“Fiquei tentando entender o que podia ter feito uma pessoa jogar na calçada uma escrivaninha inteira, com inúmeros exemplares de livros”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
Os semáforos em vermelho, que nos fazem parar, funcionam para mim como momentos de observação. Meus olhos logo se movimentam em busca do que posso ver naqueles segundos em que o tempo vem no contrafluxo da nossa pressa. Aproveito para registrar o que chama a atenção.
Muitas vezes me surpreendo com possíveis significados que as imagens trazem. Esta semana, fiquei tentando entender o que podia ter feito uma pessoa jogar na calçada uma escrivaninha inteira, com inúmeros exemplares de livros. Deu para ver que alguns eram sobre Direito. Estavam na avenida Rui Barbosa, em Fortaleza.
Será que o dono passou em um concurso e quis esquecer as longas horas de estudo, privadas de diversão? Um casal se separou e um dos dois, com raiva, jogou fora os objetos de desejo do outro? Terá sido falta de recurso para pagar um frete rápido que levasse tudo? Ou uma avareza tal que preferiu abandonar ao relento aquilo que poderia fazer diferença para alguém?
Pode ser que o dono leia esta crônica, me responda e eu descubra o que aconteceu. Pode ser que eu nunca saiba, até porque pega multa quem descarta material assim nas ruas.
Trouxe esta história aqui pra refletirmos sobre abandono, desapego e compartilhamento. Minha proposta é que, antes de dispensar algo que não mais será usado, seja feita uma análise de quem pode estar precisando, entrar em contato e encontrar uma forma colaborativa de passar para a frente. Saber que vai ser útil para alguém é sempre o melhor caminho.
Ana Márcia Diógenes
Jornalista e escritora