pela violência e pelo abandono do Estado simplesmente não permitem.
Se o jovem não pode atravessar a cidade, então o Estado precisa atravessar por ele.
O governo pode — e deve — criar Cucas menores, equipamentos culturais e esportivos dentro dos próprios bairros, dentro das periferias, levando oportunidade até onde as pessoas estão, em vez de exigir que elas vençam sozinhas obstáculos que o próprio poder público criou.
Compare-se o custo de uma viatura blindada ou de uma unidade prisional com o investimento em juventude, cultura, esporte, mulheres e população LGBT. Aí está a verdadeira escolha política sendo feita.
Nunca se construiu tanta escola de tempo integral e, mesmo assim, nossos jovens continuam sem ter garantido o direito básico de envelhecer e de sonhar. Isso mostra que não basta prédio: é preciso projeto de vida, vínculo e sentido.
Presídios são necessários. Sempre serão. Mas nenhuma sociedade se salva construindo mais celas.
Sociedades se salvam quando constroem caminhos.
Segurança pública de verdade não começa na sirene. Começa no futuro. E o futuro é agora.
Toinha Rocha
Dirigente Nacional da Rede Sustentabilidade
Ex-vereadora de Fortaleza