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“Soberania Digital: E se o Brasil jogasse contra o Cazaquistão?” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University

“Quão soberanos somos, de fato, no mundo digital?”, aponta o professor Mauro Oliveira

Confira:

(dedicado a Paulo, Raimundo e Thais)

Confesso: sei muito pouco sobre o Cazaquistão!
Erraria uma questão do Enem sobre seu principal poeta, seu maior cientista … E, se a pergunta fosse “quem é o Garrincha deles?”, eu teria que pedir ajuda aos universitários.

Não o encontrei no álbum da “Jules Rimet 2026”. Minha neta Laís (que faz questão de me lembrar ser dela a capa do meu livro Soberania Digital … rsrsr) me obriga, com aquele seu estilo “VÔdemocrático, a participar da operação semanal de completar as figurinhas. Ela tem o Mbappé em triplicata, dois Vini Jr, mas o Cazaquistão… hum? Tá lá não, viu!

Tampouco vi o Cazaquistão frequentar os mapas mentais dos novos cruzados digitais do Ocidente, esse admirável mundo novo geopolítico das Big Techs. Este Cazaquistão nem despertou a atenção da vice-supremacia do J D Vince (apadrinhado de Peter Thiel da Palantir Technologies). David-vice continua empenhado em auxiliar seu “Escoteiro em Chefe”, Trump Power. Uma missão admiraaaaável! Afinal, não é todo dia que alguém se propõe a desobstruir… aquilo que já estava desobstruído.

Por falar em Palantir, essa bilionária “Ku Klux Klan digital” que espiona o mundo a serviço dos EUA. O CEO deles, é o “assanhado” Alex Karp. Como ex-sacristão da Igreja do Carmo, eu até reluto em chamar este nauseabundo de “tecnofascista”… mas aí fica difícil, porque este ele já declarou abertamente na mídia americana (a brasileira parece não se interessar por assuntos sem sangue imediato) que a Palantir existe para matar inimigos. ISSO. Sem eufemismo, disse Alex, o terrível: “to kill our enemies and scare them because they know they will be killed.”

Padre Gaspar, bota aí esse “apatetado” de castigo na sacristia (sem direito a vinho, só água de pote mesmo) … rsrsr. Como penitência, que tal ele ler (e sem usar ChatGPT para resumir) a “Magnifica Humanitas” do Leão (pense num “Cientista Arretado” corajoso, né não Fernando Buarque …rsrs). Tudo isso antes dele ir pro encerramento da Copa no MelLIfe Stadim, representando o Trump Power com medo de uma vaia NBA.

Pois bem. Para aliviar um pouco a pororoca digital provocada pelo Manifesto da Palantir, caiu na minha “arquibancada de colonizado” um estudo da UnB sobre o Digital Sovereignty Index (DSI), um indicador que procura medir algo que precisaria ser mais discutido: o grau de soberania digital de um país.

O paper “Digital Sovereignty Index (v.1.0): An Expert-Coded Country Ranking of Digital Sovereignty”, coordenado pela professora Isabela Wagnerovna Rocha-Dashicheva e colaboradores, publicado no início de 2026, avaliou 86 nações segundo suas capacidades em hardware, software, cognição e governança digital.

O retrato revelado pelo estudo é tão rigoroso quanto incômodo. E nos obriga a encarar uma pergunta que o Brasil vem adiando há tempo demais:

Quão soberanos somos, de fato, no mundo digital?

A resposta não é animadora. O Brasil ocupa a 48ª posição entre 86 países, com um DSI de 57,8.

Empatado com Egito, Argentina e … adivinhem quem finalmente apareceu?

O dito cujo Cazaquistão.

E o constrangimento não termina aí. Estamos atrás do Uruguai, da Costa Rica e do Quênia. Constrangedor assim.

Vejam as quatro dimensões do DSI brasileiro:

Hardware 43,75: dependência severa de semicondutores, componentes críticos e infraestrutura de ponta estrangeira;
Software 62,5: nosso ponto forte. PIX, Nota Fiscal Eletrônica, sistemas eleitorais reconhecidos mundialmente;
Cognição 62,5: pesquisa existe, universidades existem, pesquisadores existem. O que falta é essa inteligência participar da estratégica nacional. É justamente o que propomos no livro SABIA (maurooliveira.blog);
Governança 56,25: leis existem. A LGPD existe. O que não existe é capacidade real de “enforcement”: disciplinar as grandes plataformas, impor obrigações aos provedores, fazer valer a lei quando quem a descumpre é maior que o Estado.

A média desses quatro números nos coloca abaixo de países que não têm um décimo das nossas universidades, dos nossos pesquisadores, do nosso mercado consumidor ou das nossas reservas estratégicas. Constrangedor de novo, né não?

O Brasil tem universidades, tem cientistas, têm instituições que já provaram ser capazes de “ciência de fronteira” quando decidem que querem. O que nos falta então?

Temos lítio, nióbio (maior jazida mundial), “terras raras” (a segunda maior reserva do planeta) e grafite (idem) que nos tornam potencialmente indispensáveis nas cadeias tecnológicas do século XXI. O DSI reconhece isso e em seguida aplica o balde de água fria: possuir recursos sem capacidade industrial e de governança para capturar valor internamente não é soberania. É repetir a velha história da borracha e do minério de ferro: exportamos a matéria-prima, mas deixamos que outros transformem tecnologia em poder, recursos naturais em valor agregado.

O estudo da Profa Isabela Wagnerovna revela o Brasil como caso típico de assimetria entre consciência estratégica e capacidade efetiva. Entendemos o problema. Publicamos estratégias. Criamos grupos de trabalho. Fazemos seminários. Mas seguimos dependentes das mesmas infraestruturas estrangeiras.

Talvez o maior desafio brasileiro não seja descobrir o caminho, mas percorrê-lo.
Entendemos a armadilha. O problema é que ainda moramos dentro dela.

O achado mais importante do estudo da UnB não é o ranking. É o diagnóstico sobre por que alguns países mandam e outros obedecem.

A resposta não é apenas dinheiro. Não é apenas tecnologia. É governança e cognição.

A Europa não fabrica os melhores chips do mundo. Não tem as maiores plataformas digitais. Mas o GDPR, sua legislação de proteção de dados, obrigou Google, Meta, Amazon e Apple a adaptar seus sistemas, contratos e arquiteturas operacionais às exigências europeias.

Isso é soberania regulatória. A Europa compreendeu que dados são ativos estratégicos e não mercadorias disponíveis a quem chegar primeiro. O CLOUD Act americano reforçou essa percepção europeia ao permitir que autoridades dos EUA acessem dados sob custódia de empresas americanas, mesmo quando armazenados fora do país. É “de lascar o cano” e a pouco se fala de grande parte da ciência brasileira no Google Drive.

Voltemos ao Cazaquistão. Por que estamos empatados com ele se em quase todos os indicadores, o Brasil o supera amplamente?
Estamos empatados porque, na prática, ambos os países ainda não converteram sua consciência estratégica em capacidade operacional, em valor agregado, em governança.

A diferença é que o Cazaquistão tem uma desculpa geográfica, histórica e institucional. Nós não temos desculpa nenhuma.

o Brasil precisa primeiro construir algum grau de soberania doméstica real. “Governança com dentes e coragem”. Capacidade industrial. Ecossistemas cognitivos que transformem pesquisa em política pública.

Sem isso, trocar dependência americana por dependência chinesa não é soberania. É apenas mudar o endereço da “refinaria”.

No artigo sobre o Manifesto Palantir, perguntei: quem controlará as refinarias da inteligência no século XXI? O DSI responde com números.

A 48ª posição não é uma fatalidade geográfica, uma maldição histórica ou um capricho estatístico. É uma escolha. E escolhas podem ser mudadas.

Então, … e se o Brasil jogasse contra o Cazaquistão?
O DSI sugere que Brasil e Cazaquistão entrariam em campo para um melancólico 0 x 0.

Bem diferente do belo 3 x 1 que a “Seleção de João Saldanha” (vale assitir “Brasil 70” na Netflix) aplicará daqui a “papouco” no time da Casablanca da minha linda Ingrid e do feioso Bogart. As Time Goes By…

Aliás, apostei um Malbec neste resultado em um “bolão” com os ex-presidentes da SBC Raimundo Macedo (guardião da Mata Atlântica baiana) e Paulo Cunha (o John Locke da revolução digital do Recife); e com a Thais Batista, nossa atual presidentA (com A de inteligênciA, A de competênciA e A de empatiA). Uma trinca de cientistas comprometida com a soberania brasileira!

Esse Malbec já é meu.
Quem mais quer apostar? … rsrs.

Mas deixa pra lá, porque o jogo que realmente importa …
É contra a nossa dependência tecnológica.
É o jogo da soberania digital.

Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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